Comportamento

O Apartheid da vacina

Com diferentes ritmos de vacinação e produtos próprios, países ricos e pobres se distanciam na imunização e criam um novo fosso de desigualdade sanitária que vai restringir a circulação de milhões de pessoas pelo planeta. Os passaportes Covid se transformarão em documentos básicos para viagens internacionais

Crédito: Divulgação

O Apartheid da vacina (Crédito: Divulgação)

Uma nova forma de desigualdade está se desenvolvendo e ganhando força globalmente: a vacinal. De uma hora para outra, a vacina contra a Covid-19 virou um instrumento de poder e de acirramento das diferenças sociais entre os povos. Nesse momento crítico, o que se vê é um desequilíbrio escandaloso na abrangência e na velocidade da imunização entre países ricos e pobres, com amplas vantagens para os primeiros, e o estabelecimento de novas barreiras sanitárias e limites para a movimentação de pessoas pelo globo. Diversos países e blocos econômicos tratam, por exemplo, de instituir passaportes da vacina para controlar o fluxo de imunizados em suas fronteiras e evitar a circulação de contaminados. Para o Brasil, o cenário é o pior possível e sua condição de pária internacional pode se fortalecer ainda mais, dada a lentidão da campanha local de vacinação. Enquanto nos Estados Unidos, por exemplo, mais de 50% dos adultos foram imunizados, por aqui esse percentual é de 19%. Na Europa, o índice médio já supera os 40% e as pessoas estão sendo liberadas de usar máscaras e podem sair do isolamento. Também surge uma diferença entre vacinas para países ricos e pobres. As vacinas chinesas Sinopharm e Sinovac e a russa Sputnik V não têm autorização para distribuição na Europa e nos Estados Unidos e estão restritas aos seus locais de origem e aos mercados emergentes.

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POBREZA No Brasil, a vacinação avança devagar e menos de 20% da população tomou a primeira dose do imunizante: cidadãos de segunda classe (Crédito:Lucas Lacaz Ruiz)

Na semana passada, o diretor-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), Tedros Ghebreyesus, chamou a atenção para o aumento da desigualdade vacinal e para os problemas sociais decorrentes do fenômeno. Ele disse que países de alta renda, que respondem por 15% da população mundial, contam com 45% das vacinas produzidas, enquanto países de renda média e pobres concentram quase a metade dos habitantes do planeta, mas recebem apenas 17% dos imunizantes. “Acho que irei um passo adiante e direi que o mundo não está sob o risco de um apartheid de vacinas, ele já está em um apartheid de vacinas”, afirmou Tedros. Até a segunda-feira, 17, mais de 80% das 1,2 bilhão de doses disponibilizadas em todo o mundo tinham sido aplicadas em cidadãos de países de renda alta e de renda média para alta, o que inclui Brasil e México. Na África, por sua vez, foram disponibilizados até agora 20 milhões de vacinas, o que atende apenas 2% da população. Um dos efeitos perversos dessa situação desigual é que moradores ricos de países pobres começaram a praticar uma espécie de turismo vacinal para receber o imunizante no exterior.

O aumento do controle sanitário das fronteiras será inevitável e como se espera que as vacinações contra a Covid-19 acontecerão anualmente, isso deve se prolongar por muito tempo. A União Europeia, por exemplo, defende que apenas pessoas imunizadas com vacinas aprovadas para uso no bloco tenham acesso ao passe livre do Certificado Digital Verde, que a entidade evita chamar de passaporte da vacina. Se for assim, pessoas vacinadas com a Coronavac, da Sinovac, ou com a Sputnik V estarão impedidas de entrar na Europa e também nos EUA. Para circular pelo mundo será necessário agora um comprovante de vacinação e, em alguns casos, nem isso se mostrará suficiente, se o produto não for aprovado pela agência reguladora local. Enquanto marcas do Ocidente como Pfizer, Moderna, Janssen e AstraZeneca abrirão portas em qualquer lugar do mundo, outros produtos poderão ser tratados com preconceito e usados como pretexto sanitário para barrar a entrada de certas pessoas que possam representar alguma ameaça ou que simplesmente venham de países pobres. Especificamente no caso da Coronavac, na situação atual seu uso pode representar alguma dificuldade para a entrada de brasileiros em países que exijam o passaporte Covid.

RIQUEZA Nos Estados Unidos mais de metade da população adulta já foi vacinada e o excedente de imunizantes está sendo doado para países pobres (Crédito:Jose Luis Gonzalez)

Além do problema global, há também a desigualdade local. No Brasil, onde as vacinas são escassas e a vacinação está atrasada, os ricos levam vantagem sobre os pobres. Até o início de abril, o Brasil tinha aplicado pelo menos uma dose de vacina em 8,4% da população, o que deixava o Pais em 68º lugar num ranking com 166 nações e territórios. Um levantamento feito pelo Instituto Pindograma, com base nos microdados do Open Data SUS, mostrou que na cidade de São Paulo os bairros mais vacinados têm renda média oito vezes maior e vacinam quatro vezes mais do que os bairros menos vacinados. Já no Rio de Janeiro, um habitante do Baixo Leblon tem três vezes mais chances de ter recebido a primeira dose da vacina contra a Covid- 19 do que um vizinho da favela do Vidigal. Como se vê, a lógica da vacinação reproduz o funcionamento desigual da sociedade e também cria uma multidão de excluídos. Para diminuir o problema a única saída é acelerar a imunização.