Cultura

O coração da cultura russa

Lançamento de “Novelas Completas”, de Liev Tolstói, resgata a genialidade do autor que traduziu a emoção universal a partir da alma de seu povo

O coração da cultura russa

EMPATIA Liev Tolstói: poder de se colocar no lugar do outro

Se Dostoiévski é o cérebro da literatura russa e um dos maiores conhecedores da alma humana, então Tolstói é o coração. Isso não significa que os dois representaram campos temáticos divergentes, nem que suas obras imortais opõem razão e emoção. A grande diferença entre esses gigantes da cultura russa nasce, principalmente, da voz de seus narradores. Enquanto o autor de “Crime e Castigo” analisava comportamentos e emoções a partir de seu próprio ponto de vista, Tolstói deu voz a toda a sociedade da época, das mulheres aos camponeses, tornando-os seus personagens.

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Isso fica claro em “Novelas Completas”, lançamento da editora Todavia que reúne quatro novelas escritas por Tolstói ao longo de sua vida. São elas “Felicidade Conjugal”, “A morte de Ivan Ilitch”, “Sonata a Kreutzer” e “Padre Siérgui”. Em cada uma, o autor assume narrador diferente, sem se importar com a distância entre essas realidades e sua própria vida. Assim, podia tanto falar, pensar e agir como Máchenka, a adolescente que se casa com um homem que tem o dobro de sua idade em “Felicidade Conjugal”, quanto como o príncipe Stiepan Kassátski, militar que abandona tudo para se tornar monge – e depois perde a fé.

Empatia e pacifismo

Nascido em 1828 em uma família aristocrática, Tolstói é mais conhecido por romances monumentais como “Anna Karenina” (1877) e “Guerra e Paz” (1869), épicos em que tratou de dois temas bastante presentes em sua obra: a relação entre homens e mulheres e a morte. A mulher como protagonista permitia que ele saísse de si para desvendar outra realidade; já a morte representava um mistério que ele lutava para compreender. Nas novelas, porém, as nuances de sua obra ficam mais acentuadas principalmente pela brevidade das narrativas: a novela literária (diferentemente das produções que passam na TV) é um formato situado entre o conto e o romance, o que facilita a exposição de uma ideia completa em histórias curtas – “A Morte de Ivan Ilitch” não chega a cem páginas. Nesse terreno, Tolstói desfila seu esforço intelectual sobre a arte da compreensão humana. É como se ele abandonasse seu corpo e entrasse no do outro, seja ele um camponês ou um santo. A empatia que nasce intrinsecamente desse ato é o que transforma Tolstói em Tolstói.

Seu talento o tornou unanimidade entre seus pares. O poeta e crítico inglês Matthew Arnold afirmou que “um romance de Tolstói não é uma obra de arte, mas um pedaço de vida”. A escritora Virginia Woolf escreveu que era “o maior de todos os romancistas”, enquanto Thomas Mann afirmou que “raramente a arte trabalhou tanto quanto a natureza”. Curiosamente, Tolstói também ganhou admiradores fora da literatura. Sua experiência como tenente na guerra da Criméia (eternizado no conto “Crônicas de Sebastopol”) o transformou em um anarquista e pacifista. “Jamais servirei a nenhum governo em nenhum lugar”, decretou. Um dos pioneiros na difusão do conceito de não-violência, seu texto “Carta ao Hindu”serviu de inspiração ao jovem Mahatma Gandhi, com quem se correspondia. Tolstói se casou em 1862 com Sofia Behrs e teve 14 filhos. Além da literatura, dedicou-se à educação e fundou dezenas de escolas. Morreu em 1910, aos 82 anos.

Oriente e Ocidente

A nova edição da Todavia traz um detalhe interessante para quem quer conhecer melhor a obra do escritor. Cada texto tem uma apresentação assinada por Rubens Figueiredo, especialista em literatura russa e tradutor da obra a partir do idioma original. “Cada um vai enxergar nessas histórias uma experiência pessoal. Tolstói é muito abrangente, como uma casa grande onde cabe muita gente”, define. “As descobertas não acabam nunca. Ele enfrenta as angústias e emoções de seus personagens racionalmente. Ao mesmo tempo, se permite ter acessos de loucura”, afirma Figueiredo, que também traduziu a nova edição de “Ressureição”, que a Cia. das Letras lança em outubro.

Segundo o tradutor, a força da literatura russa está na estreita ligação entre sua produção e a experiência histórica do país: “A Rússia é oriente e ocidente, um país que foi forçado no século 19 a se industrializar rapidamente para competir com nações como Inglaterra e França. Mas a Rússia verdadeira era outra coisa, tinha outra origem. Então esse esforço que o país fez para alcançar economicamente outras potências europeias representou um trauma cultural. A força da literatura deve muito a seu enraizamento nessa experiência histórica.” Para apaziguar esse trauma cultural, nada mais adequado do que o pensamento universal – e o coração – de Tolstói.

Uma obra essencial
O autor que inventou a “dialética da alma”

“Novelas Completas” traz quatro textos de Liev Tolstói escritos ao longo de 40 anos. “Felicidade Conjugal”, publicado em 1859, impressiona pela atualidade. Ainda mais interessante é constatar como um escritor de 31 anos, solteiro, pode dar a uma garota de 17 anos que se casa com um homem mais velho uma voz tão crível – e em primeira pessoa, opção rara em sua obra. A dinâmica dos conflitos interiores da jovem (ela ama o marido, mas não quer obedecê-lo cegamente) rendeu ao autor o termo “Dialética da Alma”, criado pelo crítico Tchernichévski. Em “A morte de Ivan Ilitch”, sua imaginação chega ao extremo de criar reflexões para um juiz em seu leito de morte. O que pensaria alguém nessa situação? É o que Tolstói responde. Há também a crítica social, uma vez que a acumulação de riqueza é o grande objetivo da classe dominante. Pois Ivan Ilitch morre no momento em que atinge o auge na carreira – e percebe que isso não lhe serve para nada. “Sonata a Kreutzer” usa a sinfonia para violino de Beethoven como metáfora para uma história de ciúme e desequilíbrio entre homens e mulheres inspirada por um caso real de adultério que resvala em crime passional. A melhor definição para “Padre Siérgui”, texto de 1889 que fecha o livro, é a que o autor deixou em seu diário: “Pensei em uma novela sobre um homem que passa a vida inteira em busca de uma vida justa, na ciência, na família, no trabalho, no delírio místico, e que morre com a consciência de uma vida perdida, vazia, fracassada. Ele é um santo.”

Streaming
O “Soft Power” da Rússia

Divulgação

“Soft Power” é uma expressão que descreve a habilidade de um país em projetar indiretamente seus interesses por meios culturais. Se esse “poder brando” era exercido no século 19 valendo-se da literatura, da música e da pintura, a partir do século 20 ele ganharia uma ferramenta decisiva e poderosa: o cinema e as produções para a TV. Hollywood é a maior prova disso: o vilão é sempre um estrangeiro em praticamente todo filme americano. Os vilões vão mudando de nacionalidade de acordo com o contexto geopolítico. Já foram ingleses, franceses. Com o fim da Segunda Guerra Mundial e o avanço da Guerra Fria, o perfil dos antagonistas deixou de ser “o alemão” e passou a ser quase que exclusivamente atribuído a um único povo: os russos foram os escolhidos, de James Bond a Rocky, o Lutador. Pensando bem, levou tempo demais para a Rússia compreender o prejuízo cultural desse estereótipo.

GAGARIN E TROTSKY Narrativas de produções de ficção recentes valorizam personagens históricos: em busca do público jovem das plataformas digitais (Crédito:Divulgação)

O líder Vladimir Putin, no entanto, é mais antenado que seus antecessores. Há uma proliferação de filmes e séries russas no ocidente, seja por meio de plataformas de streaming ou festivais internacionais de cinema. Sem fazer qualquer julgamento político em relação à estratégia, é difícil imaginar que esses novos filmes e séries não tenham passado pelo crivo do Kremlin. É o caso, por exemplo, de duas produções disponíveis na plataforma Netflix. O primeiro é “Gagarin”, cinebiografia do primeiro cosmonauta a orbitar a Terra. Produzido pelo Piérvi Kanal com orçamento de US$ 7 milhões do banco Vneshekonombank (ambos estatais, o canal de TV e o banco), o drama mostra a trajetória do herói Yuri Gagarin (interpretado por Yaroslav Zhalnin) desde a infância pobre até a missão Vostok, em 1961. O filme é uma peça de propaganda do pioneirismo tecnológico russo, ao mesmo tempo em que projeta o país como uma potência de homens corajosos e humildes. A depressão e o alcoolismo sofridos por Gagarin mais tarde não são abordados – o conceito de “Soft Power” não exige tanta veracidade assim. “Trotsky”, também em cartaz na Netflix, é outro bom exemplo. Estrelada por Konstantin Khabensky, um dos maiores atores do país, a série mostra um revolucionário cruel e pragmático, imagem que combina com a narrativa mais favorável a Stalin preferida pelo atual ocupante do Kremlin. Antes tarde do que nunca, essas novas produções podem ser consideradas um marco do “Sila Myagkaya” – “Soft Power” em russo.

 

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