O bloco do Conrado

Conrado levantou mais cedo no sábado. Porque é o sábado que antecede o Carnaval, é sagrado. É dia de bloquinho. Sua mulher, Erika, já sabe. Desde os tempos que se conheceram no colégio, já vão uns bons 25 anos, Conrado não perde o pré-carnaval nos bloquinhos, junto com a turma do Arquidiocesano. Erika não gosta de bloquinho.

– Prefiro baile mais chic, tipo Sírio.

Então, apesar dela conhecer a turma toda, nem participa quando Conrado e os amigos começam a discutir pelo Whatsapp, em qual bloquinho vão sair. Todos cinquentões, precisam escolher direito, porque ninguém mais tem energia para sair em vários blocos.

– É no máximo um bloco no sábado, outro no domingo e pronto.

– Que nem ano passado que a gente saiu no Cordão do MoroMourão, lembram?

– Nossa… nem me fale. Os cantores saíram no tapa e a gente perdeu o dia.

A discussão esquenta uma semana antes:

WhatsApp, grupo: Arquibeleza 2020

Alemão: Esse ano tem o Acadêmicos Poderosos, vocês viram? É o bloco do STF. Diz que o Gilmar Mendes vai liberar geral!

Raphaelle: Olhaí. Pitoresco. Pode ser divertido. Precisa de abadá?

Alemão: É super seleto. Não tem abadá. Tem toga, que a gente precisa comprar no site do Lewandowski.

Brancante: Acho frescura. Prefiro povão. Muvuca. Voto pelo Trio Elétrico Elétrico Trio.

Lima: Que Trio Elétrico é esse??

Brancante: Não tá sabendo? É o bloquinho dos filhos do Bolsonaro. Vai bombar esse ano. O Flávio, o Eduardo e o Carlos vão se revezar no microfone. A playlist ainda não saiu, mas é o Olavo de Carvalho que está montando.

Pimenta: Se é para sair no dos filhos, prefiro o do pai. O Unidos do Bolso.

Wellington: Opa… esse não ouvi. Como vai ser?

Pimenta: Sai da frente do quartel do segundo exército, só tocam marchinhas. Militares.

Passaram o mês inteiro discutindo, até decidirem em qual bloquinho iriam sair. Erika, do Conrado, não liga para a mania do marido, nem tem ciúmes, sabe que o negócio do grupo não é pegação, nem bebedeira.

– Eles gostam mesmo é de pular carnaval. Carnaval raiz, sabe?

Levam confete, serpentina e ainda têm até aquelas bisnaguinhas de água, lembra? Do tempo do colégio. Uns queridos. A única coisa que eles não curtem é fantasia.

– Fantasia é coisa de veado — diz o Brancante, politicamente incorreto, que hoje é Engenheiro Civil, mas na época do Arquidiocesano dava porrada até em professor.

Só que, neste ano, alguma coisa mudou. No sábado, quando Erika levantou para tomar o café da manhã e se despedir do Conrado, encontrou o marido tomando Ovomaltine vestido de empregada doméstica. Uniforme preto, que dava para ver que tinha sido comprado nas vésperas.

– Que é isso, Conrado?! Endoidou?!

Conrado levantou de supetão, assustado, revelando a minissaia do uniforme sobre as pernas peludas. E um aventalzinho branco rendado, aquelas tiarinhas no cabelo, um espanador para completar.

– Tá maluco, Conrado? Onde é que você vai vestido desse jeito?

– Ô amor… é o bloquinho, ué? Esqueceu? — Conrado tentou fingir normalidade.

– Que bloquinho ridículo é esse, homem?! Vocês perderam o senso?

Conrado pensou em explicar para a mulher que tinham escolhido o bloco Amigos do Guedes, um novo, queria cair na folia, mas também esculhambar a arrogância do ministro. Nesse, só entra empregada doméstica que não foi pra Disney, mas desistiu, a mulher não entenderia. Prefere o Sírio.

 


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