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O capitão cloroquina

Entre os absurdos cometidos pelo presidente Jair Bolsonaro em seu governo, o maior e mais grave é a indução do uso da cloroquina e de seu derivado, a hidroxicloroquina, no combate ao coronavírus. Dos males que causou em 18 meses, nenhum se revela tão irresponsável e insensato. O que vê hoje é um presidente que vilipendia diariamente a ciência e a medicina e dá sucessivos exemplos de ignorância. A essa altura, em outras partes do mundo, ele já poderia estar sendo acusado de charlatanismo por incentivar o uso de substâncias farmacêuticas sem ser médico e afrontando um protocolo técnico de maneira despótica. Não há qualquer comprovação de que a droga que ele promove funcione. Pelo contrário, todos os ensaios preliminares com alguma credibilidade mostram que causa mais malefícios do que benefícios, aumentando o risco de arritmias e ataques cardíacos nos contaminados. Mesmo assim, agora que diz estar doente, que seu teste deu positivo para a Covid-19, ele intensifica seus esforços para alardear os milagres da cloroquina. Começou a tomá-la assim que se sentiu mal, domingo 5. E adotou o tratamento desde então. Como bom garoto-propaganda, caso se cure, vai dizer que foi graças à ela.

Crédito: Reprodução/ Facebook

Garoto-propaganda Bolsonaro faz publicidade de um medicamento que causa mais prejuízos do que benefícios (Crédito: Reprodução/ Facebook)

IRRESPONSABILIDADE Bolsonaro confraterniza com ministro Ernesto Araujo na casa do embaixador dos Estados Unidos: transmitindo o vírus livremente (Crédito:Divulgação)

Dois dias depois, Bolsonaro reforçou seu intento de politizar a doença e propagandear um tratamento duvidoso. Contente com a melhora no seu quadro clínico, declarou pelas redes sociais que o tratamento com a substância estava dando certo. “Eu confio na hidroxicloroquina, e você?”, perguntava para seu público com uma pílula na mão. Em seguida, tomou o remédio ao vivo e comentou que, graças a ele, estava “mais ou menos do domingo, mal na segunda-feira e hoje, terça-feira, muito melhor”. “Sabemos que hoje em dia existem outros remédios que podem ajudar a combater o coronavírus, sabemos que nenhum tem a sua eficácia cientificamente comprovada, mas (sou) mais uma pessoa em que está dando certo”, concluiu. Inspirado no americano Donald Trump, outro presidente a defender de maneira irresponsável remédios não provados, Bolsonaro vem fazendo propaganda da cloroquina desde abril e, nesse período, derrubou dois ministros, os médicos Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, por causa de divergências relacionadas ao uso indiscriminado da substância. Colocou no lugar o general Eduardo Pazuello, que só faz criar facilidades para estimular o consumo do remédio, como mudar seu protocolo de utilização e permitir seu uso, inclusive, para crianças e gestantes. A principal função de Pazzuello, neste momento, é distribuir comprimidos pelo Brasil.

Governo tem estoque de cloroquina para 18 anos de consumo normal. O medicamento, rejeitado pela OMS no combate à Covid-19, é comumente indicado para a malária

PANACEIA Laboratório do Exército se concentra na produção do remédio

O comportamento de Bolsonaro encobre uma grande preocupação e não é mais do que uma tentativa de tentar salvar seu governo, desacreditado pela reação atabalhoada no combate ao coronavírus. Bolsonaro age, neste momento, quando as mortes pela Covid-19 no Brasil se aproximam de 70 mil, pensando na sua reeleição, em 2022. Como destaca Mandetta, que sofreu nas mãos do Bolsonaro por causa de suas restrições à cloroquina, o objetivo do presidente é encontrar uma solução política para uma crise de saúde, algo que é típico de sua maneira de pensar. Ele só pensa politicamente e sem base científica, afirma. Agora que confirmou a própria contaminação, Bolsonaro vai intensificar a publicidade do remédio. Nem que para isso tenha que contribuir para aumentar os índices de letalidade da doença, cuja média mundial, é de 3% e, no Brasil, chega a 4%. “O médium João de Deus tem o mesmo índice de cura que a cloroquina”, diz o ex-ministro. “Como, em média, 97% das pessoas que pegam a doença se curam com ou sem remédios ou apesar deles, o presidente aproveita esse espaço de incerteza para promovê-la”. Para Mandetta, Bolsonaro criou uma narrativa para a economia, para que as pessoas voltem a trabalhar. “Seu raciocínio é político, ele não tem compromisso com a saúde e quer simplesmente que as pessoas retomem a vida normal o quanto antes, prescrevendo um medicamento sobre o qual não há nenhum estudo conclusivo”, diz. O ex-ministro acredita que a atitude do presidente deveria motivar a abertura de processos judiciais contra o Estado, por incentivo ao uso de uma substância sem comprovação científica.

Diariamente, Bolsonaro vem descrevendo a evolução positiva de seu quadro. No domingo sentiu-se febril e com dor no corpo. Passou por uma tomografia que não apresentou lesões em seus pulmões. Continua se comportando normalmente, encontrou centenas de pessoas ao longo da semana e foi visto sem máscara várias vezes. Circulou sem se preocupar com seus semelhantes e fez novas afirmações estapafúrdias: “Vírus é como chuva, vai atingir você”, declarou. Agora que pegou o coronavírus, acredita que tenha mais autoridade para tratar do assunto. Como um curandeiro de feira, oferece a substância para o povo como uma prevenção ou uma cura mágica e busca a legitimidade dos enfermos para falar da doença. Com a cloroquina, quer causar um efeito de segurança da população, vender uma solução populista e mostrar que existe uma saída para uma doença letal. O problema é que se trata de uma mentira.

POLITIZAÇÃO DA DOENÇA O ex-ministro Mandetta critica Bolsonaro por sua falta de compromisso com a saúde:
aversão à ciência (Crédito:Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

Aumento da produção

Em sua jornada embrutecida em defesa da cloroquina, Bolsonaro desejava, inclusive, mudar a bula do remédio e já acumulou estoques do produto suficientes para 18 anos de consumo em uma situação normal, segundo o Ministério da Defesa. A cloroquina é a versão sintética da quina, planta sul-americana usada pelos indígenas para curarem suas dores e febres. Há 86 anos, o princípio ativo foi sintetizado pelo laboratório Bayer. A hidroxicloroquina é um pouco mais nova e foi aprovada para uso nos Estados Unidos, em 1955. As duas substâncias são tradicionalmente utilizadas com eficácia no tratamento da malária e de doenças degenerativas, como o lúpus e a artrite reumatóide. A mistificação em torno de seu uso contra a Covid-19, porém, fez o governo ampliar sua produção no Laboratório Químico e Farmacêutico do Exército. Mais de R$ 1,58 milhão foram gastos na compra do princípio ativo para multiplicar por cem o volume normal de fabricação da droga. Cerca de 95% dos gastos foram destinados para compra de cloroquina em pó. O Tribunal de Contas da União (TCU) investiga se houve superfaturamento nas compras do medicamento e mau uso de recursos públicos, já que se trata de um aumento do volume de produção sem comprovação científica de que isso seja necessário.

“Queria saber o que o governo vai fazer com esse estoque”, afirma o médico Leonardo Weissmann, infectologista do Hospital Emílio Ribas e membro da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI). “Provavelmente uma boa parte vai ser jogada do lixo porque perderá a validade”. Weissmann, como a maioria de seus pares, vê o governo, sem evidências científicas, insistindo numa medicação ineficaz contra a Covid-19 que já apresentou efeitos maléficos. Cerca de 10% dos contaminados pela Covid-19, enfrentam complicações cardíacas por causa de doenças pré-existentes. Nesse grupo, o risco de um comprometimento grave e até fatal cresce consideravelmente. Não faltam argumentos para inibir o uso indiscriminado da droga.

Os efeitos colaterais da cloroquina fizeram a Organização Mundial de Saúde (OMS) retirar, em maio, a substância da lista de drogas a serem testadas no tratamento da Covid-19, no programa internacional Solidarity. Diante de resultados iniciais pífios, a entidade anunciou a suspensão dos ensaios com o produto para avaliar sua segurança. Além disso, um estudo publicado pela revista inglesa Lancet com informações de 96 mil pacientes mostrou que o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina estava associado a um aumento da mortalidade dos doentes do coronavírus. Para a OMS, o grande erro do governo brasileiro na condução do combate à pandemia tem sido a “politização do vírus”, que atrasou as autoridades no reconhecimento da gravidade da doença e impôs uma visão distorcida de como combatê-la. Nos Estados Unidos, onde Trump defendia o produto com a mesma veemência de Bolsonaro, a Food and Drugs Administration (FDA) revogou a autorização de uso emergencial de cloroquina e hidroxicloroquina como tratamento para pacientes com covid-19.

Enquanto isso, no Brasil segue-se o caminho oposto. Há dois meses, depois que dois ministros, Mandetta e Nelson Teich, divergiram do presidente sobre o uso da substância e perderam o cargo, o Ministério, já sob o comando de Pazuello, baixou um novo protocolo em que recomenda o uso da droga desde os primeiros sinais da Covid-19, inclusive para crianças e gestantes. Segundo o médico sanitarista Gonzalo Vecina Neto, professor da USP e ex-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o que está acontecendo com a cloroquina “é um desastre” e o presidente tenta mostrar que pessoas que se curariam normalmente da doença devem sua recuperação à droga. “O problema que mais causa distorções no uso da cloroquina é que ela funciona in vitro e não funciona em vivos”, afirma Vecina. “Quando se testa a droga no laboratório com células humanas, ela diminui a multiplicação do vírus, mas no corpo é muito diferente, ela não tem eficácia”.

PROTOCOLO A principal função do ministro Pazuello
é facilitar o acesso da população à cloroquina (Crédito:Adriano Machado )

A propaganda de Bolsonaro da cloroquina e da hidroxicloroquina está causando distorções no próprio atendimento médico da pandemia. Pesquisa feita pela Associação Paulista de Medicina (APM) com 1.984 médicos mostra que 48,9% dos profissionais que atuam no combate à Covid-19 em hospitais e unidades de saúde estão sendo pressionados por pacientes e seus familiares para adotarem tratamentos sem comprovação científica, impelidos pela propaganda bolsonarista. Quase 70% desses médicos reclamam que notícias falsas e informações sensacionalistas, inclusive sobre a cloroquina, são atualmente os principais inimigos no combate à pandemia. No mês passado, uma pesquisa do Instituto Ipsos revelou que 18% dos brasileiros estão convencidos de que a cloroquina e a hidroxicloroquina curam a Covid-19. Além de iludir os brasileiros, Bolsonaro, evidentemente, tenta criar algum efeito placebo entre seus seguidores, fazer com que se curem baseados em crenças.

Ensaios clínicos

O cardiologista Renato Lopes, professor livre docente da Escola Paulista de Medicina (Unifesp) e da Duke University, que participou de um estudo amplo sobre o uso de medicamentos sem evidências científicas em pessoas com problemas no coração, diz que o caso da cloroquina é exemplar da falta de certeza e clareza em um tratamento médico. Para ele, nas atuais circunstâncias, sem estudos confiáveis e conclusivos, não há qualquer motivo para indicar a droga contra a Covid-19. Para isso, seria necessário que antes houvesse um ensaio clínico duplo-cego em seres humanos, quando nem o examinador, nem o examinado sabem o que está sendo utilizado no teste, se o princípio ativo ou o placebo. Ensaios internacionais desse tipo feitos com a droga não mostraram efeitos benéficos até agora. No Brasil, há dois estudos em andamento levados adiante pelo chamado grupo Coalizão, liderado por oito centros médicos prestigiados que analisam estratégias de anticoagulação em pacientes hospitalizados com Covid-19. Os resultados devem estar prontos dentro de 60 dias. Seja como for, o estrago feito por Bolsonaro nos protocolos de tratamento da doença no Brasil já é um fato. Contrariando o médico grego Hipócrates, que dizia que a função primordial de qualquer procedimento de saúde, antes de curar, é não prejudicar, o presidente expõe a população ao risco e não se preocupa com as consequências de suas iniciativas. Além de não ajudar no combate à doença, ele atrapalha e, diante do avanço da pandemia, aumenta o sofrimento dos brasileiros.

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