Internacional

O difícil crescimento do Japão

O novo primeiro-ministro, Fumio Kishida, garante a hegemonia política do Partido Liberal Democrata e precisará lidar com a estagnação econômica e o forte declínio populacional

Crédito: Toru Hanai/Pool/Bloomberg

DESAFIO Kishida precisará contrariar interesses no próprio PLD para fazer reformas (Crédito: Toru Hanai/Pool/Bloomberg )

TECNOLOGIA Fábrica da Sony: indústria do país caiu 10,1% em 2020 (Crédito:Divulgação)

A retomada econômica pós-Covid-19 e o forte declínio demográfico são os maiores desafios do novo primeiro-ministro do Japão, Fumio Kishida, de 64 anos. Eleito com o apoio dos ex-premiês Shinzo Abe e Taro Aso, caciques do Partido Liberal Democrata (PLD), Kishida tomou posse na segunda-feira, 4, e antecipou as eleições gerais para 31 de outubro. Um político com baixo carisma, Kishida tentará obter legitimidade popular por meio do pleito. Caso vença – como é esperado –, ele terá três anos para implantar a sua política. O novo homem forte do Japão projeta gastos de US$ 1,4 trilhão com o foco na classe média e nas pequenas empresas. O grande desafio é resolver o problema crônico de falta de produtividade na economia, que não cresce há muitos anos. Outro problema que Kishida precisará resolver é o forte declínio demográfico japonês.

Os números mostram a dificuldade do país em crescer. Em 2020, o PIB japonês despencou 4,83% por causa da pandemia. Em 2021 a projeção é de um crescimento um pouco superior a 3%. Mas isso não muda o fato de que o PIB japonês, na década passada, só teve expansão superior a 1% em 2017. Embora o Japão tenha o terceiro maior PIB do mundo, superior a US$ 5 trilhões, sua economia se encontra perto da estagnação há vários anos. O problema demográfico, por outro lado, é de solução ainda mais complexa. Em 2020, a população de japoneses natos caiu pelo 12º ano consecutivo, para 123,6 milhões de pessoas. A população japonesa diminui em 400 mil pessoas por ano. Aqueles com 65 anos ou mais formam 28,7% da população, a maior proporção de idosos no mundo.

Kishida ainda não se manifestou sobre a imigração, mas poderá intensificar a política de Abe, o líder mais popular do país nas últimas décadas, que se afastou por um problema de saúde e ficou marcado pela tentativa de retomar o protagonismo japonês, inclusive militar, no cenário internacional. O número de estrangeiros residentes no Japão cresceu em 340 mil após uma reforma promovida em 2019 por Abe, que facilitou a entrada de trabalhadores do exterior. Foi uma tentativa de resolver uma trava para a expansão do país. Em 2019, uma projeção do Ministério da Saúde estimou que, ao se manter a taxa de natalidade japonesa (1,4 filho por mulher), a força de trabalho cairá de 65,3 milhões de pessoas para 52,2 milhões em 2050. A maioria dos imigrantes vem das Filipinas e da Indonésia para trabalhar em serviços de baixa e média qualificação. A indústria, que empregou muitos brasileiros de origem japonesa no fim dos anos 1990, hoje está automatizada. A falta de mão de obra pode ser expressa pelos indicadores de trabalho. Em 2020, com a pandemia, o Japão viveu o paradoxo de ter mais empregos disponíveis do que pessoas à procura por trabalho. A taxa nacional de desemprego foi de apenas 3%.

Rotatividade

A ascensão de Kishida é sintoma de outro problema que afeta o país: a brevidade da imensa maioria dos governos e o traço muito conservador do próprio establishment, que impede o país de enfrentar obstáculos e destravar a baixíssima mobilidade social. Embora a maioria dos japoneses seja da classe média, com renda per capita superior a US$ 40 mil, a população não gasta dinheiro e prefere poupar. Outro problema é integrar os imigrantes à sociedade. “Estamos prontos para ser um país de imigrantes?” questiona Ippei Tori, um ativista dos direitos dos imigrantes em Tóquio.

Kishida é o 100º primeiro-ministro do país desde a Segunda Guerra, para se ter uma ideia da rotatividade do poder. “São raros os premiês japoneses que conseguiram fazer reformas profundas. Um deles foi Junichiro Koizumi”, diz Márcio Coimbra, cientista político na Faculdade Presbiteriana Mackenzie em Brasília. Koizumi governou entre 2001 e 2006, enfrentando lobbies poderosos, inclusive dentro do PDL. Ele expulsou deputados e privatizou os Correios. O PDL, que na década de Koizumi virou o maior partido japonês, tem várias correntes e grupos de interesse. “O premiê que tenta realizar reformas rápido demais é derrubado dentro do próprio partido”, lembra Coimbra. O antecessor de Kishida, Yoshihide Suga, caiu em desgraça após uma gestão bastante criticada na pandemia, que culminou com o aumento de infectados por Covid durante a Olimpíada de Tóquio. Ficou apenas um ano no cargo. Na terra do Sol Nascente, nenhuma mudança é rápida.