Artes Visuais

O comum e o inusitado

Pinacoteca exibe pinturas de seis artistas que tensionam as intersecções entre o moderno, o popular e o contemporâneo

Crédito: Divulgação

À MARGEM Sem título (1978), de Amadeo Lorenzato: inteligência gráfica (Crédito: Divulgação)

MÍNIMO, MÚLTIPLO, COMUM/ Pina Estação, SP/ até 17/9

O mínimo múltiplo comum entre as pinturas selecionadas pelo curador José Augusto Ribeiro para a mostra de mesmo nome na Pina Estação é a qualidade de apresentarem figurações simples, planas e sintéticas. A exposição reúne artistas de duas gerações, com repertórios diversos, mas que em algum momento de suas carreiras, ou foram taxados de primitivistas, ou dialogam com a estética dita popular.

Dividida em dois módulos, a coletiva reúne em uma sala três pintores atuantes no século 20: Amadeo Lorenzato, Chen Kong Fang e Eleonore Koch. Eles circularam em cenas marginais ao circuito legitimado. “São três produções modernas arrojadas, já vistas anteriormente como ingênuas”, diz José Augusto Ribeiro a ISTOÉ. A segunda sala expõe três artistas nascidas nos anos 1950, 1960 e 1980, que integram a chamada arte contemporânea: Patricia Leite, Vânia Mignone e Marina Rheingantz. O arco cronológico da coletiva é amplo e abrange quase 70 anos da produção pictórica brasileira.

OLHAR Sem título (1982), de Eleonore Koch:
áreas vazias e paisagens silenciosas (Crédito:Divulgação)

Mas as palavras que compõem o título “Mínimo, Múltiplo, Comum” abrem, separadamente, novas possibilidades de leitura das obras. Como “mínimo”, leia-se a representação figurativa feita de forma tão econômica que muitas vezes chega ao limite da abstração: construções espaciais estiradas, sem uso de perspectiva e figuras subtraídas ao essencial da representação. “Aspectos que, de resto, descrevem as qualidades fundamentais da pintura moderna”, aponta Ribeiro no texto curatorial. Isso é o que desenha, por exemplo, as vastas áreas vazias das paisagens silenciosas e metafísicas de Eleonore Koch (1926).

Como “múltiplo”, entenda-se a diversidade de repertórios dos artistas da exposição. O orientalismo impregnado nas composições do chinês naturalizado brasileiro Chen King Fang (1931-2012), está a muito distante do background britânico Eleonore Koch, pintora brasileira de origem alemã, que foi aluna de Volpi e viveu em Londres, onde deixou-se influenciar pelo pop David Hockney.

O âmbito do “comum”, do prosaico e a forma corriqueira com que o inusitado se apresenta são talvez os lugares em que as pinturas dos seis artistas realmente se encontram. A surpreendente obra de Lorenzato (1900-1995) só teve repercussão fora do ambiente cultural de Belo Horizonte — onde ficou restrita a um circulo de arte dita “popular” — em uma individual póstuma na galeria Estação, em São Paulo, em 2014. Suas pinturas, de inventividade e “inteligência gráfica” ímpares, sugerem com poucos elementos a riqueza do dia-a-dia de BH: paisagens, comércios, jogos de futebol de várzea, canaviais, festas populares.

ICONOGRAFIA Sem título (2014), de Vânia Mignone: influência de painéis publicitários (Crédito:Divulgação)

Especialmente na aplicação de textos sobre as figuras, seu trabalho dialoga com a pintura de Vânia Mignône (1967), que estará na 33ª Bienal de São Paulo, em setembro. Ela afirma que não pinta quadros, mas placas. De fato, seu trabalho se vale de um tipo de iconografia própria de cartazes de rua e painéis publicitários. Mas está a serviço da comunicação de uma intimidade quase doméstica, meditativa e misteriosa.

Roteiros
A vontade construtiva latina

CONSTRUÇÕES SENSÍVEIS: A EXPERIÊNCIA GEOMÉTRICA LATINO-AMERICANA NA COLEÇÃO ELLA FONTANALS-CISNEROS / CCBB-Rio, de 27/6 a 17/9

EXPERIÊNCIA “Metaesquema”, de Helio Oiticica: obras geométricas em diálogo com colegas latino-americanos

Se a relação entre Brasil e países da América Latina é feita de vácuos consistentes, na história da arte o elo perdido se processa em uma mesma “vontade construtiva”, que teria orientado a produção artística de artistas do Brasil, Argentina, Uruguai, Cuba, Venezuela, Colômbia e México, entre os anos 1930 e 1960. Esta é a tese que estrutura a exposição “Construções Sensíveis: A Experiência Geométrica Latino-Americana na Coleção Ella Fontanals-Cisneros”, no Centro Cultural Banco do Brasil–Rio, a partir de quarta-feira, 27/06.

O termo “vontade construtiva” surgiu no texto Esquema Geral da Nova Objetividade, escrito por Hélio Oiticica em 1967, como um denominador comum da arte circunscrita ao território brasileiro. “No Brasil, os movimentos inovadores apresentam esta característica única. Dela, nasceram nossa arquitetura e os movimentos concreto e neoconcreto”, escreveu Oiticica. Agora, 50 anos depois, o termo é apropriado pelos curadores Rodolfo de Athayde e Ania Rodriguez, para designar a base do discurso de artistas latino-americanos como, por exemplo, o uruguaio Joaquin Torres García, e os argentinos do grupo Madi.

A mostra é composta por 120 obras de 60 autores de sete países latino-americanos, todas provenientes da coleção da cubana Ella Fontanals-Cisneros — cuja totalidade ultrapassa 2,6 mil obras. Do Brasil, participam os pilares da arte concerta e neoconcreta: Lygia Clark, Hélio Oiticica, Mira Schendel, Geraldo de Barros e Thomas Farkas. Em outubro, a mostra será montada no CCBB-Belo Horizonte. PA