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O culto personalista a Messias

Crédito: Reprodução/TV Globo

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O guru da Virgínia, Olavo de Carvalho, acaba de dar um novo tom, com ares de desespero, à militância bolsonarista. Diante do desembarque acelerado de aliados e apoiadores, ele estabeleceu a ordem unida: Messias, no Planalto, precisa de um exército de simpatizantes que seja só dele, e não de pautas. Sugeriu a montagem de uma espécie de banco de dados dos convertidos, cadastrando esses aspirantes a recrutas, que devem assumir a trincheira de defesa do presidente a qualquer custo. Se antes o mantra de convocação era “Deus acima de todos”, agora virou para “Bolsonaro acima de tudo”, em um culto personalista digno das maiores tiranias e que tem assombrado inclusive a base partidária, provocando rupturas e guerras abertas. Formulário com pedido de email, nome completo, celular e outros dados será distribuído entre ativistas da causa. Processar adversários, veicular louvações ao chefe, fazer o diabo pela celebração do Mito entraram no rol de artilharia. Os defensores do movimento agem como fanáticos sem noção, verdadeiros adoradores de uma seita que vai perdendo o senso do certo e do errado. Qualquer dia pregam gigantescos cartazes pelas ruas e nos prédios com a imagem de seu foco de idolatria. Para veneração geral, quem sabe! O rebanho não tolera resistências, críticas, reparos. Se o líder quer acobertar os erros dos filhos, distribuir benefícios à família, praticar nepotismo, desbaratar estruturas de fiscalização que o incomodaram, maquiar estatísticas, espalhar fake news, atacar parceiros internacionais gerando prejuízos em retaliações, ok. E daí? O Mito pode. Ele manda, ele sabe, ele quer o melhor (para quem?). Que ninguém venha questionar. Não importa a interlocução, não valem contra-argumentos, mesmo que legítimos. Meras futricas. A dialética para essa tropa de choque inexiste e quem insiste nela está a serviço de interesses do inimigo. Incrível aceitar como alguém pode se engajar numa presepada dessas. Típico de torcida organizada que parte ao quebra pau como solução de seus recalques. Olavo, no comando, prega daqui para frente um radicalismo ainda mais extremado e, a julgar pela predisposição da Primeira Família, está logrando o endosso dela à cruzada. Antes na pauta de prioridades, o combate à corrupção virou quimera e deve ser esquecido, abandonado, engavetado. O que importa, meta número um, é trucidar “o comunismo, seus idiotas!”. A invocação do guru vai com o xingamento incluído. O mandatário em pessoa adora o jeitão e os conselhos do alterego da Virgínia. Os filhotes Flávio, Carlos e Edu também não escondem a admiração. Na tática do clã e do general desbocado, o núcleo duro dessa república de desatinos, está traçada uma ofensiva implacável nos tribunais, entuchando a Justiça com processos aos montes contra os “esquerdistas” para que eles não tenham tempo de revidar. Na busca de respaldo dos oligarcas do magistrado, os bolsonaristas querem enterrar de vez a CPI da Lava Toga, sugerida no Congresso para desbaratar abusos do alto comissariado legal. Pode-se dizer que bolsonaristas e anti-lavajistas firmaram um acordo de interesses, um bem bolado de abafa geral, quase conluio, pela proteção comum da patota. O mandatário em pessoa não desejava o avanço de investigações na Receita Federal, no Coaf e na PF – responsáveis pelo que classificou de “devassa” a sua família – e conseguiu se acertar com o presidente do STF, Dias Toffoli, que emitiu um veto às averiguações sobre o filho Flávio. Toffoli assentiu com gosto ao desejo da Primeira Família e, por tabela, evitou que ele mesmo e colegas do Supremo passassem pelo mesmo constrangimento. O País que fique a ver navios sobre eventos obscuros do poder constituído. A Casa Grande, como sempre, vai mandando e governando na base de motivações pessoais. A Operação Lava Jato, que desbaratou o maior escândalo de desvio de dinheiro público da história, encontra-se no momento à míngua, com poucas ferramentas para seguir adiante. Afinal, procuradores, auditores e delegados ficaram sem acesso a informações estratégicas dos órgãos competentes. Investigações patinam por que o presidente, na base do demite e intimida, tem inibido o compartilhamento de dados. Quer, ao que tudo indica, centralizar em mãos quem, quando e como será inspecionado. Quadros de confiança, fiéis à ideologia do capitão, são conduzidos à PGR, ao novo Coaf, à Receita e à PF para a garantia do controle. Orientação clara e direta: aos amigos, a proteção. Os inimigos que se cuidem. Bolsonaro acima de tudo e de todos entrou em ação, buscando se perpetuar no poder para além de 2022. O resto, mero detalhe.

 


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