Brasil

O caixeiro viajante

O governador João Doria viaja pelo mundo em busca de parceiros para realizar projetos de privatização e, ao mesmo tempo, contribui para que os empresários brasileiros façam negócios no exterior

Crédito:  Palácio dos Bandeirantes

VOANDO ALTO O sheik Al Maktoum, presidente da Emirates, promete a Doria (centro) um novo voo entre Dubai e São Paulo, sob os olhares do secretário Júlio Serson (à esq.) (Crédito: Palácio dos Bandeirantes)

No início de agosto de 2019, o governador de São Paulo, João Doria, se encontrava à frente de uma missão comercial em Xangai (China), diante de investidores locais. Havia acabado de inaugurar o primeiro escritório internacional do estado de São Paulo, dedicado a intensificar os negócios entre o governo paulista e os empresários no país, que se tornou o maior parceiro comercial do Brasil. Como Doria tem como doutrina não ingerir bebidas alcoólicas, “sob hipótese alguma”, como diz, ele passou por um perrengue quando tratava da aplicação de investimentos no estado. Sentado a uma mesa de negociação diante de empresários e investidores chineses, em um jantar oferecido pelo governo e organizações locais, ele foi instado a comemorar. “Os chineses não fazem negócio sem beber”, afirma Doria à ISTOÉ. “O conviva precisa brindar com eles, bebendo baijou (aguardente local). Mas não é só um copinho. Quem quer fechar um contrato, precisa acompanhá-los e beber sem parar. Como se não bastasse, quando o convidado termina uma dose, precisa provar isso virando o copinho para baixo, para mostrar que está vazio.”

Era beber ou ver todos os seus objetivos frustrados. A solução que o governador encontrou foi verter a bebida em um copo ao lado, e assim simular que estava bebendo um baijou atrás do outro. “Eu aproveitava quando ninguém prestava atenção e esvaziava o copo, no momento das palmas ou de algum discurso entusiasmado.” Doria provou que era “bom copo” e, assim, conquistou a confiança dos chineses, sem perder a linha e sua devoção abstêmia. “Quando eu era bem jovem, decidi que nunca iria beber nem fumar, e mantenho a promessa que fiz a mim mesmo até hoje”.

Publicitário, jornalista e apresentador de TV, Doria levou esses hábitos e o padrão de comportamento ao governo de São Paulo. Ele faz, assim, a máquina pública estadual funcionar segundo seu relógio biológico. Afinal, ele dorme apenas três horas ao dia, gosta de acordar cedo para malhar e ficar de olho no grupo do governo que mantém no WhatsApp, trocando ideias e orientando secretários e assessores. Diz que não tem tempo para assistir a filmes na Netflix – não viu, por exemplo, o documentário “Democracia em vertigem” por falta de tempo -, mas fechou com a companhia americana de streaming um acordo para realizar produções em São Paulo, sem diretrizes ideológicas. “Meu governo não é ideológico, e sim pragmático”, diz. “Seguimos critérios de governança e compliance, sem objetivos de proteger esta ou aquela facção política.” Seu evangelho é o liberalismo e a inovação tecnológica, temperados por uma aversão a protecionismo social: “o que melhora a vida dos brasileiros é criar empregos”. Ele sente-se inconformado com a alta taxa de pessoas que não têm oportunidade de trabalho.“O Brasil tem 12 milhões de desempregados e precisamos intensificar os investimentos nas áreas sociais, na saúde e no transporte. Para isso, é necessário a desestatização.”’

As missões comerciais

Foi com essa preocupação que, no ano passado, iniciou uma série de “missões” pelo planeta, com o objetivo de implementar 21 programas de privatização e de incentivo a negócios. A sua nona missão comercial ocorreu na semana passada em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. Levou consigo 47 empresários e 12 secretários de estado para inaugurar, na zona portuária de Dubai, o segundo escritório comercial de São Paulo. “Let`s do business! (Vamos fazer negócios), repetiu nos discursos que proferiu ao longo dos quatro dias da ”Missão Emirados”, como a denominou. Os empresários locais e sheiks do petróleo de certa forma ficaram aliviados com a possibilidade de reabertura do mercado brasileiro ao seu país, uma vez que as janelas de negócios haviam sido fechadas desde que as grandes empreiteiras brasileiras, entre elas a Odebrecht e a Camargo Corrêa, acabaram saindo do mercado por conta das investigações da Lava Jato. Um dos encontros mais promissores foi com o sheik Ahmed Bin Rashid Al Maktoum, ministro de Óleo e Gás dos Emirados Árabes e presidente da Emirates, que administra o Aeroporto de Dubai. O sheik prometeu lançar mais um voo diário entre São Paulo e Dubai a partir de 2021. “João é um caixeiro-viajante no bom sentido do termo”, afirma o secretário de Relações Internacionais, Júlio Serson.“Tenho certeza de que vamos ajudar São Paulo e o Brasil crescer: o governador está determinado.’’

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O escritório comercial, mantido pela empresa Invest SP, pretende se sustentar sem ajuda governamental e levar propostas de investimentos em infraestrutura a investidores árabes, bem como estreitar as relações para incentivar a exportação de produtos de São Paulo ao Oriente Médio e África. “São Paulo é pioneiro nas ações e na desregulamentação de impostos”, diz Doria.”Certamente, os outros 26 governadores irão se juntar a nós.” No final do mês, acontecerá, em Curitiba, a reunião do Consórcio Sul-Sudeste, que irá reunir sete governadores de estados que ostentam 71% do PIB do Brasil.

Tanto para o governo, como para os empresários paulistas, os resultados das primeiras reuniões em Dubai e Abu Dhabi foram positivos, com a possibilidade de negócios na ordem de mais de R$ 141 bilhões (US$ 30 bilhões) em dois anos. Os sheiks locais acenam com o aumento de aportes em obras, como no Aeroporto de Congonhas, que deverá ser privatizado no ano que vem. O Porto de Santos também está na mira de investidores árabes. Afinal, a empresa portuária DP World, que controla um terminal na Baixada Santista, promete ampliar operações ali, bem como no Porto de São Sebastião. O fundo soberano Mubadala divulgou, inclusive, a intenção de participar do leilão de concessão do autódromo de Interlagos. O Mubadala possui 85% da concessionária da Rota das Bandeiras, com 297 quilômetros de rodovias paulistas. Os empresários brasileiros nas áreas de transporte e logística, agribusiness, serviços, calçados, construção e mercado financeiros contam que conseguiram movimentar U$ 32 bilhões de negócios privados no mundo árabe, sem interferência do estado.

Por isso, o governador e os empresários da “Missão Emirados” comemoraram os bons resultados da viagem na noite de quarta-feira 12, com um jantar no restaurante Cipriani, escolhido por Doria, habitué da sede do restaurante em Veneza. “Agora vamos emendar a noite e embarcar pela manhã de volta ao Brasil”, brindou o governador, erguendo um copo de refrigerante. Doria já está focado nas próximas missões. Irá a Miami em março, Nova York em maio e à Alemanha em junho. Quase nada parece deter o caixeiro-viajante. A viagem à China, marcada para 31 de maio, ainda dependerá do nível da epidemia do Coronavírus.

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