O discurso

Quando o telefone tocou, o ex-presidente acordou de sua soneca da tarde, assustado.

Há meses ninguém ligava para ele.

Mensagens, só recebia as de desconto de aplicativos de entrega.

– Alô? – atendeu desconfiado.

– Michel?

– Sim…

– É o Jair.

Ao reconhecer a voz, o ex-presidente se ajeitou da poltrona.

– Presidente! Mas que honra!

– Michel, o pessoal aqui está dizendo que precisa da sua ajuda, tá ok?

– Claro, presidente! Estou sempre à disposição do meu País.

– Não é o Brasil que você precisa ajudar. É que eu andei falando aí umas verdades e o pessoal está dizendo que pode dar problema.

– É presidente… eu ouvi o discurso. Realmente, o senhor falou além da…

– Isso. Você já entendeu. Mandei meu avião buscar você aí. Venha para cá que a gente conversa melhor.

O ex-presidente não perdeu tempo. Vestiu seu terno mais garboso e poucos minutos depois já estava no avião presidencial rumo à Brasília. Durante o voo, sabendo o que seria solicitado, começou a escrever o rascunho de um discurso presidencial, se desculpando dos excessos da véspera.

Não foi arrependimento, mas a carta apagou o incêndio do Sete de Setembro

Ao chegar a Brasília, presidente e ex-presidente tiveram uma reunião fechada.

Nela o ex-presidente explicou ao atual que, se ele queria evitar uma crise institucional, teria que se dirigir ao povo e admitir seus erros.

– Erros? Mas eu não errei caceta. Você também Michel?

– Desculpe presidente… erros não… exageros talvez?

– Tá. Aí pode ser.

– Então presidente… agora não é hora de agredir outros Poderes. Quem sabe o senhor poderia pedir desculpas ao…

– Nem pensar! Desculpas eu não peço mesmo!

– Ok… ok… então ao menos admitir que no calor do momento… Calor do momento eu gosto, respondeu Bolsonaro.

O ex-presidente abre sua pasta e apresenta o rascunho do discurso para o mandatário.

– Eu rabisquei aqui algumas ideias…

– Pode ler você mesmo. Assim eu presto mais atenção.

Enquanto lia, o presidente caminhava pela sala corrigindo o ex-presidente.

– “Alexandre, o grande”, nem pensar.

– “Perdão Barroso”, também não quero.

– “Honrada CPI”, tira o honrada.

Duas horas depois, o documento estava pronto.

– O que você acha, Michel? Isso basta?

– Bem… esse texto somado a uma meia dúzia de cargos bem distribuídos, acho que resolve.
O presidente chamou seus assessores.

– Olha gente, eu escrevi aqui com o Michel, uma coisinha para falar para povo. Vou ler aqui para vocês. Terminada a leitura, os assessores estavam visivelmente aliviados.

– Vamos gravar então. Michel, você já sabe de cabeça ou precisa de uma colinha?

– Como assim presidente? — o ex-presidente estava confuso.

– Ué, é você que vai ler isso, né?

– Não presidente! A idéia é que o senhor leia, para dar mais credibilidade.

– Eu? Mas eu nunca li um discurso, gente. Eu falo de improviso!

Um assessor murmurou um “por isso mesmo”, mas ninguém ouviu. Mourão interferiu.

– Presidente, esse texto só faz sentido se o senhor ler… é preciso mostrar seu arrependimento!

– Arrependimento? Mas eu não estou arrependido, tá ok?

O ex-presidente interviu.

– Não é arrependimento presidente. Na verdade o senhor vai demonstrar que entende a importância de unir o País nesse momento. — e piscou para Mourão.

Organizaram a coletiva para que o presidente lesse o discurso.

De volta para o palácio, o presidente agradeceu ao ex-presidente.

– Obrigado, pela ajuda, viu Michel? Tô te devendo uma.

– Que é isso presidente! Estou sempre a sua disposição para apagar qualquer incêndio!

Indignado, o presidente não se conteve.

– Pô Michel! Até você?! Não me fala em bombeiro, caceta!


Sobre o autor

Mentor Muniz Neto, 51, é escritor. Mora em São Paulo com suas filhas Manuela, Olivia e Catarina e escreve crônicas do cotidiano que às vezes parecem realismo fantástico


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