Entrevista

Gilberto Kassab, Presidente nacional do PSD

O Brasil está cansado de extremismos

Marco Ankosqui

O Brasil está cansado de extremismos

Germano Oliveira
Edição 27/11/2020 - nº 2655

O presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, diz em entrevista exclusiva à ISTOÉ que a expressiva votação obtida pelos partidos de centro como MDB, PP, PSD, PSDB e DEM deu uma demonstração inequívoca de que o eleitor brasileiro não suporta mais o radicalismo e os que defendem ideias extremistas. Exatamente por isso ele vê como grandes derrotados nestas eleições o PT e o presidente Bolsonaro, que não conseguiu eleger os candidatos que apoiou no primeiro turno. “O PT de Lula e Bolsonaro foram os grandes derrotados, mas acho que os petistas perderam mais porque já estiveram no governo quatro vezes.” O ex-prefeito paulistano diz que o grande erro do presidente foi participar das eleições apoiando candidatos que tinham tudo para perder, como Celso Russomanno, em São Paulo. “Até agora não entendi por que Bolsonaro quis participar das eleições se nem partido ele tem”, disse Kassab. Para ele, o mandatário deveria adotar um tom mais moderado, pois a sua postura beligerante não tem contribuído para um clima menos tenso no ambiente político. “Se o presidente quiser ouvir um conselho meu, eu diria: olha, seus bons momentos foram aqueles em que o senhor adotou o tom da conciliação e da serenidade.”

Esta eleição mostrou que o eleitor cansou de radicalismos?
Os extremos buscam permanentemente o confronto. E isso nunca é bom para nenhum país. A serenidade do nosso partido, com postura cuidadosa, valorizando o centro e fragilizando os extremos, primeiro atraiu líderes importantes para o PSD e depois envolveu os eleitores. Com um número expressivo de candidaturas, tivemos um resultado muito favorável nas urnas. E vamos continuar progredindo. Em 2012, disputamos a primeira eleição e em 2016 já tivemos um número expressivo de prefeitos eleitos. Agora, em 2020, elegemos 657 prefeitos e ainda disputamos o segundo turno em outras dez capitais. O partido encontrou o discurso correto e a posição certa, que vai ao encontro do que a sociedade quer: equilíbrio, bom senso e preocupação em aprovar bons projetos para o Brasil.

Os partidos de centro foram os grandes vitoriosos?
Sim. Foi a vitória de um centro ideológico, que conversa com todo mundo. E isso não significa se entregar, mas sim dialogar. Não queremos fazer oposição por fazer e nem ser situação para estar de acordo com tudo aquilo que seja proposto pelo governo. E o resultado mostra que o caminho foi correto.

Será o fim da polarização entre a esquerda e a direita?
A eleição deixou claro que o centro continua sendo a preferência do eleitor brasileiro. É evidente que quando há uma eleição e duas extremidades vão se confrontar no segundo turno, como vinha acontecendo, o eleitor tem de fazer opção por uma dessas extremidades. Mas quando o eleitor tem a opção de fazer a escolha por uma candidatura e um projeto de centro e equilibrado, o eleitor sempre prefere o caminho da moderação. O Brasil está cansado de extremismos.


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O senhor acha que o clima tenso imposto hoje pelos extremistas faz mal ao Brasil?
A tensão nunca é positiva. O próprio PT, depois de perder várias eleições, só ganhou em 2002 quando teve um gesto de aceno ao centro, quando Lula convidou o José de Alencar para ser seu vice. Foi uma candidatura de esquerda, mas voltada para o centro, porque o Alencar era a figura mais emblemática do centro naquela altura. E nós temos, na história, vários exemplos disso. Uma extremidade procurando o centro para construir o caminho da vitória, demonstrando que o centro continua tendo identidade com o eleitor.

Nesta eleição, o PT perdeu espaço e Bolsonaro não elegeu seus candidatos em nenhuma capital. Foram os grandes perdedores?
O PT de Lula foi o grande derrotado nesta eleição e perdeu mais do que o Bolsonaro, porque é um partido organizado e já esteve quatro vezes na presidência. As pesquisas indicaram uma fragilidade da imagem do presidente em várias regiões nos últimos meses, mas ele não sofreu o mesmo desgaste do PT.

A derrota de Celso Russomano em São Paulo foi acachapante para o presidente?
Até hoje não entendi porque ele quis participar da eleição municipal. Ele não tem partido, não precisava participar. Aqui em São Paulo, ele fez opção por um candidato que todo mundo sabia que tinha um histórico de começar bem, mas depois ter uma queda vertiginosa, e dessa vez não foi diferente. No Rio de Janeiro, mesmo sendo o estado do presidente, ele também não precisava ter entrado. Foi um grande erro ter ingressado na campanha. Não havia necessidade. Quando se entra numa campanha e ganha, você ganha. Mas quando perde, como aconteceu em São Paulo, Rio e Belo Horizonte, o desgaste é enorme.

Esta eleição reforçou a necessidade de se ter uma terceira via para enfrentar o radicalismo da esquerda e da direita em 2022?
Acho que ainda é cedo para discutir eleição presidencial. Temos ainda a pandemia e os reflexos na economia. Então, são muitas variantes que vão influenciar os rumos de 2022. Eu posso dizer que se o centro tiver um projeto forte, deverá sair vencedor. Se não tiver, o vencedor, seja de esquerda ou direita, terá de abraçar o centro depois para governar.

O Centrão, integrado por vários partidos, inclusive o seu PSD, pode vir a apoiar a reeleição do presidente?
O centro é muito maior do que o Centrão. Meu partido, o PSD, não é Centrão, mas é centro, assim como o PSDB, o MDB e o DEM. Então o centro é muito maior. Há um grupo de partidos no Congresso com plena consciência de que devem cooperar para a aprovação dos projetos que são bons para o país e votar contra o que for ruim. De nossa parte, não há compromisso de votar a favor do governo. O partido tem uma posição de independência em relação ao governo Bolsonaro e as nossas bancadas respeitam essa posição, embora estejam próximas a algumas posições do governo.

Em São Paulo, o senhor é chefe licenciado da Casa Civil de João Doria. O seu partido pode apoiar a candidatura do governador a presidente?
Um partido consolidado, como é o caso do PSD, nunca pode dar a largada num processo eleitoral sem dar prioridade à candidatura própria. A largada será dada no início do ano que vem e o PSD dará prioridade à candidatura própria. Seja nos estados, para governador e senador, seja para presidente da República. Temos nomes fortes como o Antonio Anastasia (MG), o Otto Alencar (BA), o Ratinho Junior (PR), o Fabio Trad (MS) e o André de Paula (PE).

Desde que criou o PSD, o senhor foi ministro de Dilma, de Temer e agora se alinha a Bolsonaro. Isso faz parte do pragmatismo do partido?
Não é pragmatismo. Em 2014, fizemos uma aliança vitoriosa com o PT e participamos do governo. Depois, a presidente caiu e o vice assumiu e nós continuamos onde estávamos, compondo o governo. Hoje, nossa relação com o governo é de cooperação para os projetos que entendemos que sejam bons para o País. Nenhum deputado ou senador do PSD tem compromisso político de votar a favor de algo em que ele não acredita. É muito diferente de pertencer à base de apoio do governo.

O fato de Fábio Faria ser ministro de Comunicações de Bolsonaro não significa que o PSD integra o governo?
Não, não significa. Primeiro porque o Fábio tem qualidades para ser ministro. Excelente formação, bom político. Tenho muito apreço por ele. Mas a sua presença não está vinculada a um acordo com o partido. Foi uma escolha pessoal do presidente. Mas o PSD tem sempre uma cautela, até para ser respeitado internamente por todos os companheiros: eles nunca foram consultados se gostariam ou não de fazer parte do governo. Um presidente de partido, como é o meu caso, não pode dizer “somos governo” sem ouvir todas as instâncias partidárias. Não participamos da campanha de Bolsonaro e estou muito tranquilo quanto à nossa independência.

Em relação ao destempero do presidente Bolsonaro, o senhor acha que está lhe faltando mais moderação neste momento?
Quando o presidente teve uma ação mais moderada, ele cresceu e somou. Tranquilizou o País. Se o presidente quisesse ouvir um conselho meu, eu diria: olha, seus bons momentos foram aqueles em que o senhor adotou o tom da conciliação e da serenidade.

Acha que ele deveria parar de fomentar polêmicas?
Acho que as polêmicas surgem de maneira que não eram previstas. Nos últimos tempos, sempre que o presidente agiu com mais moderação foi bem. Mas o estilo dele é do enfrentamento, E não é nenhuma crítica a ele, mas isso não ajuda em nada o ambiente político.

Recentemente vimos a ocorrência de atos antidemocráticos e de ataques hackers ao TSE com o envolvimento de bolsonaristas. O senhor vê risco de uma ruptura democrática?
Não vejo riscos nesse sentido. As instituições democráticas estão sólidas e foi essa solidez que nos permitiu superar impasses que aconteceram nos últimos meses, com situações bem tensas. Respeito a posição de todos, mas nossa democracia e o sistema eleitoral são bastante seguros. Tive oportunidade de participar de grupos que examinavam a segurança das urnas, quando fui ministro da Ciência, Tecnologia e Comunicações. Como candidato, já fui votado em cédulas de papel e também pelo sistema atual e posso afirmar que o nosso modelo de votação é seguro, porque a tecnologia vem evoluindo muito.

O que achou da politização das vacinas?
Estamos vivendo um período muito difícil. Tivemos muitos amigos que perderam suas vidas e o apelo que tenho feito a todos, independente de partido, é que somemos esforços para apoiar qualquer que seja o projeto para nos livrar da pandemia o mais rápido possível. E como várias vacinas estão em fase final de testes, todos precisam entender que somente com o imunizante é que vamos voltar a ter segurança. É inconcebível haver enfrentamento político nessa questão.

Como vê possíveis retaliações do novo presidente americano Joe Biden e dos europeus, que exigem maior proteção ao meio ambiente no Brasil?
A questão da destruição do meio ambiente pode afastar os investimentos do Brasil. O tema é a principal bandeira da maior parte dos países do mundo. E eles têm razão. Os riscos que o mundo corre com o desmatamento na Amazônia são grandes. Há argumentos de que a Europa acabou com suas florestas há 200 anos. Sim, acabou. Mas o mundo era outro. Hoje, as autoridades brasileiras têm de entender que estamos num mundo diferente e que o futuro do meio ambiente afeta a todos. E essa questão é de extrema relevância para o futuro do país.

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