O camarão é uma metáfora do Brasil

O Brasil é tão curioso que um pequeno elemento que surge por acaso acaba nos ensinando mais sobre o País que páginas e páginas de análises sociológicas. Me refiro ao camarão, crustáceo que nos últimos tempos deixou de ser tratado como item gastronômico para se tornar um inusitado player político. Com a internação do presidente Jair Bolsonaro, motivada por uma obstrução intestinal causada pelo dito cujo, o camarão foi ainda mais longe: virou uma espécie de “herói da resistência”, fonte de inspiração para memes e piadas. Esquecendo um pouco o lado caricatural do caso, acredito que há outra maneira de encará-lo.

Em novembro de 2021, o ator Wagner Moura, diretor de “Marighella”, foi fotografado comendo acarajé durante a exibição do filme em uma ocupação do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto). Acarajé, como se sabe, é um bolinho baiano recheado com vatapá, caruru, vinagrete e camarão. É tão comum em Salvador como cachorro-quente nas esquinas de São Paulo ou biscoito Globo nas praias do Rio de Janeiro. Não custa nem R$ 10 e equivale a uma refeição. Bastou ver Wagner Moura comendo acarajé para que a corja virtual liderada pelo filho do presidente, Eduardo, criticasse o ator: “enquanto a elite come camarão, a massa fica no esgoto”, escreveu. A ignorância bolsonarista não tem limites, mas um deputado federal não saber sequer o que é um acarajé é um pouco demais. Detalhe: o comentário foi publicado a partir de Dubai, onde uma gigantesca e inútil comitiva se divertia torrando dinheiro público de forma nababesca para tirar fotos com roupas de sheik.

Os bolsonaristas acham que têm o direito de comer iguarias, enquanto os outros brasileiros devem implorar por restos de comida

Corta para dezembro de 2021 – a internação do presidente. Com um pouco de lógica, é fácil associar os dois casos. Se Eduardo Bolsonaro classificou quem come camarão como “elite”, fica óbvio que ele considera seu pai parte dessa aristocracia. O problema é esse: os bolsonaristas acham que têm o direito de comer camarão, enquanto os outros brasileiros devem implorar por restos de comida. Bolsonaro pode até se empanturrar com o crustáceo; Wagner Moura e os trabalhadores Sem-Teto, não. O camarão está para Bolsonaro assim como o brioche estava para Maria Antonieta: ele escancara as causas da desigualdade social no Brasil. Há uma parcela que se acha a “elite” do País e se considera superior ao resto da população. Não é: são apenas uma massa de ignorantes e preconceituosos, alimentados pelo ódio que emana da família de artrópodes que ocupa o Planalto.


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