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O cardeal de Dilma

Investigação que começou com a Lava Jato encontra provas que colocam amigo pessoal e conselheiro da presidente afastada no centro de um propinoduto no setor elétrico

Crédito: Alan Marques/Folhapress

NOVO ALVO Aliado há mais de 20 anos da petista, o diretor licenciado da Eletrobras Valter Cardeal é suspeito de corrupção (Crédito: Alan Marques/Folhapress)

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Fernando Frazão/Agência Brasil

Na quarta-feira 6, procuradores e delegados federais da operação Pripyat bateram à porta do diretor licenciado da Eletrobras, Valter Luiz Cardeal de Souza. Com mandados de busca e apreensão, os agentes o conduziram coercitivamente à sede da PF. O endereço devassado fica em Porto Alegre e é familiar para a presidente afastada, Dilma Rousseff. O engenheiro é amigo pessoal da petista e tido como seus olhos e ouvidos no setor elétrico. Segue à risca a cartilha da petista. Acompanha Dilma desde quando ela comandava a secretaria de Energia do Rio Grande do Sul na década de 90. Para os investigadores, há indícios de que Cardeal se valeu das funções para as quais foi nomeado pelos governos do PT para operar um esquema de corrupção na construção bilionária da Usina Nuclear de Angra 3. Os contratos foram superfaturados em troca do pagamento de, pelo menos, R$ 48 milhões em propina a agentes públicos e políticos do PT e do PMDB. Cardeal “teve um papel ainda não devidamente esclarecido na negociação de descontos sobre o valor da obra de montagem eletromecânica de Angra 3 com posterior pedido e pagamento de propina realizado no âmbito dos núcleos políticos e administrativo da organização, conforme relatos de diversos réus colaboradores”, analisou o Ministério Público Federal. Outras dez pessoas foram presas na operação. Entre elas, o almirante Othon Pinheiro da Silva, ex-presidente da Eletronuclear. A Justiça afastou também o sucessor dele, Pedro Diniz Figueiredo.

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COBRADOR João VaccarI, ex-tesoureiro do PT, era o responsável por cobrar o pagamento de propina exigida por Valter Cardeal das empreiteiras nas obras de Angra 3
COBRADOR João VaccarI, ex-tesoureiro do PT, era o responsável por cobrar o pagamento de propina exigida por Valter Cardeal das empreiteiras nas obras de Angra 3 (Crédito:Rodrigo Dionisio/Frame)

As denúncias contra Valter Luiz Cardeal preocupam lideranças petistas. Será complicado para Dilma recorrer ao surrado mantra de que não tinha conhecimento dos crimes de aliados. Tampouco conseguirá negar que é próxima do engenheiro. Os dois mantêm uma estreita relação profissional e de amizade há mais de 20 anos. Aproximaram-se quando, filiados ao PDT, ela comandava a secretária de Energia na gestão do então governador gaúcho Alceu Collares e ele chefiava a diretoria de Distribuição Companhia Estadual de Energia Elétrica do Rio Grande do Sul. Desde este período, Cardeal se tornou uma espécie de escudeiro de Dilma na trajetória até à Presidência. Para onde ela ia, ele a acompanhava. Em 2001, romperam juntos com a antiga sigla e migraram para o PT. Quando Dilma assumiu o ministério de Minas e Energia no primeiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Cardeal acabou levado para a máquina federal. A petista não tomava decisões sobre o setor sem ouvir seus conselhos e colocou sob a sua batuta programas estratégicos eleitoralmente, como o Luz para Todos.

ELETROLÃO Agentes da PF fizeram, na quarta-feira 6, operação de combate à corrupção em estatais de energia
ELETROLÃO Agentes da PF fizeram, na quarta-feira 6, operação de combate à corrupção em estatais de energia (Crédito:FABIO MOTTA/ESTADÃO)

No auge do poder de Dilma no comando da Casa Civil do governo Lula, Cardeal chegou a acumular os cargos de presidente e diretor de Engenharia da Eletrobras. Foi colocado por ela também em postos estratégicos dos conselhos de outras estatais para, segundo ela, barrar tentativas de alas rivais do governo de interferirem no setor elétrico. Todos sabiam. Cardeal era o seu intocável representante na área. Nem as denúncias de que ele participou de uma fraude no financiamento de 157 milhões de euros de um banco alemão para uma subsidiária da Eletrobras fez com que a petista colocasse em dúvida a conduta do apadrinhado. Pelo contrário. Saiu em sua defesa em plena eleição de 2010, classificando a acusação de “fofoca”. Eleita, Dilma lhe deu ainda mais prestígio. Fez com que passassem obrigatoriamente pelas suas mãos os principais projetos da área energética do País. Tornou Cardeal, por exemplo, o responsável pela Usina de Belo Monte. Tamanho poder aproximava empresários e fazia com que até ministros evitassem contestar as decisões do “especialista de Dilma”, um dos poucos a não tomar as famosas broncas da petista.

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O apoio da petista a Cardeal parece inabalável. Não o demitiu nem quando veio à tona no ano passado a notícia de que empreiteiros denunciaram o pagamento propina a pedido dele em troca de obras no setor elétrico. No auge da crise, partiu do engenheiro a iniciativa de se licenciar temporariamente da diretoria da Eletrobras. A presidente afastada não julgou ser incompatível manter no cargo um afilhado com acusações como as feitas pelo dono da construtora UTC, Ricardo Pessoa. O empresário esquadrinhou à Justiça como Cardeal fez do setor elétrico um balcão de negócios ilícitos. Contou, em delação premiada, como o engenheiro de Dilma tornou um pedido de redução de custos nas obras de Angra 3 em uma oportunidade para receber propina. Na ocasião, a estatal teria solicitado que o consórcio formado pelas construtoras Andrade Gutierrez, Odebrecht, Camargo Corrêa e UTC reduzisse o valor das obras em 10%. As empreiteiras só aceitaram diminuir o preço em 6%. Cardeal concordou, mas exigiu que a diferença fosse parar nas arcas do PT. Os empresários receberiam as cobranças pessoalmente do ex-tesoureiro do partido João Vaccari Neto. Os depoimentos de Ricardo Pessoa e de executivos de outras empreiteiras ajudam a entender como se dava a divisão política das negociatas na Eletronuclear. Cardeal, que o delator diz ser “pessoa próxima da senhora presidenta da República, Dilma Rousseff”, representava os interesses petistas. Já o almirante Othon Pinheiro da Silva, presidente da estatal, cuidava da parte que cabia aos políticos do PMDB. Na quarta-feira 6, ele foi preso pela Polícia Federal após ficar meses detidos em casa.

Ao esquadrinharem o setor elétrico com novas provas e delações premiadas, delegados federais e procuradores tentam mapear a atuação do afilhado de Dilma em mais esquemas na área de energia. Já sabem que as operações foram além da propina atômica de Angra 3. Cardeal, acreditam investigadores, fez do cargo e do poder recebidos da presidente afastada uma rentável fonte para ele, para o PT e para aliados. Onde havia uma nova obra na área de energia, ele via outra oportunidade. Há suspeitas de que o engenheiro faturou alto usando o cargo de presidente do consórcio da Usina de Belo Monte e que teria se beneficiado ainda das obras da usina de Jirau, em Rondônia, e até do projeto das hidrelétricas Garambi-Panambi, uma parceria entre o Brasil e a Argentina. Se confirmados os indícios levantados pelos procuradores, ficará difícil para a presidente afastada Dilma Rousseff escapar da responsabilidade de ter alçado Valter Luiz Cardeal literalmente para o mundo das negociatas.

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