O desenvolvimento da cerâmica acompanha a história das civilizações, desde a descoberta do fogo. A argila queimada é utilizada em todas as sociedades há pelo menos 5 mil anos. No Brasil, além do farto artesanato que pode ser visto nos azulejos de diversas épocas, uma herança da colonização portuguesa, e nas cerâmicas típicas, há uma infinidade de atividades que deixaram de ser apenas diversão e tornaram-se sustento familiar. Das rendas nordestinas ao crochê, várias ocupações ganharam também relevância econômica.

O Brasil tem cerca de 8,5 milhões de artesãos. A produção desses profissionais movimenta R$ 100 bilhões por ano, de acordo com dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE). Só essa área representa 3% do Produto Interno Bruto (PIB).

“A evolução desse mercado está bem acelerada, principalmente no pós-pandemia. Os clientes estão cada vez mais exigindo algo exclusivo, valorizando muito o trabalho manual refinado”, explica Tatiana Mika, empresária e especialista em sofisticação e diferenciação de marcas.

Número de artesãos no Brasil 8,5 milhões

A porcelana de Vivian Vieira ganhou a preferência dos chefs e dos restaurantes cearenses (Crédito:Divulgação)

 

 

Crescimento do artesanato

Nos últimos anos houve um crescimento importante no interesse por atividades manuais nos grandes centros urbanos, muito ligados a movimentos de sustentabilidade e consumo consciente.

E é nesse contexto que se insere a nova geração de ceramistas, como a cearense Vivian Vieira que no ateliê Bone Ceramics — nome inspirado em uma porcelana feita a partir de ossos —, iniciou a produção de peças decorativas em Fortaleza.

Contudo, foi desenvolvendo o trabalho dos utilitários para restaurantes e chefs de cozinha que a ceramista consolidou o nome na capital cearense. “A exposição em redes sociais tem exigido um maior cuidado e diferenciação na apresentação dos pratos. Isso tem feito com que o mercado das louças personalizadas crescesse nos últimos anos no Brasil e no mundo”, declara a artesã, explicando que, apesar de ser um processo demorado — leva entre 15 e 40 dias dependendo do tamanho e dos detalhes de cada peça —, consegue produzir em média 7 mil peças por ano.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o artesanato está presente como atividade econômica em 78,6% dos municípios brasileiros.

Só na cidade de São Paulo existem cerca de 20 mil artesãos oficialmente cadastrados, sendo que 10 mil deles são microempreendedores individuais e 1,7 mil são permissionários de feiras das subprefeituras.

“O que podemos afirmar é que tem muito espaço para crescer. O Brasil é farto de material e diversidade de arte. Hoje, o artesanato é a fonte de renda de milhares de famílias, sobretudo de mulheres.”
Raissa Rossiter, diretora do Departamento de Artesanato e Microempreendedor Individual da Secretaria de Microempresa e Empresa de Pequeno Porte e do Empreendedorismo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.

O setor é uma importante fonte de geração de renda para diversos paulistanos, como a administradora de empresas Jaqueline Pavan. “Já trabalhei na minha área, mas quando meu pai ficou doente, deixei tudo para cuidar dele. Depois abri uma loja de roupas até chegar ao crochê”, relata.

A paixão por crochetar nasceu um pouco antes da pandemia, durante uma feira de artesanato. “Fui para ver o que tinha de novidade e me apaixonei pelo trabalho. Primeiro veio como hobby e depois que aprendi, o que demorou um pouco porque a técnica não é fácil. Passei a comercializar e hoje já tenho uma linha com diversos produtos que tem tido boa saída”, conta.

Movimentação financeira R$ 100 bilhões

Administradora de empresas Jaqueline Pavan encontrou no crochê sua fonte de renda e hoje já possuí uma linha de bolsas com sua própria marca (Crédito:Gabriel Reis)

Regulamentação

Em 2015, a profissão de artesão foi regulamentada pelo governo federal por meio da Lei 13.180, que inclui também formas de incentivo à prática dessas atividades.

Mauá, cidade do ABC paulista, já foi um importante polo de comercialização de porcelana. A argila da cidade era considerada excelente para a fabricação das peças.

Um dos comércios mais tradicionais do setor ainda tem importantes resquícios na cidade: a Porcelanas Kojima. Sua história começa com a vinda do senhor Yasuichi Kojima do Japão, em 1953, com 19 anos. Após receber o convite de um empresário que queria atuar no ramo da porcelana, ele foi trabalhar em São Caetano do Sul. Ao sair do trabalho e receber indenização, comprou uma grande área em Mauá onde instalou sua própria fábrica de porcelanas e trouxe a família.

Hoje, aos 89 anos, ele, sozinho, ainda possui a destreza e delicadeza para preparar algumas peças feitas sob encomenda. “Trouxe uma mala e apenas US$ 50, e com a vontade de fazer a minha própria fábrica. Realizei meu sonho. Nasci no barro e moro no barro”, orgulha-se Kojima.