Cultura

O apanhador no campo digital

A editora Todavia relança em formato e-book as obras do autor de “O Apanhador no Campo de Centeio”. A sua releitura explica por que J. D. Salinger é um dos grandes escritores do século 20

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GêNIO recluso J.D. Salinger: livros publicados nos anos 1950 sobreviveram ao teste do tempo (Crédito: Divulgação)

Se você quer mesmo ouvir a história toda, a primeira coisa que deve querer saber é onde ele nasceu. J. D. Salinger nasceu em Nova York, em 1 de janeiro de 1919, e morreu 91 anos depois, em 27 de janeiro de 2010, muito longe dali. Mais precisamente em Cornish, cidadezinha com menos de mil habitantes, escondida nas montanhas de New Hampshire, nos EUA. Há muitas lacunas sobre o que aconteceu em sua vida entre Nova York e Cornish, mas alguns fatos são bem conhecidos: Jerome David Salinger nasceu em um lar privilegiado, lutou na Segunda Guerra Mundial e escreveu quatro excelentes livros. Para quem está interessado em literatura, isso é mais do que suficiente.

Há diversas características que separaram as obras-primas dos livros comuns, mas talvez a principal delas seja a atemporalidade. O drama do monarca embriagado pelo poder imortalizado por Shakespeare ou a história do cavaleiro que luta contra inimigos imaginários de Cervantes poderiam ser publicadas hoje, embora tenham sido escritas há quatro séculos. Há clássicos, entretanto, que não precisam de tanto tempo para ingressar definitivamente no cânone literário e cultural. É nessa lista que entram os tais quatro livros de J. D. Salinger.

Finalmente, sua obra ganha versões em formato digital, dessa vez em novas edições da Todavia com tradução de Caetano W. Galindo. O livro mais famoso, o “Apanhador no Campo de Centeio”, foi lançado em 1951 e se tornou imediatamente um ícone cultural em todo o mundo. Seu protagonista, Holden Caulfield, nasceu como arquétipo da rebeldia e angústia que dominaram a juventude nos EUA pós-Segunda Guerra, mas, pouco a pouco, acabou se tornado alter-ego do próprio autor. O carisma anárquico e bem-humorado o tornou um personagem capaz de influenciar outros jovens – nem sempre para o bem. Em 1980, o assassino de John Lennon, Mark Chapman, afirmou ter se inspirado no livro de Salinger para cometer o crime.

Desconfortável com o sucesso popular do livro, Salinger se auto-impôs uma reclusão. Isolado em seu bunker, passou a escrever compulsivamente, mas concordou em publicar apenas o livro de contos “Nove Histórias” (1953) e “Franny & Zooey” (1961), ambos inicialmente como textos da lendária revista “New Yorker”, que ele tanto admirava. A nova edição de seu último livro, “Erguei bem alto a viga, carpinteiros & Seymour: uma introdução”, será lançado em 2021.
Tanto em “Apanhador” quanto nos livros seguintes, o fantasma da guerra está presente – de maneira clara ou por meio de metáforas. Salinger atuou de forma ativa na Segunda Guerra, tendo inclusive participado de seu episódio mais emblemático, o desembarque das tropas aliadas na Normandia no chamado Dia D, em 6 de junho de 1944. Trazia um rifle na mão e, no bolso, seis capítulos de “Apanhador” – escreveria o resto a mão, em um caderno, entre tiroteios e ataques contra os nazistas.

Outro fantasma que ronda a obra de Salinger é a histórica preocupação da família com seu espólio. Toda publicação é cercada por regras rígidas que não podem ser desrespeitadas. Novas edições e relançamentos, inclusive, foram proibidas durante anos. É por isso que o lançamento da obra de Salinger em formato digital chama a atenção. Havia o risco de que as dificuldades impostas poderiam ter limitado os livros à realidade do século 20, mas sua releitura prova o contrário. As novas versões trazem um texto fresco e afiado, além de um ritmo perfeitamente adaptado à linguagem de hoje. Segundo Caetano Galindo, as novas versões são relevantes para que os livros “falem com o leitor aqui, no Brasil do século 21”. O tradutor discorda da ideia de que o mito do homem recluso criado por Salinger teria sido uma estratégia de marketing. “A ideia de que havia um ‘personagem Salinger’ contribuiu para a imagem que temos hoje, mas o futuro da obra não teria sido diferente porque ela se sustenta na qualidade dos textos”, afirma. O material que Salinger escreveu durante os mais de 50 anos de reclusão podem ser publicados em breve. Quando o autor morreu, há dez anos, seu filho Matt e a viúva, Colleen O’Neill, anunciaram que o material seria publicado entre 2015 e 2020. Em 2019 declararam apenas que ele será “publicado quando estiver pronto”. Seus leitores esperam que esse “pronto” não tenha de esperar mais 50 anos.