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Entrevista

Leona Forman, Fundadora da BrazilFoundation

O brasileiro precisa aprender a doar

Divulgação

O brasileiro precisa aprender a doar

Luisa Purchio
Edição 28/09/2018 - nº 2545

Após uma carreira de 20 anos na Organização das Nações Unidas (ONU), onde trabalhou com mais de 1,6 mil ONGs associadas em todo o mundo e foi chefe dos Centros de Serviços de Informação e porta-voz do Presidente da Assembleia Geral, Leona Forman, 77 anos, se aposentou e decidiu fazer mais pelo Brasil. Em 2000, criou a BrazilFoundation (BF), organização social sediada em Nova Iorque, com sede no Rio e em Miami e que surgiu com o objetivo de incentivar brasileiros espalhados pelo mundo a apoiarem ONGs no Brasil. Em 18 anos de história, foram mais de US$ 20 milhões arrecadados e 600 projetos apoiados, principalmente por meio de jantares de gala super badalados, com presença de celebridades e em locais como o Museu de História Natural e o Metropolitan. Hoje o escopo do trabalho da organização cresceu e visa aumentar a cultura da doação no próprio Brasil por meio da Campanha Abrace, que está no segundo ano. Lançada na quinta-feira 27, a campanha vai até 28 de novembro, o Dia de Doar. De Nova Iorque, Leona falou à ISTOÉ sobre os motivos que fazem o brasileiro doar pouco e por que as políticas públicas poderiam estimular a filantropia no País.

Qual é o objetivo da campanha Abrace?

É fazer com que as pessoas doem. A Brazil Foundation foi criada originalmente para mobilizar os brasileiros que moram fora no Brasil, eles são 4 milhões em todo o mundo e, nos EUA, são 1,5 milhão. A visão original era criar um canal para essas pessoas contribuírem com o Brasil. Em oito anos, foram mais de US$ 40 milhões. Agora nossa ideia é inspirar os próprios brasileiros a doarem. Ainda não atingimos esse objetivo, temos muito o que avançar. Esse ano temos como meta arrecadar pelo menos R$ 1 milhão.

Comparado a outros povos, o brasileiro é mesmo solidário?

Nós temos uma pesquisa feita em 139 países, ela mostra que o brasileiro é muito generoso, se comparado com os cidadãos de outros países, em termos de tempo e voluntariado. Nós temos uma coisa do “jeitinho”, de ir lá, ajudar, fazer o que parecia impossível. É interessante também notar que o número de mulheres trabalhando no terceiro setor é muito grande, elas fazem a diferença porque vão e não esperam por ninguém. Isso é muito bom.

E em termos de doação financeira?

Temos muito o que evoluir. Somos a 8ª maior economia do mundo e estamos em 75º lugar no ranking de doações. A legislação não favorece e há também a questão cultural. Elas estão crescendo, mas não se transformaram ainda numa prioridade do setor público e das empresas.

Por que o brasileiro doa pouco?

As formas de incentivo são muito variadas e confusas, tanto para pessoas quanto para empresas. Em um país como os EUA, como a Inglaterra, onde as leis são mais muito mais simples e diretas, você doa, você tem o incentivo, e pronto. Ninguém fica classificando a sua doação, a única coisa que o governo se intromete é que seja feito com transparência, com responsabilidade e com resultados. E nem todo mundo consegue fortalecer uma organização da sociedade civil, por exemplo, a ponto de conseguir estruturá-la para receber esses incentivos. Não existe uma lei que permite a doação para a organização crescer, para contratar mais pessoas. Isso não existe, mas existe a lei Rouanet, que dá para um concerto, um ballet, para atividades culturais. Nos EUA você doa para uma ONG que é confirmada e parte é abatida do imposto de renda. Eles não perguntam para onde foi.

Como mudar a cultura de doação?

Eu acho que eles e elas – não podemos nos esquecer delas – têm muita capacidade de doar, mas nunca tiveram confiança, nunca souberam a forma pela qual pudessem agir. Eu vejo cada vez mais pessoas interessadas em serem voluntários, voluntárias principalmente. Em família isso também se dá muito, querer deixar um legado da família. Há uma tendência cada vez maior, não só no Brasil como no resto do mundo, das pessoas quererem compartilhar aquilo que elas têm a sorte de ter com aqueles que não têm. É dar às pes-soas as ferramentas necessárias para também conseguirem melhorar sua própria vida, sua própria comunidade, sua própria cidade. Se todo mundo se sentisse responsável pelo desamparo dos outros, seria muito, muito diferente.

A senhora falou de confiança. Esse é um fator que impede mais doações?

É a primeira coisa que eu senti quando a BrazilFoundation começou. Uma das primeiras perguntas que eu recebi foi ‘Quem está por trás de vocês?’ Eu olhei para trás e não tinha ninguém (risos). A confiança precisa ser conquistada. Uma vez conquistada, que as pessoas sentem que a contribuição está gerando resultado, tanto de tempo e dinheiro, essa confiança naturalmente se espalha. Se um dá, o outro também quer dar. A BF tem um projeto em que nós apresentamos as ONGs locais, que fazem trabalhos que a gente conhece como um trabalho merecedor e confiável. Elas merecem porque são regulares, não são organizações políticas, não são criadas por razões difusas, mas são abertas e transparentes. Isso pode e deve aumentar.

E quanto aos incentivos fiscais ao doador, eles ainda são poucos no Brasil?

Precisamos reconhecer que esse abatimento não é uma perda para o orçamento nacional, ao contrário, ele irá para as novas forças que contribuem para o desenvolvimento. Enquanto alguns países oferecem dedução fiscal para doador, o Brasil tem poucas, e ainda taxa a doação. É o ITCMD, imposto que incide sobre a doação de heranças e transferências de bens para entidades sem fins lucrativos. A partir de janeiro de 2018 ele não existe mais no estado do Rio de Janeiro, mas ainda há em todos os outros. A lei tem muito que avançar. Quando houve a tragédia do museu, já estava tramitando há dois anos uma lei que regulamentava os fundos de Endowment. Quando aconteceu o incêndio, o presidente Temer assinou uma MP regulamentando esses fundos patrimoniais. Infelizmente foi em decorrência de uma tragédia, mas as leis estão avançando e eu acredito que vamos ver movimentações a curto e médio prazo para melhorar a legislação para doação no Brasil.

O fato de vocês estarem baseados nos EUA, sob as leis americanas, é uma vantagem?

Sim, é uma vantagem. Temos doadores que pagam impostos aqui, têm incentivo fiscal legítimo e doam para a BF, que é uma organização registrada aqui, e que nós podemos usar para contribuir para organizações sem fins lucrativos no Brasil. Os brasileiros que moram aqui sempre se sentiram próximos ao Brasil. Eles podem estar morando aqui nos Estados Unidos há 20, 30 anos, podem estar distantes, mas a ligação é muito forte. É uma coisa muito natural e muito humana querer beneficiar o seu país.

Qual é a importância das doações para o Brasil?

Na minha experiência de 18 anos e desde que a BF foi criada, eu vejo que é cada vez mais importante. Eu trabalhei muito tempo com ONGs e percebi que elas tinham muito mais jogo de cintura que o governo, elas tinham a capacidade de se moverem, e até influenciarem os outros setores, como o governamental e o empresarial. Por isso que eu acredito muito no trabalho do terceiro setor. Isso não só no Brasil, mas também em outros países onde elas são permitidas e têm a liberdade de agir. Há uma independência muito grande, as pessoas físicas podem entrar no campo onde o governo hoje não está, principalmente na periferia das grandes cidades, que hoje estão tão carentes de recursos no Brasil, ou nos grandes hospitais, que sempre precisam de dinheiro. Eu acho muito importante as pessoas se sentirem capazes de fazer a diferença. Abraçando um interesse social, ou um objetivo social, as pessoas acabam se sentindo mais realizadas também.

Temos de lutar mais pela eficiência dos serviços públicos, para não sermos tão dependentes de doações?

É muito difícil na situação do Brasil de hoje. Se você mora em uma comunidade e vê que o seu tempo e o seu recurso estão fazendo a diferença, que mal pode haver? Não há dependência. É uma aceitação que pode levar você, como indivíduo, a ajudar a sua cidade, o seu país.

Como analisa as propostas dos candidatos em relação ao terceiro setor – há perspectivas de mudanças?

A gente não vê nada, é uma pergunta que não está no debate. Nesse ano em particular, porém, conhecemos gente do terceiro setor que está se candidatando.

Nós somos um país precário em muitos aspectos. Quais áreas precisaram de mais doações?

A educação é a primeira em todos os níveis. Mas eu não vejo o Brasil como um país precário, eu vejo como um país grande, rico, e que tem uma mistura muito grande de pessoas. Precisamos de pessoas que acreditem mais no Brasil. Eu tenho esperança, porque eu acredito naqueles que se dedicam, que têm visão, nos jovens. A geração nova está animada para ter uma participação na vida do País. Isso a gente vê nos projetos que a gente apoia no Brasil todo. A população brasileira é bem nova e temos gerações de jovens cada vez mais engajados.

O brasileiro ainda tem muito a cultura de doar em festas beneficentes. Isso é bom ou ruim?

Por que não, se dá resultados? Eu acho isso importante, porque quanto mais a filantropia for vista, mais pessoas vão querer fazer o mesmo.

Nós vemos muita solidariedade nas redes sociais e ao mesmo tempo um individualismo. Quem vai vencer?

As duas sempre vão existir. Precisamos lutar para aumentar a solidariedade. Na campanha Abrace do ano passado, um dos projetos participantes foi de uma organização na Paraíba. Eles mobilizaram mais de 300 doadores e, com o dinheiro arrecadado, construíram 19 cisternas. Nesse ano, os próprios beneficiados já estão se preparando para doar e beneficiar outras pessoas. É nesse Brasil que a gente quer acreditar, de cidadãos que fazem mudanças positivas.

 

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