Comportamento

O arquiteto das cores

Exposição homenageia o autodidata João Artacho Jurado, adversário estético dos modernistas e que deixou para a São Paulo de hoje a herança do delicado tempo dos anos dourados

Crédito: Divulgação/escola da cidade

VISIONÁRIO Artacho Jurado: empreendedor que traduzia as necessidades da burguesia (Crédito: Divulgação/escola da cidade)

IDENTIDADE Prédios com múltiplas referências: avesso da arquitetura contemporânea (Crédito: Tuca Vieira)

Não há quem ande pelas ruas de São Paulo, a maior e mais populosa capital do País, e não segure um pouco o passo para admirar o legado do arquiteto João Artacho Jurado (1907-1983) na paisagem urbana. Ainda que se tente caminhar sem muita atenção pela cidade, as cores e o avesso de uma arquitetura contemporânea puxam naturalmente o olhar. A genialidade e originalidade de Artacho não foi sempre assim. Ele, que se tornou um dos arquitetos mais conceituados do Brasil, está sendo homenageado com uma belíssima exposição na Galeria da Cidade. E virá mais uma em outubro, na Chácara Lane. Mas nem sempre tudo foram glórias na carreira de Artacho. Ele foi execrado pelos modernistas, o que naquela época, significava, trazendo para os dias atuais, a mesma febre do cancelamento e da lacração. O principal problema era o seguinte: os arquitetos modernistas privilegiavam estruturas que, apesar de erguidas com a utilização de concreto, passavam uma sensação de leveza. Artacho seguia na via oposta: a sua marca era paradoxalmente a indefinição de uma marca. Ou seja: valia-se ele de uma pluralidade de cores, em suas pranchetas os projetos se tornavam ricos em detalhes e as cores se misturavam como um pintor mescla todos os tons em uma paleta para chegar a novas colorações — tinha uma predileção pelo rosa (ainda há maravilhosos e tradicionais prédios em São Paulo com essa cor) e, em muitas situações, o combinava com o azul e amarelo. “As construções de Artacho deram origem a um novo modo de morar”, diz o artista plástico e arquiteto Paulo Fernando von Poser.

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Outro ponto que o deixava à margem do establishment modernista e da elite arquitetônica era a sua falta de diploma — sim, é isso mesmo, um dos maiores arquitetos do Brasil foi autodidata. “Ele não seguia a ortodoxia moderna que se praticava em São Paulo”, diz Abilio Guerra, professor da FAU Mackenzie e diretor da Editora Romano Guerra, especializada em arquitetura. Nada como o tempo, no entanto, para conceder mérito a quem dele faz jus. Ao longo das décadas, suas obras transformaram-se em símbolos da boa arquitetura urbana. Dentre elas notabilizam-se verdadeiros cartões postais de São Paulo: os edifícios Bretagne, Viadutos, Saint Honore, Parque das Hortências, Louvre e Cinderela. São um respiro em meio ao cinza.

PIONEIRISMO Parque das Hortênsias: valorização das áreas em comum dentro dos condomínios (Crédito: Tuca Vieira)

Nos anos de 1950 o mundo já vivia as primeiras consequências da chamada Guerra fria, a dividir o planeta entre os blocos capitalista e comunista, e a hegemonia dos EUA aos poucos florescia. O Brasil atravessava seus boêmios e descontraídos e delicados e amorosos anos dourados, com João Gilberto na bossa nova, Juscelino Kubistchek na política, as moças a namorarem à noite em boates ou carros conversíveis ao som de Frank Sinatra. Entrava em cena o American Way of Life e Hollywood ditava o estilo de vida para o planeta. O charme das frasqueiras era um acessório indispensável para as moças e seus cabelos em formato de colméia se sustentavam sobre armações de Bombril. Artacho entendeu o recado e fez de suas obras um grande desejo da burguesia, levando aos seus condomínios um pouco do que se via dentro dos palacetes da Velha República dos barões do café, que foram colocados abaixo com o avanço da urbanização. “São formidáveis na relação das pessoas com as cidades”, diz Guerra. O arquiteto, agora homenageado, foi também um dos pioneiros no que hoje conhecemos como área de lazer em condomínios. O Edifício Bretagne, inaugurado em 1959, por exemplo, fez-se o primeiro em São Paulo a ter uma piscina. E os andares térreos começaram a ser ocupados não por apartamentos, mas, sim, por espaços de convivência. O topo das construções era, muitas vezes, destinado a enormes salões de festa, com formas arredondadas e cores. Sempre muitas cores! As formas, as cores e a excentricidade transformaram a cidade, e se sobressaem diante de outros prédios menos chamativos.

EDIFÍCIO VIADUTOS No topo do prédio há um enorme salão de festas: inspiração no American Way of Life (Crédito:Divulgação)

Não tem como negar que o sucesso dos empreendimentos foi atingido por um intenso trabalho de marketing. Para compensar os custos do condomínio e não afastar os compradores, ele instalava painéis luminosos ao alto dos edifícios e os alugava para a publicidade – chamados, naqueles tempos, de “reclames”, que, nos versos do então em voga Orestes Barbosa, “eram os impulsos nervosos, dos anúncios luminosos, que são a vida a mentir”. As pessoas começaram a comprar rapidamente os apartamentos. Após a inauguração, as unidades esgotavam-se em semanas. Era uma jogada empresarial, claro, mas que estava à frente do tempo e vestia feito luva nas necessidades da época. Para que se tenha noção do dimensão de suas construções, o edifício Viadutos, localizado no bairro da Bela Vista, em São Paulo, possui doze elevadores.

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Somente pela paixão dos moradores dos prédios, Artacho conquistou o respeito da academia — ele gostava de despertar a ira em seus colegas ao deixar gravado nas placas de seus empreendimentos, em letras garrafais, o seu nome ao lado do engenheiro responsável pela obra. O Conselho Regional de Engenharia e Agronomia, o CREA, havia lhe imposto: sua assinatura não podia chamar mais atenção que a do engenheiro responsável. Recomendação nunca seguida pelo arquiteto autodidata. Até hoje, quem vive em tais obras artísticas, não a troca por nada — afinal, fachada colorida tende a colorir também o no nosso interior.