Brasileiros do Ano 2019

O Centro de Terapia Celular do Hospital das Clínicas da USP, em Ribeirão Preto, conseguiu uma vitória decisiva contra o câncer

Crédito: Boris Rabtsevich

Brasileiros do Ano – Medicina – Renato Cunha

A maior conquista da medicina brasileira neste ano foi o uso, pela primeira vez na América Latina, de técnicas de terapia celular para tratar o câncer do funcionário público aposentado Vamberto Luiz de Castro, de 63 anos. O feito só foi possível graças ao trabalho do Centro de Terapia Celular do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, em Ribeirão Preto, que conseguiu aplicar o tratamento com sucesso. Acometido por um linfoma, um câncer no sangue do tipo não Hodgkin de célula B, não havia mais nenhuma opção para salvar Vamberto. Foi usada uma técnica chamada CAR-T, em que se altera no laboratório o DNA das células T de defesa retiradas do próprio paciente e que depois voltam ao corpo e disparam uma reação imunológica para combater a doença. Vamberto entrou no hospital, em outubro, tomado pela metástase. Agora poderá levar uma vida normal.

Para o médico Renato Cunha, coordenador do Centro de Transplante de Medula Óssea e Terapia Celular do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, três fatores foram decisivos para que a terapia celular tivesse êxito. O primeiro foi conseguir realizar o CAR-T em escala clínica. Quando a técnica é usada em laboratório com camundongos usa-se 1 ou 2 mililitros de material e, em seres humanos, o volume sobe para 200 a 300 ml. “É a chamada pesquisa transacional, quando passamos de um evento pequeno para um grande”, diz Cunha. O segundo gargalo foi o cálculo de risco acertado – Vamberto tinha uma última chance de sobreviver. E o terceiro desafio foi a formação de uma equipe multidisciplinar capacitada para executar a tarefa. Houve um esforço coletivo que envolveu médicos, biólogos, engenheiros, enfermeiros e biomédicos.

Franca recuperação

Vamberto está em franca recuperação, embora ainda enfrente algumas seqüelas no câncer diagnosticado em 2017. Não tem mais sinais da doença. A metástase regrediu e um novo teste será feito em dezembro, três meses depois da aplicação do CAR-T. Para o próximo ano, o Centro de Terapia Celular deverá receber um aporte de capital do governo estadual para aumentar a plataforma de produção de células e ganhar mais escala para fazer novos tratamentos. Segundo Cunha, a meta para 2020 é atender entre 10 e 30 pacientes atingidos por leucemia ou linfomas.