O avesso do avesso

Crédito: Divulgação

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Antes confiar era coisa de pele. Quando a gente encontrava alguém, aquele primeiro olhar era determinante para o futuro da relação. Se não tivesse boa energia nada ia acontecer, mas se desse certo, tudo podia rolar. Negócio ou casamento. Mas, e agora? Como vai ser?

Irritação, calafrios e medo são coisas que a gente sente quando está fisicamente perto de alguém. À distância, podemos até sentir desconforto, mas aquele efeito pânico-terror-medo-esgar-Jack-Nicholson-shining não é muito provável que aconteça em vídeo conferências. Mas por outro lado, o cheirinho bom, a graça no olhar, a sedução dos gestos e o calor da voz, também não abundam em webinars.

Se as sensações físicas, que tanto contribuem para a criação dessas perceções estão a diminuir drasticamente entre os seres humanos, será que alguma coisa nova as vem substituir? Ou vamos parar de confiar uns nos outros?

No imediato, aquelas pessoas que sempre fizeram das relações humanas (e do networking) a sua profissão, levam vantagem. Como conhecem muitas pessoas em muitos lugares vão ser chamadas a validar perante terceiros a segurança necessária para começar novas relações. São uma espécie de avalistas para a confiança.

Mas isto, que para nós é novo, para os mais jovens — abaixo dos 25 anos — já é o normal. Para eles já não há diferença nenhuma entre jogar à bola online, ou jogar à bola no pátio da escola. Eles gostam e confiam uns nos outros por causa do que partilham e não por causa do sítio onde estão.


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A confiança entre os jovens é maior do que serem apenas colegas de jogo, eles partilham pontos de vista comuns sobre muitas coisas da “vida real”, que aumentam essa confiança. A razão da sua amizade é simultaneamente a nossa esperança. No mundo deles não há países, há apenas cumplicidade.

No futuro próximo, as relações de confiança vão criar-se sem proximidade física. A importância da linguagem corporal vai ser substituída pela criação e desenvolvimento de técnicas de relacionamento por áudio e vídeo. Estão vão substituir aquele aperto de mão que durante muitos séculos selava amizades.

No final tudo vai mudar para que a confiança seja a mesma. Se a gente pensar bem, a confiança no pós-Covid vai acontecer como aquela fala do Caetano sobre quem muda de vida chegando em São Paulo. Quem vem de outro sonho feliz, aprende depressa a chamar-te de realidade, porque é o avesso do avesso do avesso do avesso.

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Sobre o autor

José Manuel Diogo é autor, colunista, empreendedor e key note speaker; especialista internacional em media intelligence,  gestão de informações, comunicação estratégica e lobby. Diretor do Global Media Group e membro do Observatório Político Português e da Câmara de Comércio e Indústria Luso Brasileira. Colunista regular na imprensa portuguesa há mais de 15 anos, mantém coluna no Jornal de Notícias e no Diário de Coimbra. É ainda autor do blog espumadosdias.com. Pai de dois filhos, vive sempre com um pé em cada lado do oceano Atlântico, entre São Paulo e Lisboa, Luanda, Londres e Amsterdã.


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