Internacional

O drama argentino que nos afeta

O fracasso de Macri deve recolocar o desacreditado kirchnerismo no poder. O problema seria só deles, caso o populismo de esquerda não ameaçasse o acordo do Mercosul com a União Europeia, fundamental para o Brasil

Crédito: REUTERS / Agustin Marcarian

VOLTA PROVÁVEL Alberto Fernández e a vice Cristina Kirchner, que enfrenta processos por corrupção e pode retornar ao poder (Crédito: REUTERS / Agustin Marcarian )

O liberalismo do presidente da Argentina Mauricio Macri, aplicado a conta-gotas, não foi capaz de reverter o estrago que o populismo de esquerda de seus antecessores, Cristina e Néstor Kirchner (2003-2015), tinham causado. Com a perspectiva da volta do kirchnerismo, a segunda maior economia da América do Sul foi ao chão. Incapaz de acertar as contas públicas e atrair investimentos mediante reformas econômicas modernizantes, Macri está em vias de ser substituído por Alberto Fernández, que venceu as prévias eleitorais da semana passada com 47,6% dos votos – ele tem a ex-presidente Cristina Kirchner como vice. A eleição será em 27 de outubro, quando ocorrerá também a renovação de metade da Câmara e de um terço do Senado, o que pode dar uma sólida maioria para a atual oposição.

“Em 2015, acreditaram que seria fácil. Eu também acreditei. Mas o ponto de partida foi a partir do décimo subsolo” Mauricio Macri, sobre o fracasso de seu governo

O resultado indica que o eleitorado tende a trocar quem entrou engomado e ficou rapidamente roto por conhecidos maltrapilhos do peronismo, em uma alternância política pendular e paralisante, em vez de buscar uma terceira via – como fez o Uruguai. O Brasil chega a parecer uma economia pujante diante da Argentina pós-Kirchner, onde os juros estão em 74%, a previsão de inflação é de quase 50% em 2019 e 30% da população passou a viver na pobreza. Dificilmente o governo Fernández conseguirá reverter esse quadro com políticas populistas. O cenário preocupa, já que o vizinho é nosso principal sócio do Mercosul e terceiro maior parceiro comercial. Só entre janeiro e julho deste ano houve uma queda de 40% nas exportações para lá, em relação ao mesmo período do ano anterior.

Erros de Macri

O pior erro de Macri foi tentar fazer reformas modernizantes de forma gradual, para driblar resistências e não prejudicar sua popularidade. Com isso, a economia do país não se recuperou. Prometeu derrubar a inflação, mas ela persistiu — e aumentou no último período. Enfrentou uma crise de insolvência, que levou a Argentina a recorrer ao FMI. Deixar de enfrentar os problemas estruturais da economia foi uma atitude que cobrou seu preço, e isso é uma lição para o Brasil. Os riscos agora crescem. O caráter protecionista de um provável governo de Fernández-Kirchner ameaça o futuro do acordo Mercosul-União Europeia (UE), essencial para ampliar as exportações brasileiras. O peronista já criticou o acordo com os europeus. Daí a necessidade de se negociar no âmbito do Mercosul mecanismos que garantam o tratado com a UE mesmo se os argentinos recuarem ou protelarem sua entrada. Algo que antes de começar já fica em risco com as declarações nada diplomáticas do presidente Jair Bolsonaro, que na quarta-feira 14 afirmou que “bandidos de esquerda começaram a voltar ao poder” na Argentina. Também disse que a Região Sul poderia receber levas de imigrantes, se tornando um novo Roraima. Foi uma grosseria que ignorou a soberania democrática das urnas alheias. Em resposta, Fernández afirmou que Bolsonaro é “racista, misógino e violento”.

REAÇÃO O presidente Macri, após a derrota nas prévias: “É responsabilidade exclusivamente minha” (Crédito:Natacha Pisarenko)

Diante da iminência da derrota em outubro, Macri também apelou para o populismo com um pacote. Bônus serão pagos aos trabalhadores em setembro e outubro, a ajuda social para desempregados aumentou, funcionários públicos receberão um abono e o salário mínimo deve subir. Agora, que é tarde demais, críticos dizem que as medidas foram lentas e insuficientes. Outros, que Macri prestou mais atenção ao marketing do que à articulação com os setores produtivos. Pior é que parte dessa conta vai sobrar para o Brasil.

“A crise já era séria com juros a 60%. Imagine agora que o Banco Central teve que elevá-los a mais de 74%. Precisamos sair desse caminho de caos” Gabriel Rubinstein, consultor e ex-economista do Banco Central argentino