O bê-á-bá do descaso no ensino

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A doutrinação ideológica, partidária, religiosa, de qualquer natureza, ganhou destaque e método, abusivo, na educação brasileira. A despeito de ser a área mais crucial em nações que se pretendem civilizadas e desenvolvidas, por aqui a política educacional virou nos últimos tempos laboratório de experiências exóticas e atentatórias do bom ensino. Para dizer o mínimo. Em pouco mais de um ano e meio de gestão, o mandatário colocou ali três ministros — indo para o quarto — que mal sabiam o que é estruturar um plano pedagógico digno do nome. O primeiro nem falava português direito. O segundo patinava na gramática e agredia a língua de Camões com erros crassos de grafia e concordância, além de se dedicar a pedidos antidemocráticos de prisão para ministros do Supremo. O último, Decottelli, que foi sem ter sido, mostrou-se um falsificador contumaz de currículos e seguiu na saga, mesmo após “ser saído” do posto. E o País rumou adiante nos testes, experimentos e contrapesos de aliados que pouco, ou nada, estavam preocupados com a atividade em si. Desde sempre, atentaram apenas e tão somente para a defesa histriônica de interesses de seus guetos. Na semana passada surgiu um nome de mercado, Renato Feder, que logo foi bombardeado por alas governistas, enxergando nele alguém de fora do núcleo de pensamento “adequado” aos padrões de ativismo conservador que procuram implantar, na marra, nas escolas. Tais interlocutores — “olavistas”, militares, crentes —, vozes da consciência de um mandatário que também não demonstra qualquer vontade de resolver as carências do setor, empurraram Feder para uma recusa antecipada, sob pena de fritura implacável em praça pública. De lá para cá, seguiu-se o festival de sondagens, dando bem a dimensão do desprezo criminoso que a área recebe de Messias Bolsonaro. Três evangélicos — e a grande atribuição destacada de cada um deles era essa mesma — foram cogitados para agradar o bloco de apoio mais consolidado do governo hoje. De regra três, como uma espécie de “reserva” (termo dado pelo presidente em pessoa), apareceu até o major e deputado Vitor Hugo, que nunca atuou na Educação e não demonstra a mais tenra noção da complexidade que envolve temas da agenda como o destino do Fundeb, a operação do Enem, as grades curriculares e a logística de distribuição de cartilhas, livros e material escolar do sistema público — para citar, digamos, pautas elementares que caberiam a quem dá expediente no comando da pasta. Não interessa o nome do titular que daqui para frente sentará naquela cadeira do ministério.

De uma maneira ou de outra, nem alimente expectativas. A catequização pedagógica está precificada. A ignorância administrativa, idem. A má influência de ideias retrógradas no campo do ensino também. O ministério virou um gerador de crises em cascata. O compromisso com disciplinas, base didática, preparação de docentes e quetais foi para o buraco. Uma geração inteira de alunos pode estar com o futuro comprometido pela displicência e descaso de líderes políticos quanto à educação brasileira. É lastimável! O redesenho do sistema, os fundamentos da aprendizagem de qualidade precisam virar alvos urgentes de atenção, antes que tudo seja perdido. Mas é difícil acalentar esperanças quando o próprio planejamento da volta às aulas presenciais, em meio à pandemia, é feito de maneira atabalhoada e sem controle. Uma carta manifesto de milhares de professores, representantes de 150 cidades das cinco regiões do País, reclamou, veementemente, daquilo que classificam como “total irresponsabilidade”: a reabertura de escolas, universidades e educandários, públicos e particulares, sem as condições básicas de segurança operacional frente à ameaça da Covid-19. Uma temeridade que pode converter em mais vítimas agentes de ensino e alunos ali expostos ao risco do convívio em salas de aula por horas seguidas. Governantes não parecem preocupados. No bê-á-bá da imprudência e desdém com a educação, até os gastos federais com a rubrica vêm sendo profundamente afetados, via enxugamentos sistemáticos de recursos em prol de outras prioridades de Estado. Como, por exemplo, a de dobrar a verba de publicidade oficial para a autopropaganda politiqueira do Planalto. Essa é a lição que a era bolsonarista no poder quer deixar de legado. Que ninguém jamais esqueça de tamanha falta de consideração com nossos estudantes — jovens, crianças, filhos, aprendizes em geral —, que perderam o tempo letivo em meio aos disparates do capitão.

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