Brasil

O chaveiro das portas do governo

Bolsonaro Júnior é o braço privado do governo federal. Escalado para ser interlocutor junto ao empresariado, o jovem tem sido bancado pelo empresário Luiz Felipe Belmonte e conta com o secretário Mário Frias como facilitador de negócios na Cultura

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VAIDOSO Renan Bolsonaro (sentado) se traja com o alfaiate Leonardo de Carvalho para escancarar o Palácio do Planalto aos seus negócios (Crédito: Divulgação)

O deslumbramento pela nova vida que leva fica evidente no cotidiano do filho 04 do presidente Jair Bolsonaro. Renan, ou Bolsonaro Júnior como gosta de ser chamado, exibe nas redes sociais grande apego ao culto da personalidade, publica inúmeras fotos em meio aos ternos e sapatos que ostenta. Escolheu, inclusive, o alfaiate Leonardo Carvalho para assinar os seus trajes. Mas isso tem lhe rendido bons frutos. Com apenas 23 anos está inelegível porque o pai é presidente. Longe da política foi levado para a carreira empresarial. Ele se aventura pelo mundo dos negócios e passa o chapéu pedindo ajuda aos empresários que gravitam em torno do presidente em Brasília, para onde se mudou recentemente. Na bagagem levou a mãe, Cristina Bolsonaro, que morava em Resende (RJ), e agora ajuda o rebento na prática do lobby.

MENTOR Com trânsito livre em Brasília, Luiz Felipe Belmonte (direita), se encontra com o ministro do Turismo Gilson Machado (Crédito:Divulgação)

A informação unânime nos corredores do poder em Brasília revela que o mentor capitalista de Renan é o empresário Luiz Felipe Belmonte. Ele teria doado R$ 100 mil para Renan para a formação de sua empresa. O empresário é marido da deputada Paula Belmonte (Cidadania-DF) e vice-presidente do partido Aliança, que está sendo formado para abrigar o presidente, mas cujo o processo está fracassando. Juntos, Belmonte e Renan têm acesso ilimitado aos ministérios e falam em nome do presidente da República. Belmonte é figurinha carimbada na posse de ministros e encontros com a cúpula do governo. No seu Instagram, estão fotos com Tarcísio Gomes de Freitas, ministro da Infraestrutura; Gilson Machado, ministro do Turismo; General Luiz Eduardo Ramos, Casa Civil; além do presidente Bolsonaro e seu filho.

“Renan comparece a muitas festas com os empresários interessados em fazer negócios com o governo e pratica o tráfico de influência descaradamente”
Parlamentar em Brasília

Sob a tutela de Belmonte, Renan inaugurou o Camarote 311, sua empresa de eventos com escritório no interior do estádio de futebol Mané Garrincha em Brasília. A inspiração para o negócio está ligada ao fato de Belmonte ser proprietário do time Real Brasília Futebol Clube. O empresário também foi advogado do ex-senador Luiz Estevão — condenado a 26 anos de cadeia — que era presidente de outro clube na capital, o Brasiliense. À ISTOÉ, o empresário disse que “é falso afirmar que o filho do presidente me pediu dinheiro”. Mas a reportagem apurou que Belmonte e Renan são vistos juntos com frequência, dentro e fora do Palácio do Planalto. Parlamentares afirmam que a Secretaria de Cultura, o Ministério do Turismo e o Ministério das Comunicações seriam as portas de entrada dos negócios da empresa de eventos do 04. Segundo eles, Belmonte tem uma tarefa dupla: criar um partido e forjar um novo empresário no clã Bolsonaro.

O secretário de Cultura, Mário Frias, é apontado como outro importante facilitador de negócios de Renan. O ator é amigo do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e já recebeu várias vezes o filho do chefe. A pauta tratada refere-se a investimentos em Esportes Eletrônicos e Games, um hobby de Bolsonaro Júnior. Apesar do 04 ser apenas um garoto entusiasmado pelo esporte eletrônico, foi recebido na agenda oficial do secretário, com todas as honras do governo, sugerindo a existência de tráfico de influência.

Políticos se espantam com a circulação do garoto nos bastidores do poder. “Renan comparece a muitas festas com os empresários interessados em fazer negócios com o governo e pratica o tráfico de influência descaradamente”, afirmou uma parlamentar. Nem mesmo a pandemia segurou o ímpeto do herdeiro de Bolsonaro.
O que todo bajulador mais quer é se aproximar de quem está próximo ao poder. E nada melhor do que Renan, que tem a chave de acesso ao Palácio do Planalto. “É mais fácil quando se conhece o interlocutor que abre portas”, explica a fonte ouvida.

AMIGO O Secretário de Cultura Mário Frias é apontado como um importante facilitador para os negócios de Renan (Crédito:Divulgação)

Pessoas próximas a Renan dizem que ele não é muito inclinado ao trabalho. É algo novo para o jovem. O canal de Youtube criado por ele em janeiro desse ano, de gosto duvidoso, só teve um vídeo produzido até o momento. Foi uma tentativa que não prosperou. Faltou talento e conteúdo.

O caminho de lobista deixou digitais de malfeitos. O carro elétrico de R$ 90 mil que as empresas Gramazini Granitos e Mármores Thomazini doaram ao filho do presidente é o objeto de investigação do Ministério Público Federal. Depois de reunião marcada por um assessor especial da Presidência a pedido do 04, representantes das empresas foram recebidos pelo ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho. Renan acompanhou o grupo. A empresa, que apresentou um projeto de construção de casas populares feitas com suas pedras, já doou uma placa de fundação na inauguração do Camarote 311. O amigo e sócio Allan Lucena devolveu o carro elétrico recebido por Bolsonaro Júnior. Com a devolução, a defesa do jovem espera que a Justiça arquive o caso. Ainda está na mira do MPF a empresa Astronautas Filmes, que recebeu ao menos R$ 1,4 milhão do governo Bolsonaro por ter feito filmes publicitários para ministérios da Saúde, da Educação, da Comunicação e do Turismo. A Astronauta trabalhou de graça produzindo fotos e vídeos na inauguração da empresa de Renan. Nasce o novo “Ronaldinho” do clã Bolsonaro