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Entrevista

Luiz Carlos Barreto - produtor de cinema

O Brasil daria um filme de terror ou uma chanchada

Felipe Varanda

O Brasil daria um filme de terror ou uma chanchada

Eliane Lobato
Edição 22/06/2018 - nº 2531

Luiz Carlos Barreto é uma das raras pessoas que inserem, no meio de uma conversa, um episódio vivido em 1942 como se fosse normal voltar 76 anos no tempo sem surpreender o interlocutor. Mas ele tem números que justificam a ousadia: acaba de completar 90 anos de vida, tem 73 de carreira cinematográfica, um casamento de 65 anos (sua mulher, Lucy, é, também, parceira profissional), além de uma memória espetacular. Barretão, o maior produtor de cinema do Brasil, é um retirante nordestino que escolheu o Rio de Janeiro para morar e o Brasil para amar, embora seja um crítico impiedoso. Além dos três filhos, sete netos e cinco bisnetos, considera-se pai dos filmes nos quais trabalhou, alguns deles clássicos como “Dona Flor e seus dois maridos”, “Bye bye, Brasil”, “A dama do lotação” e “Memórias do cárcere”. Nesta entrevista à ISTOÉ, ele diz que o Brasil está recuando tanto que chegará à Monarquia.

Mais de cinco décadas de sua vida são dedicadas ao cinema. Que filme o Brasil daria hoje?

O Brasil comporta todos os gêneros. Daria bom argumento cinematográfico para um filme de terror e também para uma comédia. Na verdade, uma chanchada. Há lances da política brasileira que dariam uma tragédia também. O Brasil daria um filme de terror, uma chanchada ou uma tragédia.

Nenhuma drama histórico?

Gosto do ser humano que este país produziu. Não é o mito do brasileiro cordial; sou fascinado é pela capacidade de relacionamento humano. O problema do brasileiro é o espírito escravagista que ficou instalado. Acabamos de fazer um documentário de cinco capítulos sobre trabalho escravo no Brasil, o título é “Escravidão — Século 21”. Hoje, há mais escravidão aqui do que na época do Império. Tem trabalho escravo na rua Barata Ribeiro, no Rio, na Avenida Paulista, em São Paulo, nas confecções de moda de tudo o quanto é lugar.

Sua produtora está fazendo um documentário sobre a Marielle Franco, a vereadora assassinada há três meses no Rio de Janeiro. O que o público deve esperar?

Está em fase de preparação. Não queremos fazer um registro apenas. Estamos acompanhando toda a história, mas a polícia não descobre quem matou! Aliás, se as Forças Armadas e a polícia não conseguem descobrir quem roubou, em 2006, dois milhões de cartuchos de dentro do quartel, terá capacidade de descobrir que matou a Marielle com algumas das balas roubadas? Não tem controle da própria munição, que sai das dependências deles e vai para as mãos de bandidos. De uma hora para outra, podem inventar um assassino para se livrar da cobrança mundial sobre este crime. Estamos procurando fazer algo que não seja a exploração sensacionalista do assassinato. A trajetória de militante da Marielle tem várias facetas: diversidade sexual, miséria, preconceito de cor, raça, gênero, contra a favela. Ela tinha uma visão múltipla.

Por que a operação Lava Jato está investigando os patrocínios do filme “Lula, o filho do Brasil”, dirigido por seu filho Fábio Barreto?

Não é a primeira vez da Lava Jato comigo. Há uns três anos, às 7h, eu estava em casa me preparando para dar uma caminhada, quando toca o telefone. Atendi: “Dr. Barreto?”. Respondi: “Não sou eu, só fiz o ginásio até o terceiro ano, nunca frequentei universidade.” Não adiantou: “Entendi, doutor. Aqui é o delegado da Polícia Federal de Curitiba.” Para contrapor, perguntei: “Qual é o problema, ‘companheiro?’” Ele me disse que eu receberia uma intimação porque tinham encontrado nos arquivos do José Dirceu um contrato firmado entre a empresa dele e a minha, e queriam esclarecimentos sobre as cifras do filme que eu ia fazer. Era um longa sobre a história da clandestinidade do José Dirceu e se chamava “O Homem Invisível”. Eu rompi com o meu sigilo bancário, anexei todos os cheques, juntei o argumento da história, papelada e mandei. Dias depois, o delegado me liga de novo, disse que estava tudo ok e comentou: “Mas uma coisa me impressionou, que história bonita a deste homem, não é?”. Isso é o Brasil (risos).

E o filme sobre o ex-presidente Lula?

Mesma coisa, recebi uma intimação, dei as explicações, enviei os documentos e também deixaram o assunto de lado. Nada há de errado ou oculto.

Qual o estado de saúde de seu filho Fábio, que tinha acabado de dirigir o filme quando sofreu um grave acidente de carro, há nove anos?

Ele está em um estágio estabilizado. Não está em coma total, mas é consciência mínima. O cerebelo está bem, o problema é o trono cerebral, que atrofiou com o trauma do acidente. Foram feitos alguns testes modernos e constatou-se que ele ouve e entende. O teste é, em resumo, assim: ele fica dentro de um tubo e o médico, numa cabine. É dito para ele mexer a mão, por exemplo. Ele entende e aparelhos mostram que mentalmente faz o movimento, mas não executa fisicamente. Se faz um barulho, ele ouve e olha na direção. O estado orgânico dele é impecável, os exames são ótimos. Levamos o Fábio para o hospital para fazer alguns procedimentos experimentais, eletromagnéticos, com um dos médicos que cuida do piloto Michael Schumacher, que vive caso idêntico. Está se fazendo o possível para que ele mantenha um bom estado clínico até que apareça uma solução, a esperança está nas células-tronco.Vamos ver se dá para chegar lá. Nós o visitamos três vezes por semana. O Fábio sempre disse uma frase que gosto de repetir: há o cinema útil e o fútil. Ele não queria fazer um filme que seria jogado no lixo junto com o saco de pipoca após a sessão.

O senhor também encara o cinema dessa forma?

Sim. A indústria do entretenimento já é a primeira do mundo em negócios: US$ 1,2 trilhão de receita anual no mundo inteiro. No Brasil, essa cifra é de US$ 60 bilhões. Das 24 horas da vida de uma pessoa, ela consome, em média, oito com sono, oito no trabalho e sobram oito que são divididas: quatro em ocupação doméstica e quatro são ociosas. Somando, são quase 1.500 horas por ano de ociosidade. Como é preenchido? Com o entretenimento. Quem inventou o esquema para explorar o ativo deste mercado? Os americanos, claro. Montou uma indústria de música, editorial, de cinema etc, que não só preenche a necessidade do cidadão americano como ainda exporta para preencher a de pessoas de outros países. No Brasil, o Ministério da Cultura não tem essa preocupação, mas deveria. Não pode deixar 1.500 horas de um cidadão para consumo do que é importado. Daí, a perda da identidade. A pessoa pensa que está se globalizando, quando está se alienando de seu país.

Bye bye Brasil, literalmente?

Eu, se tivesse 30 anos, iria para o Canadá. Mas, na verdade, eu não me mudei no tempo da ditadura militar, acho que não seria agora. Não troco o Brasil por nada. Fiquei dois anos como correspondente da revista O Cruzeiro, na Europa, e não quis ficar lá, embora tenha recebido convites. Nunca quis morar fora do Brasil, sou um ser brasileiro, me orgulho muito disso.

Como ex-jogador futebol e apaixonado pelo esporte, o senhor está no clima da Copa?

Tenho três paixões na vida. A Lucy, o futebol e o cinema. Sobre a Copa, estou absolutamente frio com a Seleção Brasileira porque o futebol que eu admiro não é mais jogado, o futebol arte que tinha o Brasil como sede mundial. Nosso país, agora, adota o futebol força. Passamos a copiar sistemas táticos e de jogo de times europeus. Hoje temos o Neymar, o único que sabe brincar com a bola. Perdemos a nossa identidade do futebol. Já perdemos em várias outras coisas também.

O que explica o Brasil ter interrompido sua busca de identidade?

O segundo mandato da Dilma (Rousseff/PT) foi o começo do recuo. Ela queria agradar ao mercado e nomeou um “ultra pré neoliberal”, o Joaquim Levy, que nunca foi formulador de políticas. Era um ex-funcionário do FMI. E chegamos ao estágio que estamos, com o governo atual recuando décadas no tempo. Daqui a pouco, vamos voltar à Monarquia.

Quais as outras identidades que o Brasil perdeu?

Cultural. O povo brasileiro mantém porque ele é a própria identidade. Mas a elite vive com o olho fora do País, quer morar fora, venera os hábitos e costumes europeus e americanos. Perdemos identidade gastronômica também. Raramente come-se comida brasileira em restaurantes. Os cardápios são todos copiados da gastronomia italiana, francesa, japonesa, árabe… O povo ainda come, em casa, o feijão com arroz e carne assada; a elite prefere gastronomia importada.

Esse não seria um fenômeno global?

Globalização é a palavra que entrou na moda, mas só nos países do Terceiro Mundo. No chamado Primeiro Mundo, é o contrário: a onda é de nacionalismo. De novo, aqui, o povo continua nacionalista, acreditando no país. Essa herança colonialista é das elites, porque foram eles que se associaram aos colonizadores e foram se perpetuando no poder. Depois da democratização do País é que começamos a ir em busca de nossa própria identidade. No governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e no de Lula (PT) é que começamos a pensar em um projeto de País que valorizasse a produção cultural brasileira. O Donald Trump, na santa ignorância dele, fez uma única coisa certa, o slogan “América primeiro”, um retorno ao nacionalismo. Os Estados Unidos se tornaram a potência que são porque adotaram esse viés. Mas aqui no Brasil há um perigo, que é o movimento nacionalista radical de extrema direita do Jair Bolsonaro (PSL), um verdadeiro terror.

Como é chegar aos 90 anos?

O Jorge Amado (1912-2001) dizia que até os 80 você comemora, depois começa a contagem regressiva. Mas eu acho que a diferença está em você mesmo. Pode aos 50 estar com 100 ou estar com 100 e ter 18. No meu caso, sinto que estou integrado aos meus 90 anos, e procurando pensar como se eu tivesse 30. O que faz você continuar vivendo é o trabalho, a vida normal. A aposentadoria é uma primeira morte. A receita é se manter em atividade.


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