O caminho dos heróis
“A Nossa Segunda Guerra”
Ricardo Bonalume Neto
Ed. Contexto | Preço: R$ 60

No Brasil dos dias de hoje, em que o papel das Forças Armadas tem sido muito discutido no âmbito da política, é bom celebrar o episódio em que nossos militares tiveram construtiva atuação na área em que são especialistas: a de guerrear. A nova edição de “A Nossa Segunda Guerra”, do jornalista Ricardo Bonalume Neto (1960-2018), narra de forma detalhada a participação da Força Expedicionária Brasileira (FEB) no conflito que redefiniu o século 20 e deu a vitória dos aliados sobre Hitler.

Segundo Bonalume, o Brasil não entrou na guerra por decisão própria, mas por alinhamento estratégico com os Estados Unidos. A posição do ditador Getúlio Vargas permaneceu dúbia durante muito tempo: sobram evidências de que ele nutria simpatia pelos ideais fascistas. O cenário mudou em 7 de dezembro de 1941, quando a base de Pearl Harbor, no Havaí, foi bombardeada e arrastou os EUA para os campos de batalha. Vargas foi pressionado e cedeu oficialmente a base de Parnamirim, no Rio Grande Norte, de onde a força aérea americana passou a decolar para ataques contra o inimigo na África e Itália. A resposta não demorou: Hitler enviou o submarino U-507 para a costa brasileira e realizou a maior investida estrangeira já vista até então contra o Brasil – afundou seis navios, matando 607 pessoas. Após passeatas e protestos, Vargas atendeu ao clamor popular em um discurso: “a agressão não ficará impune”, afirmou. Em 22 de agosto de 1942, o Brasil declarou guerra contra a Alemanha e a Itália.

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ITÁLIA Monte Castelo e Montese: vitórias estratégicas
para os aliados (Crédito:Divulgação)

Ao todo, mais de 25 mil homens foram enviados para lutar na Europa em julho de 1944. Um deles era o capitão Severino Gomes de Souza, que vivia em Natal, no Rio Grande do Norte. Após semanas de treinamento supervisionado pelo V Exército Americano, ele embarcou no navio USS General W. A. Mann e viajou durante 15 dias até Nápoles, na Itália. Era a primeira força expedicionária sul-americana a atuar na Europa. “Demoramos porque era necessário navegar em zig-zag, para fugir dos submarinos alemães”, lembra ele. Souza, hoje com 96 anos, participou da tomada do Monte Castelo, episódio mais celebrado da atuação da FEB. À frente de um grupo de combate do Regimento Sampaio, o oficial diz que só teve dimensão do desafio quando chegou ao topo da montanha. “Quem está no alto é muito favorecido nesse tipo de combate. Os alemães tinham uma visão privilegiada, por isso nossa conquista foi considerada uma grande vitória.” O livro de Bonalume é um primor de pesquisa e contextualização.

Não rasga elogios cegos à FEB, tampouco minimiza sua importância. Ressalta a inexperiência dos combatentes, assim como valoriza a coragem de alguns deles em situações extremas. Há, em meio à reconstituição detalhada das batalhas, histórias que só o bom repórter é capaz de captar. Como o caso da confusão no desembarque na Itália, causado pela semelhança entre os uniformes da FEB, verdes, e os casacos cinza-esverdeados dos nazistas. Como os soldados desembarcaram desarmados, houve quem pensasse que eram prisioneiros alemães. Ou o curso de esqui oferecido aos pracinhas quando o invernou apertou: “estavam matriculados três mato-grossenses de ascendência indígena”, lembra o coronel João de Segadas Viana.

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HERÓI DE GUERRA Capitão Souza em 1945 e hoje: memórias da tomada de Monte Castelo, o maior triunfo brasileiro no conflito (Crédito:Divulgação)

Nem todos os soldados eram militares de carreira como o capitão Souza. João de Lavor era um funcionário público, gostava de tocar violão e namorar. Um dia chegou um telegrama com a convocação para a guerra: “era um convite irrecusável, ele seria preso se não obedecesse”, como lembra seu filho, João Barone, baterista do Paralamas do Sucesso e especialista em Segunda Guerra. O músico tornou-se um expert por curiosidade histórica, mas também para compreender melhor quem foi o pai. “Ele era um herói silencioso, não se abria muito. Dizia apenas que viu muita destruição e morte.” Autor dos livros “A Minha Segunda Guerra” e do documentário, “1942 – O Brasil e sua Guerra Quase Desconhecida”, Barone valoriza a atuação dos pracinhas. “O fato de terem morrido cerca de 500 brasileiros, número baixo em comparação aos outros aliados, não reflete a importância da nossa presença. A Itália era um palco estratégico, por isso os estrangeiros respeitam tanto as vitórias brasileiras.” De fato, Roma só foi capturada em 4 de junho de 1944, antevéspera do Dia D. Antes da decisão final sobre a ofensiva, o primeiro-ministro britânico, Winston Churchill, defendia atacar a Alemanha pelo sul, subindo a Itália. Além do Monte Castelo, os brasileiros conquistaram a cidade de Montese, em uma sangrenta batalha vencida pelo Regimento Tiradentes.

A rendição alemã veio em 9 de maio de 1945 e, a volta dos soldados ao Brasil trouxe com eles uma mudança política. “Quando voltamos, fizemos a democracia”, diz Antônio Cruchaki, ex-soldado do 9º. Batalhão de Engenharia. A vitória dos aliados enfraqueceu o Estado Novo de Vargas, e o ditador foi afastado no mesmo ano. O País teve eleições em 1946 e seguiu de forma democrática até 1964, quando os militares resolveram se envolver com a política e instauraram a ditadura que durou 21 anos. Atuar de forma restrita aos campos de batalha, como ocorreu na Segunda Guerra, deveria ser a missão número 1 para as Forças Armadas que honram seu País.

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ESTOPIM Ataque do submarino U-507 ao Brasil: seis navios afundados, 607 mortos (Crédito:Divulgação)

Nunca negocie com um ‘escorpião’ – nem com Hitler

Dois lançamentos literários sobre a Segunda Guerra comprovam a “parábola do escorpião”, segundo a qual ele vai sempre picar sua vítima sem se importar com as consequências – é parte intrínseca de sua natureza. As obras demonstram os perigos de se negociar com um homem traiçoeiro como Adolf Hitler. “O Pacto do Diabo – A Aliança com Stálin 1939-1941”, de Roger Moorhouse, e “Negociando com Hitler – A Desastrosa Diplomacia que Levou à Guerra”, de Tim Bouverie, trazem as estratégias opostas da URSS e da Inglaterra que deram no mesmo desfecho: Fürher mentiu para ganhar tempo e desenvolver sua máquina de guerra. Em 1939, o ministro das Relações Exteriores alemão, Joachim von Ribbentrop, e seu equivalente russo, Vyacheslav Molotov, assinaram um pacto de não-agressão. Os dois ditadores, Hitler e Stálin, precisavam um do outro: a URSS exportava matéria-prima em troca da tecnologia alemã. Deu tudo errado – e a Alemanha invadiu a União Soviética.

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TRAIÇÃO URSS e Alemanha assinam pacto de não-agressão: ficção histórica (Crédito:Divulgação)

Já no caso da Inglaterra, a tentativa de negociar com Hitler era fruto do desejo de evitar uma nova guerra mundial, uma vez que mais de 16 milhões de europeus morreram na Primeira Guerra, poucos anos antes. O diplomata Sir Nevile Henderson e o primeiro-ministro britânico à época, Neville Chamberlain, foram desastrosos: a Alemanha ignorou as ameaças e invadiu a Polônia, o que deu início ao conflito.