‘O brasileiro vê no cinema o que vê na Seleção’, diz Kleber Mendonça Filho

Diretor de 'O Agente Secreto' celebra prêmios, repercussão digital e o impacto do cinema brasileiro no cenário global

Kristy Sparow
Kleber Mendonça Filho: “Não brigo com o tempo, ele passa e as cidades mudam” (Crédito:Kristy Sparow) Foto: Kristy Sparow

Kleber Mendonça Filho, 57 anos, falou sobre o destaque internacional de seu filme ‘O Agente Secreto’, indicado ao Oscar 2026. O diretor ressaltou a importância de o público brasileiro reconhecer suas próprias produções culturais antes de qualquer reconhecimento internacional.

“É muito gratificante ver que o Brasil e os brasileiros podem se orgulhar de algo que é nosso e, ao mesmo tempo, ser valorizado lá fora. O público nacional consegue se identificar com o cinema da mesma forma que sente orgulho de um atleta ou de um músico em destaque”, comentou. Ele ainda destacou: “É incrível ver O Agente Secreto se tornando um verdadeiro blockbuster brasileiro dentro do próprio país”, disse em entrevista à BBC.

Mendonça Filho também comentou os desafios de garantir que o cinema nacional chegue ao público brasileiro, especialmente em um mercado amplamente dominado por Hollywood. “Esse é um desafio constante não só para o cinema brasileiro, mas também para produções de países como França, Alemanha, Canadá e tantos outros”, explicou.

Outro ponto curioso abordado pelo diretor foi a presença do filme no Carnaval deste ano. “Em Olinda, o bloco Pitombeira dos Quatro Cantos está presente, e o Wagner Moura usou a camisa de 1977 da Pitombeira. A venda dessas camisas não só ajudou a viabilizar o Carnaval deste ano como também já garantiu o próximo. É impressionante como o filme está se expandindo de diferentes formas”, afirmou.

Ele ainda destacou a participação do público nas redes sociais: “É emocionante ver a energia do público brasileiro se manifestando online”. Essa mobilização não passa despercebida nos Estados Unidos: “A equipe da Neon, que distribui o filme por lá, ficou surpresa e encantada com o apoio brasileiro na internet”, disse.

Com orçamento aproximado de R$ 28 milhões, O Agente Secreto contou com aporte de coprodutores internacionais (cerca de R$ 14 milhões), investimentos privados (R$ 5,5 milhões) e recursos do Fundo Setorial do Audiovisual (R$ 7,5 milhões). Apesar de parte do financiamento público ter gerado críticas, Mendonça Filho considerou essas opiniões ultrapassadas. “Um país inteligente investe em cultura do mesmo modo que investe em saúde e educação. Esses recursos retornam multiplicados, fortalecendo a identidade e a compreensão do próprio país”, afirmou.

O diretor observou que o Brasil produz pouco mais de 100 filmes por ano, a maioria com incentivo público, e citou países como Coreia do Sul, França, Alemanha, Holanda, Austrália, Canadá e México como exemplos de nações que apostam na própria cultura. Até o momento, o longa já conquistou 56 prêmios em 36 premiações, incluindo os Globos de Ouro.

Um episódio chamou atenção: no Critics Choice Awards 2026, o prêmio de Melhor Filme Internacional foi entregue fora do palco, no tapete vermelho. “Num contexto político delicado nos EUA, com atitudes negativas em relação a estrangeiros, essa entrega pareceu superficial e inadequada. Espero que no próximo ano os filmes internacionais recebam o respeito que merecem”, disse.

Dias depois, Mendonça Filho e Wagner Moura aproveitaram a ocasião para entregar o prêmio de Melhor Filme e enviar uma mensagem elegante sobre a valorização do cinema internacional. “Foi uma oportunidade de passar um recado sutil e elegante, e ainda tivemos a honra de entregar o prêmio da Sony para sua equipe”, comentou o diretor.