O dia 8 de setembro

Há galos que acham que o sol nasce somente para escutá-los cantar. Não sei se passa muita coisa pela cabeça de galo, mas de um ponto eu tenho certeza: esses galos egocêntricos jamais cogitam a hipótese contrária, a de que eles só cantam porque o sol nasce. Não percebem que o sol é muito mais vital que seus cacarejos. Assim, como tais galos, se sentem os ditadores. E, também assim, os ditadores, mais dia, menos dia, quebram o bico, perdem as penas, some-lhes a voz. E a crista apequena-se. Murcha. Isso é bom, muito bom para todos aqueles que, como eu, defendem a democracia, o Estado de Direito e as bases do devido processo legal.

A ciência política ensina que um dos frequentes erros na análise de conjunturas sociais é confundir desejo com realidade. Também a psicanálise, sobretudo no enfoque lacaniano, lança boas luzes sobre essa questão — e eu ouso acrescentar, trazendo Jacques Lacan para a teoria política, que “desejo” talvez seja a vontade de governar e “demanda” talvez seja a vontade de governar, mas de forma ditatorial. Ainda socorrendo-me de Lacan, consideremos realidade “tudo aquilo que não cessa de se inserir em nosso mundo psíquico”. Os ditadores não conseguem subir essa escada de interpretação e, em decorrência, misturam desejo e realidade. Fica-lhes o cérebro obnubilado.

Para derrotar Bolsonaro, aqui vai um antigo ditado do folclore na época do Império: “água de bêra bebe na ribeira”

Não é diferente com Bolsonaro. A sua reeleição tornou-se miragem de sedento no deserto, e ele acredita na reversão do isolamento promovendo um Sete de Setembro anárquico. Anarquia de greve, anarquia de manifestações, anarquia de vandalismo — sim, haverá vandalismo de extrema-direita disfarçada em não extrema-direita, para que o presidente jogue a culpa na esquerda e naqueles que politicamente se posicionam longe da polaridade. Os bolsonaristas são, acima de tudo, agentes provocadores.

Bolsonaro delira com o dia seguinte: acordar e ridiculamente achar que seu espadim vale tanto quanto a espada de Napoleão (adaptando a clara imagem criada por Machado de Assis). Acordar, ir do Palácio da Alvorada ao Palácio do Planalto, olhar a Praça dos Três Poderes e dizer: “tudo fechado”. Esse acordar-dormindo é a mente obnubilada. O dia seguinte raiará, sim, mas com todos os poderes republicanos e as instituições democráticas operando — e o canto do galo para Bolsonaro soará mais distante, como a lembrar-lhe de que, a cada nascer do sol, ele estará mais isolado. É a solidão dos que têm muita sede de poder. E, falando-se em sede de poder, a derrota do galo Bolsonaro está em um antigo e bom ditado que vem do folclore dos tempos do Império: “água de bêra bebe na ribeira”.


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