Brasil

O cancelamento do “gabinete do ódio”

O Facebook pune o grupo ligado ao presidente da República e retira do ar contas que influenciavam 2 milhões de usuários com fake news. Bolsonaro tem muito o que explicar ao TSE depois da denúncia feita pela plataforma. E a CPMI das Fake News tem mais material para punir os disseminadores do discurso de ódio, uso de perfis falsos e robôs que manipulam conteúdos indevidos nas redes.

O cancelamento do “gabinete do ódio”
CANCELADO O senador Flávio Bolsonaro foi retirado do ar pelo Facebook (Crédito:Waldemir Barreto)

Por meio de comunicado, o grupo de Mark Zuckerberg (Facebook/Instagram/Wathsapp) informou que derrubou, quarta-feira 8, uma série de páginas coordenadas diretamente por assessores do presidente Jair Bolsonaro e seus filhos Flávio, Carlos e Eduardo. O clã foi alvo de punição pela direção da Rede que investiga ações fraudulentas em países da América Latina — El Salvador, Argentina, Uruguai, Venezuela, Equador e Chile, além do Brasil — bem como Ucrânia e EUA. Um dos punidos é Tercio Arnaud Tomaz que gerenciava a página “Bolsonaro Oppressor 2.0”, com 1 milhão de seguidores. Arnaud auxilia diretamente o presidente desde a época da campanha eleitoral em 2018 e atualmente trabalha no terceiro andar do Palácio do Planalto. Ele ganha R$ 13.600,00 por mês.

Investigações apontam que partiram desse operador de mídias sociais os principais ataques a adversários, ex-aliados e também a aliados de Bolsonaro. Os ex-ministros Sergio Moro e Luiz Henrique Mandetta experimentaram o fogo amigo do “Gabinete do Ódio”. Moro por não aceitar ingerência na Polícia Federal e Mandetta por manter posicionamento em favor da quarentena e contrariedade ao uso da cloroquina. No Twitter, Moro comentou a ação: “Fui alvo da rede de mentiras que age por motivos político-partidários. Pessoas que perderam qualquer senso de decência”. Por sua vez, Mandetta ironizou: “Que feio. Então eram vocês. Quem poderia imaginar?”. Os adversários do presidente, por sua vez, já conhecem a cólera disseminada nas redes sociais desde a eleição de 2018, inclusive o presidente da Câmara Rodrigo Maia (DEM/RJ).

Ataque às instituições

O ministro do STF Alexandre de Moraes definiu, em maio, como “associação criminosa” o grupo que pensa, financia e executa ataques de ódio contra integrantes da Corte e outras instituições. A descoberta dos operadores, e sua ligação direta com o presidente, complica muito a situação de Bolsonaro no TSE: a cassação está no horizonte. Instituições brasileiras ligadas ao Poder Judiciário não conheciam tamanha ofensiva pública antes da radicalização dos Bolsonaristas nas redes sociais. Não parece apenas estranho, mas também artificial a intensidade dos ataques. Agora está comprovado que as hashtags #STFVergonhaNacional e #STFEscritórioDoCrime foram impulsionadas de forma criminosa pelos operadores de Bolsonaro.

O relatório do Laboratório de Pesquisa Forense Digital (DRFLab) que fez a investigação para o Facebook, afirma, sem meias palavras, que a estratégia utilizada era a massificação de mensagens de ódio, mescladas com mentiras. O esquema era composto, principalmente, pelas páginas “Bolsonaro Oppressor 2.0”, “Bolsoneas”, “Bolsofeios”, “Bolsonaro News” e “Direita Zona Norte RJ”. A principal justificativa para a exclusão das contas é que as pessoas eram fictícias, mas que foram identificadas pelas plataformas digitais. A rede Bolsonarista influenciava um público de 2 milhões de usuários. Se faltava alguma prova da atuação não-republicana de Bolsonaro nas mídias sociais, agora a própria administração do Facebook é testemunha. Foram desarticuladas 14 páginas, 35 perfis e um grupo do Face. No Instagram, foram identificadas 38 contas. São apontados como mandantes o presidente, seus filhos Flávio e Eduardo Bolsonaro, além da deputada estadual Alana Passos (PSL/RJ) e do deputado estadual Anderson Moraes (PSL/RJ). Os operadores que tiveram suas contas bloqueadas são: Tercio Arnaud Tomaz, José Matheus Salles Gomes, Mateus Matos Diniz, todos do “gabinete do ódio”, assim como Paulo Eduardo Lopes (conhecido como Paulo Chuchu), Leonardo Rodrigues de Barros e Vanessa Navarro. Carlos Bolsonaro não é apontado no esquema, mas todas as investigações indicam que os assessores diretamente ligados ao presidente são comandados pelo filho 02 de Bolsonaro. A pergunta que fica é quantos outros perfis falsos e ainda não identificados operam contra a naturalidade das informações?

 

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