Comportamento

O custo do desmatamento

Estudo calcula que enfraquecimento de leis ambientais no Brasil pode gerar perdas de US$ 5 trilhões em compensações de CO2 até 2050

Crédito: Greenpeace/Alberto César Araújo

Em busca de apoio parlamentar da bancada ruralista, que possui 209 deputados e 26 senadores, o governo do presidente Michel Temer vem flexibilizando leis ambientais para favorecer a produção agropecuária e mineral. As consequências dessas iniciativas, porém, tendem a ser nefastas. Caso chegue ao extremo, o enfraquecimento das políticas de proteção ao meio ambiente pode gerar um custo global de US$ 5 trilhões (o equivalente a mais de R$ 19 trilhões) em compensações de emissões de CO2 até 2050. O alerta é do estudo “The threat of political bargaining to climate mitigation in Brazil” (“As ameaças da barganha política para a mitigação climática no Brasil”, em tradução livre), divulgado essa semana na Science Climate Change, uma das principais publicações sobre mudanças climáticas do mundo. “Esse é o quadro caso as ações brasileiras de controle ambiental sejam extintas. Eliminar o Ministério do Meio Ambiente, por exemplo, como sinalizou o presidenciável Jair Bolsonaro, levaria a essa situação”, diz Raoni Rajão, coordenador do laboratório de Gestão de Serviços Ambientais da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e um dos dez pesquisadores brasileiros que assinaram a pesquisa.

“Não podemos criar novas leis que facilitem o desmatamento. Precisamos endurecer as leis ” Roberto Schaeffer, professor de engenharia da UFRJ

Caso as projeções mais pessimistas se confirmem, a área desflorestada no Brasil, em 2050, totalizaria 1,6 milhão de km2, uma perda de aproximadamente um terço da cobertura florestal do País. Na prática, uma quantidade enorme de CO2 estocada nas florestas iria para a atmosfera, o que prejudicaria o cumprimento do Acordo de Paris, assinado pelo Brasil e outros 195 países, em 2015. No tratado, as nações se comprometeram em reduzir as emissões de CO2 e limitar o aquecimento global em 2° C. Com o desmatamento projetado no pior cenário, os países teriam de diminuir a atividade industrial e investir em tecnologias caras para compensar as emissões, o que geraria a perda trilionária.

A pesquisa verificou que, no período de 2005 a 2012, o desmatamento da Amazônia caiu consideravelmente, de 19 mil para 4,6 mil km2 ao ano. A partir de 2012, no entanto, os números voltaram a subir. “Quando o Brasil assinou o Acordo de Paris e se comprometeu a chegar em 2030 com desmatamento zero, ninguém imaginava que os índices voltariam a subir e quase dobrar. Algo novo aconteceu nos últimos anos e projetamos isso no estudo”, diz Roberto Schaeffer, líder da pesquisa e professor do programa de pós-graduação e pesquisa de engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ).

Esse período de aumento do desmatamento, que vai de 2012 a 2017, baseou o cenário chamado de “intermediário” pelos pesquisadores. Se ele se mantiver, o desmatamento anual crescerá para 17 mil km2 na Amazônia e 15 mil km2 no Cerrado até 2030, o que trará um prejuízo de US$ 2 trilhões. Já o cenário otimista foi chamado de “forte” pelos especialistas e é baseado em políticas ambientais rígidas, adotadas no Brasil entre 2005 e 2011. Nele, o desmatamento da Amazônia e do Cerrado cairia para menos de 4 mil km2 ao ano. Esse seria o quadro e com menor custo para as nações. Realizá-lo, no entanto, depende de um governo com boa vontade. “Não podemos criar novas leis que facilitem o desmatamento. Precisamos endurecê-las e garantir que elas sejam cumpridas com o aumento da fiscalização”, diz Schaeffer.