Está cada vez mais difícil para os que negam o aquecimento global sustentarem suas posições.O mês de fevereiro na Antártida, o continente coberto por gelo e que pouco propicia o desenvolvimento de vida, está registrando as temperaturas mais altas da história para a região. No dia 9 de fevereiro, os termômetros do Terrantar, um projeto coordenado por pesquisadores brasileiros da Universidade Federal de Viçosa, registraram 20,75°C na Ilha Marambio da Península Antártica, situada na ponta noroeste do território miais próximo da América do Sul. Três dias antes, a temperatura chegou a 18,3°C. O recorde era de 17,5°C, de 24 de março de 2015.

Os pesquisadores do Terrantar não afirmam que as temperaturas excepcionalmente altas estão conectadas diretamente com o aquecimento global, afinal, foram medições feitas em um curto período de tempo e que podem representar alguma anomalia. Mas, sem dúvida, se trata de um sinal de alerta. Um dos cientistas, Márcio Francelino, disse que nunca havia presenciado temperaturas tão elevadas nos 17 anos em que esteve na região, e que chegou até a usar short e camiseta no dia 9, em que a temperatura ultrapassou os 20 graus. Consequência ou não da mudança climática, janeiro deste ano foi catalogado como o mês mais quente que se tem registro desde 1880, quando a Agência Americana de Administração Oceânica e Atmosférica começou a fazer medições. Os números comprovam um crescimento acentuado de 1,14 grau centígrado na temperatura global em relação ao século 20. De acordo com a instituição, a extensão de gelo no Oceano Antártico diminuiu 9,8% entre 1981 e 2020, de forma que 87% das geleiras da costa oeste do continente diminuíram de tamanho nos últimos cinquenta anos — a quantidade perdida de gelo cresceu seis vezes no período.

O clima mais quente numa região tão fria pode provocar eventos climáticos extremos em outros continentes, como chuvas fortes

Dias depois dos registros das altas temperaturas, o satélite europeu Copernicus detectou gigantescas rachaduras nas geleiras da Ilha Pine. O iceberg que se desprendeu do continente tem a extensão de 300 quilômetros quadrados, uma área gigantesca, equivalente ao tamanho da cidade de Belo Horizonte. De acordo com o Centro de Observação da Terra da Agência Espacial Europeia, que administra o programa, o desequilíbrio no sistema glacial está diretamente ligado ao aquecimento do planeta. Apesar do processo de derretimento ser natural, as taxas do fenômeno observadas na Antártida Ocidental, onde está situada a ilha, são maiores do que em qualquer época observada pelo satélite.

Com o clima mais ameno no continente, a formação de rios supraglaciais, que cortam as geleiras e criam túneis abaixo delas, pode ser constatada. Visando atrair a atenção do mundo para o problema, o nadador e ativista britânico Lewis Pugh, patrono dos oceanos da ONU, tomou para si o arriscado desafio de nadar nestas águas, tornando-se o primeiro homem a fazer isso. Ele é um nadador de resistência de longa data, faz isso há 33 anos e já completou longos nados em todos os oceanos do mundo. Após meses de treinamento com médicos e fisiologistas, ele completou o desafio no dia 20 de janeiro deste ano, em um nado de pouco mais de dez minutos pelos rios utilizando apenas uma touca e uma sunga. Rapidamente após sair da água, de temperatura pouco maior que zero grau, ele recebeu o atendimento dos médicos para não sofrer com a hipotermia. “Eu não tenho a intenção de morrer. Faço esses nados porque amo toda a vida na Terra. Não sei mais o que eu posso fazer para que os líderes mundiais entendam que não temos mais tempo”, disse Pugh por meio de suas redes sociais, pouco antes de entrar nas águas do continente gelado pela primeira vez.

Impactos imediatos

As altas temperaturas ma região podem ter provocado efeitos no Brasil. O professor da UFGRS e climatólogo Francisco Aquino explica que, no sistema climático da atmosfera, a entrada de ar quente para uma região fria é seguida da saída de ar frio para outra localidade. Por essa hipótese, o ar quente que entrou pela península antártica resultou na saída de ar frio em direção à América do Sul. Essa frente fria, combinada com o corredor de umidade vinda da Amazônia, pode explicar as fortíssimas chuvas que atingiram São Paulo no dia 10 de fevereiro — um dia depois da temperatura recorde da Antártida. “Talvez seja prematuro dizer que só as frente frias estão gerando essas tempestades, mas elas são um elemento importante na intensificação dessas chuvas”, explica. O professor estuda tais fenômenos há mais de 20 anos, com algumas viagens para o continente antártico no currículo, e faz um prognóstico pouco animador para os eventos climáticos extremos que temos presenciado. “Todos eles se encaixam no cenário de planeta quente ou até mais quente ainda. Esses fenômenos vêm se amplificando”, explica. Evitar o aquecimento é, cientificamente, urgente.