Cultura

O contador de histórias

Antologia reúne 50 textos jornalísticos de Gabriel García Márquez publicados entre 1950 e 1984. Artigos e grandes reportagens revelam o estilo que levou o escritor colombiano a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura em 1982

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REPÓRTER Gabriel García Márquez nos anos 1960: “Jornalismo é o melhor ofício do mundo” (Crédito: Divulgação)

De acordo com os jornais, Gabriel García Márquez morreu de pneumonia em 17 de abril de 2014, aos 87 anos. Leitores acostumados aos seus personagens mágicos dizem, porém, que essa é a versão oficial. Os mais fanáticos preferem acreditar que o escritor colombiano está vivo e fugiu por uma passagem secreta até a cidade de Macondo, onde vive com os membros da família Buendía. No mundo real, no entanto, sabe-se mesmo é que Gabo, como era chamado, não foi apenas um mestre do realismo fantástico. Foi também um jornalista primoroso no relato das notícias verdadeiras, aquelas que não estão sujeitas à sorte de leitores fanáticos.

“Não quero ser lembrado por ‘Cem Anos de Solidão’ nem pelo prêmio Nobel, e sim pelo jornal. Isso está no meu sangue, me atrai” Gabriel García Márquez, jornalista e escritor (Crédito:Divulgação)

A antologia “O Escândalo do Século” (Ed. Record) reúne artigos e reportagens publicadas por Gabo entre 1950 e 1984 em diversos veículos da imprensa latino-americana. Com seleção de textos do jornalista Cristóbal Pera e prólogo de Jon Lee Anderson, da revista New Yorker, o livro é um presente para os fãs do escritor que iniciou a carreira escrevendo para jornais colombianos.

Fase européia

Em 1948, com a violência política causada pelo assassinato do líder Jorge Eliécer, Gabo deixou a Colômbia e mudou-se a Cartagena das Índias, para cursar a universidade. Colaborou com o jornal local, El Universal, e logo largou os estudos, dedicando-se apenas à escrita. De volta ao país natal, juntou-se aos amigos intelectuais e formou o Grupo de Barranquilla. Era o auge da juventude: morava em um hotel, tinha coluna no jornal El Heraldo sob o pseudônimo de “Septimus” e finalizava o primeiro romance, “A Revoada (O Enterro do Diabo)”.

Gabo mudou-se para Bogotá em 1954 contratado pelo jornal El Espectador. Fez críticas de cinema, reportagens e artigos, muitos deles incluídos nessa antologia. A primeira grande matéria que chamou a atenção do público foi “Relato de um Náufrago”, publicada em 1955, sobre a história do único sobrevivente do navio da Marinha ARC Caldas. Dividida em 14 episódios, a história bateu o recorde de vendas e provocou escândalo devido à tese apresentada pelo repórter: o naufrágio ocorrera pelo excesso de peso causado por causa do contrabando que os oficiais da embarcação faziam. O sucesso teve seu preço: receoso, o diretor do jornal “promoveu” Gabo a correspondente internacional e despachou o jovem à Europa.

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O “escândalo do século”, que dá título ao livro, no entanto, é outro, acontecido em Roma. Com o subtítulo “Morta, Wilma Montesi passeia pelo mundo” (Gabo adorava títulos chamativos), a reportagem investigativa buscava respostas para o misterioso caso de uma garota de 21 anos, filha de um carpinteiro, que apareceu morta nas areias da praia de Torvaianica, a 42 km da capital italiana. A polícia dizia que havia sido um acidente; a família acreditava em assassinato. Gabo foi atrás e, por meio de uma apuração precisa e didática, produziu uma reportagem análitica e emocionante, que misturava técnicas de jornalismo com pitadas de romance noir. Voltou à América Latina para trabalhar na revista Momento, em Caracas, na Venezuela. Ao dividir seu tempo escrevendo tanto textos literários quanto grandes reportagens, Gabo foi moldando seu estilo único. Suas narrativas jornalísticas ganharam tons literários, assim como sua literatura passou a inlcuir um tom de veracidade que transformava narrativas mágicas em histórias críveis.

HERÓI Prêmio Nobel na Suécia e capa de jornal na Colômbia: reconhecimento internacional e ídolo latino (Crédito:Divulgação)

A viagem

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A viagem que mudaria sua vida aconteceu em janeiro de 1959. Gabo chegou em Cuba dois meses depois de Fidel Castro e seus revolucionários derrubarem o ditador Fulgencio Batista e tomarem o poder na ilha. A reportagem escrita sob a embriaguez da liberdade recém-conquistada, “Não me ocorre nenhum título”, é um dos destaques da antologia. O apoio de Gabo a Cuba duraria a vida inteira, mesmo após a ilha do Caribe ter se tornado uma ditadura, o mesmo regime político que Fidel, antes de ascender ao poder, havia lutado para depor.

O livro traz outras jóias como “Meu Hemingway Pessoal”, crônica em que Gabo faz paralelo entre sua obra e a do escritor Ernest Hemingway; em “Equívoco Inexplicável”, narra o caso de um bêbado que caiu da varanda do prédio ao ver peixes caindo do céu; “Carteiro Bate Mil Vezes” é o relato sobre a casa em Bogotá para onde são levadas as cartas com dados errados, que nunca chegam ao seu destino. Um texto curioso é “O Fantasma do Prêmio Nobel”, sobre a ansiedade que atormenta os candidatos. O texto foi publicado em 8 de outubro de 1980 – dois anos antes de Gabo vencer o tal fantasma e levar o prêmio.

Em 1968, conquistou a independência financeira graças ao extraordinário sucesso de “Cem Anos de Solidão”. A antologia traz um texto especial para os fãs da obra: “A Casa dos Buendía (Anotações para um romance)” é o embrião do que viria a ser seu livro mais popular. Gabo passou a se dedicar mais à literatura e menos ao trabalho jornalístico. Seguiu escrevendo artigos e matérias esporádicas enquanto lançava clássicos como “Ninguém Escreve ao Coronel”, “O Outono do Patriarca” e “Crônica de uma Morte Anunciada”.

Homenagem

Com a homenagem e o reconhecimento internacional do Nobel, Gabo se tornou, oficialmente, imortal. O dinheiro do prêmio serviu basicamente para três coisas: isolar-se para finalizar o icônico “O Amor nos Tempos do Cólera”, de 1985; montar a Fundação Gabriel García Márquez para o Novo Jornalismo Íbero-Americano, entidade de ensino voltada às novas gerações; e comprar de uma amiga a revista Cambio, onde voltou a exercer o jornalismo, atividade que considerava “o melhor ofício do mundo”. A revista faliu pouco depois.

No final dos anos 1990, foi diagnosticado com câncer no sistema linfático. A doença o enfraqueceu, mas não o matou. Oficialmente, Gabo nasceu em 1928 na aldeia de Aracataca, próximo a Barranquilla, na Colômbia, e morreu de pneumonia em 2014 na Cidade do México. Como afirmamos no início desse texto, pelo menos, é isso que os jornais dizem. Os fãs do realismo mágico de Gabo, no entanto, juram que ele segue vivo e passa uma temporada em Macondo – mas isso jamais saberemos.

Lançamento

“O escândalo do século”

Gabriel García Márquez
Editora Record | 350 págs.
Preço: R$ 59,90

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