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Entrevista

Carlos Burle

O Brasil já não é mais visto como maroleiro

Divulgação

O Brasil já não é mais visto como maroleiro

Celso Masson
Edição 08/12/2017 - nº 2504

Um dos principais surfistas de ondas grandes do mundo, Carlos Burle, 50 anos, exerceu um papel decisivo para consolidar o prestígio do esporte que, até os anos 1980, ainda era visto como “coisa de vagabundo e drogado”, como ele próprio diz. Se hoje o surfe movimenta fortunas em verbas de marketing, direitos de transmissão das competições, e uma indústria gigantesca de roupas e acessórios, uma parte desse fenômeno se deve à ousadia e ao empenho de Carlos Burle. Nascido em uma aristocrática família pernambucana, o atleta que encara ondas de até 35 metros decidiu expor os altos e baixos de sua trajetória no recém-lançado livro “Carlos Burle: profissão surfista” (Primeira Pessoa). Na entrevista a seguir, ele resume suas conquistas e desafios, fala sobre a corrupção nos Jogos Rio 2016 e responde às críticas que recebe da comunidade de surfistas que o acusam de ser marqueteiro: “Vendo minha imagem, mas não vendo a minha alma”.

Por que você se tornou surfista profissional?

O surfe é uma ferramenta que me aproxima do meu grande sonho: ter qualidade de vida, com saúde, viver perto da natureza. Quando vi que esses elementos estavam presentes no mesmo esporte, entendi que dentro dele eu poderia realizar meu sonho. Ter me tornado surfista profissional foi uma decorrência disso e da necessidade de dar uma resposta para à pergunta: “O que você vai ser quando crescer?”

O que seus pais disseram quando você disse que seria surfista?

No começo, quando era apenas um esporte, meus pais não se opuseram. Depois, já com 16 anos, quando o surfe começou a ficar mais sério, é que vieram os questionamentos. Eu vivia numa sociedade muito fechada, pertencia a uma classe aristocrática do Recife. Como eu poderia querer viver do surfe? Naquela época era coisa de vagabundo e de quem usava droga.

O que foi mais difícil: enfrentar o mar ou as pressões?

Quando eu comecei não havia um exemplo de sucesso, alguém que eu pudesse mostrar para o meu pai e dizer: “Esse cara vive do surfe e é bem sucedido”. Hoje, quando o surfista é talentoso, ele é abraçado pelo sistema: tem o agente que cuida dos contratos de patrocínio, o preparador físico, o nutricionista, o fisioterapeuta, a assessoria de imprensa. Já tem gente de olho em talentos de 9, 10 anos de idade. A ausência dessa infraestrutura no início me obrigou a fazer tudo por conta própria e a sofrer as consequências. Fiz experiências com a minha alimentação que me trouxeram problemas graves, uma alergia que levou anos para ser tratada. Hoje existe uma indústria respeitada o suficiente para que a sociedade veja o surfe como algo saudável. E, como negócio, ele gera dinheiro bastante para que haja ícones milionários, como o Gabriel Medina, o Mineirinho (Adriano de Souza), o Felipe Toledo.

Como você é visto por essa geração?

A sociedade me vê como mestre, como alguém que abriu um caminho no surfe de ondas grandes. Mas sou muito criticado dentro da minha comunidade. Dizem que eu não olho muito para eles, que eu sou falso, que o que faço é só marketing.

Qual sua reação a essas críticas?

O que eu digo, quando tenho oportunidade, é que eu criei uma perspectiva de crescimento profissional dentro do circuito de ondas grandes. Os desafios hoje são outros. Talvez a pressão sobre eles seja até maior. Por parte da mídia, dos patrocinadores.

Você não sofreu essas pressões?

Eu já me senti usado pelos meus patrocinadores para vender x, y e z. Porque virei um personagem, comecei a ser reverenciado, tive uma exposição enorme. Hoje minha responsabilidade é maior. Eu vendo a minha imagem, mas não a minha alma.

Qual a maior recompensa por ter perseguido seus sonhos?

Eu me sinto afortunado por ter conseguido, dentro da minha profissão, viajar por vários países, entender que as pessoas são diferentes, que ninguém é melhor ou pior. Isso é o que eu chamo de faculdade da vida, algo que você não compra nem vive na teoria. O surfe me proporcionou a oportunidade de me conhecer melhor através dos meus desafios. É um esporte místico, onde você não controla a arena. Existem energias muito mais poderosas. Compreender isso fez com que eu perdesse o medo de ser eu mesmo.

No livro você afirma que o medo é uma droga poderosa. Como se preparar psicologicamente para surfar uma onda da altura de um prédio de dez andares?

O medo é uma emoção muito primitiva que ajuda a garantir a sobrevivência mas que pode inibir a sua ação. Por isso é preciso racionalizar o medo, usando técnicas que permitem gerenciar os riscos. Eu faço isso porque venho aprendendo há anos, caindo e levantando. Até onde eu posso expandir os meus limites e superar os obstáculos? Isso é uma conquista que vem com o tempo.

Como foi a sua relação com as drogas?

As experiências que tive com drogas foram motivadas por uma busca de expansão da minha consciência. Eu entendo que o caminho da felicidade e do equilíbrio é o autoconhecimento. Foi algo relevante para mim não apenas como atleta mas como ser humano. Por isso eu não tive nenhuma dificuldade em me expor no livro. Eu escrevi uma história verdadeira, sem omitir os fatos nem as pessoas.

As pessoas citadas no livro reagiram negativamente às suas confissões?

Algumas se queixaram por eu ter exposto detalhes do nosso cotidiano. O que eu vejo hoje é uma sociedade ainda hipócrita. A gente percebe isso claramente na política. Os candidatos prometendo mundos e fundos e, na hora de governar, fazem tudo em interesse próprio, criando um poder paralelo.

Você ficou ainda mais conhecido depois de resgatar a Maya Gabeira, em 2013, que se acidentou ao surfar uma onda gigante em Portugal. O que passou pela sua cabeça ao decidir salvá-la?

É importante a gente entender a vida como uma linha contínua, que não tem pausa, como ocorre num filme, em que a gente pode parar e rever uma cena. Na vida não é assim. O momento em que eu fui resgatar a Maya era parte de um processo. Nós, como time, nos preparamos para aquilo. Eu, ela, o Felipe Cesarano e o Pedro Scoob estávamos ali para surfar a maior onda das nossas vidas. A gente treinou para aquilo. Sabíamos que poderia haver imprevistos. Quando a Maya caiu e eu decidi resgatá-la, fui muito pragmático. Já passei por vários cursos de primeiros socorros e não me deixei envolver emocionalmente com a situação para não perder minha linha de raciocínio. Foi muito difícil. O resgate não saiu como eu imaginava. Eu rezava, pedia para ela não morrer.

E depois voltou para surfar. Por quê?

Quando vi que ela estava viva, socorrida e recebendo os cuidados dos paramédicos, eu também fui muito pragmático. O mar estava gigante e eu queria voltar para água. Depois de tudo o que aconteceu, eu merecia surfar. E peguei a maior onda da minha vida [estimada entre 32 e 35 mestros].

Alguma experiência já fez você repensar a sua escolha de surfar ondas grandes?

Todas. Mas se eu pensar que eu vou morrer, já estou perdido. Essa situação com a Maya, se tivesse dado errado, onde eu estaria hoje? Eu poderia não estar aqui. O mundo inteiro me colocou como herói. E ainda assim eu fui muito questionado.

O Brasil teve dois campeões mundiais de surfe seguidos: Gabriel Medina, em 2014, e Adriano de Souza, em 2015. O que permitiu essas conquistas?

O surfe no Brasil atingiu a maturidade. Antes, os brasileiros tinham o rótulo de só saber surfar ondas pequenas. Agora a gente não é mais maroleiro. O “Brazilian Storm” (”tempestade brasileira”, termo com o qual a mídia mundial se refere à nova geração), já passou. Agora é o momento da dominação. O Gabriel Medina está disputando o bicampeonato mundial. O Brasil tem vários atletas entre os melhores do mundo desde a divisão de acesso. Ganhamos mais de 50% dos campeonatos este ano e fomos a nação que mais venceu. Isso é um amadurecimento do esporte.

O surfe será oficialmente modalidade olímpica a partir de Tóquio, em 2020. O que muda com isso?

Primeiro, vai ser mais reconhecido, os ídolos ficarão em maior evidência. O surfe já tem um diferencial: a moda. Muita gente veste surfwear mesmo não sendo surfista. Há também essa ligação com a natureza, o que traz a chancela de sustentabilidade. O marketing pode ser muito produtivo para o esporte. Uma oportunidade que poderá vir dos Jogos Olímpicos é a criação de mais piscinas com ondas artificiais, que levarão o surfe a lugares onde antes era impossível. Vai ficar cada vez mais fácil dominar a arena, televisionar, exibir ao vivo.

O esporte brasileiro não vive alheio à corrupção. Essa onda de roubalheira, envolvendo membros do Comitê Olímpico, é algo recente ou sempre existiu?

Talvez a gente ainda não tivesse a noção de o quanto é necessário haver transparência. A corrupção já estava presente no esporte do País. Ao realizar um evento enorme como foi a Olimpíada do Rio, com todo aquele volume de dinheiro, o que poderia acontecer? O lado positivo é que, com a tecnologia, a gente fica sabendo de tudo. Estamos sendo vigiados a todo momento. Por um lado isso é legal, por inibir quem quer levar vantagem. Por outro lado, é uma pena, porque agir corretamente não deveria ter como motivação apenas o medo de ser flagrado. Isso cria uma sociedade doente e medrosa.

Que conselho daria para um garoto que sonha em levar a vida como surfista profissional?

Quando você pergunta para um jovem o que você quer ser da vida, a resposta é quase sempre a mesma: “Famoso”. Eu fico com receio de que eles passem por tudo o que eu passei e se percam no caminho. Quem quiser ser surfista profissional tem que entender que está entrando numa jornada de vida, que não é apenas um sonho. Vai ter que se dedicar todos os dias, precisa amar aquilo, porque os desafios serão enormes. Mas o básico é investir em si mesmo, porque isso ninguém pode roubar de você. E se ele não conseguir viver do surfe, que seja um indivíduo capaz de ter uma vida equilibrada. O sucesso para mim é isso: ter sabedoria.

 

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