Perspectiva 2019

O ano da verdade para Trump

As investigações sobre o possível conluio entre a Rússia e a equipe do atual presidente dos EUA, durante a campanha eleitoral americana de 2016, estão prestes a se encerrar. A possibilidade de ele perder o cargo, porém, é remota

CAMARADAS: Vladimir Putin, o presidente russo, com Donald Trump: ajuda indevida? (Crédito:Jorge Silva/Reuters)

A votação que deu a Donald Trump o cargo de presidente dos Estados Unidos ocorreu há mais de dois anos, mas os americanos continuam em campanha. As circunstâncias da vitória de Trump são questionadas por aqueles que não se conformam em ter o bilionário fanfarrão como chefe de seu país e que ainda sonham que algum milagre leve a um desfecho diferente e reescreva a história. A solução deus ex machina que alimenta as esperanças dos cidadãos inconformados tem nome: “Relatório de Mueller.” Robert Mueller é o procurador especial nomeado pelo Departamento de Justiça para investigar as suspeitas de que a equipe de campanha de Trump atuou em conjunto com representantes do governo russo para favorecer o candidato republicano nas eleições. As investigações começaram em maio de 2017 e há bons indícios de que estão prestes a serem encerradas. Alguns congressistas democratas esperam ansiosamente pelo relatório com as conclusões finais de Mueller. Se ele apresentar provas de que Trump sabia dos contatos em quarto e quinto graus de seus assessores com os russos, será possível, ao menos em tese, abrir um processo de impeachment contra o presidente. A chance de isso acontecer? Baixíssima.

Relatório confidencial

Há três razões para acreditar que o Russiagate, como é chamado o caso de conluio com os russos, não vai resultar na queda do presidente americano. A primeira é que não há garantia de que Mueller vá elaborar um relatório final sobre as investigações. Ele já vem divulgando suas conclusões aos poucos, nos indiciamentos dos principais personagens do Russiagate, muitos dos quais figuras próximas de Trump. Se Mueller não tiver nada consistente que incrimine o presidente em si, porém, é possível que não veja a necessidade de fazer um relatório final. A segunda razão é que o relatório, pelas regras do Departamento de Justiça, teria de ser confidencial. Mesmo os congressistas só receberão uma versão simplificada. Sim, eles poderiam abrir um processo de impeachment assim mesmo, mas, como os detalhes não chegariam ao conhecimento do público, a pressão popular seria menor. A terceira razão é que, mesmo que o afastamento do presidente seja aprovado na Câmara dos Representantes, que na legislatura a se iniciar em janeiro de 2019 será dominada pela oposição democrata, terá que ser aceito também no Senado, cuja maioria ainda será republicana. Politicamente, portanto, Trump parece blindado.

Em 20 meses de trabalho, Mueller indiciou ou obteve confissões de 33 pessoas e três empresas em diversos tipos de crimes, desde mentir sob juramento até ilicitudes financeiras. Já ficou claro, pelos indiciamentos, que sua conclusão é de que houve, sim, interferência russa na eleição de Trump, em 2016. A tese de conluio, porém, ainda falta ser comprovada.

NA COLA DE TRUMP: Robert Mueller, o procurador especial do Russiagate (Crédito:Alex Wong/Getty Images)

Vínculos suspeitos

Os vínculos com os russos foram identificados em diversas frentes. O grupo empresarial de Trump, por exemplo, desenvolveu um projeto de construção de um edifício em Moscou ao mesmo tempo em que o bilionário disputava a nomeação republicana para as eleições presidenciais. O presidente vive negando que tivesse interesses comerciais na Rússia. Seu filho Donald Trump Jr. chegou a afirmar, em depoimento ao Congresso, que o projeto havia sido suspenso em junho de 2016. Mueller obteve emails de Michael Cohen, advogado de Trump, provando que isso não era verdade.

Houve também a tentativa do ex-assessor de segurança nacional de Trump, Michael Flynn, de criar um canal de comunicação com o embaixador russo em Washington. Em depoimento ao FBI, a polícia federal americana, Flynn mentiu ao dizer que não havia discutido assuntos de governo com o diplomata russo. As investigações também comprovaram que o genro de Trump, Jared Kushner, e seu ex-chefe de campanha, Paul Manafort, encontraram-se com um advogado russo que prometia informações comprometedoras sobre a candidata democrata, Hillary Clinton. Por fim, há o vínculo entre George Papadopoulos, conselheiro de relações exteriores da campanha Trump, com um suposto agente do governo russo que também ofereceu um dossiê com podres sobre Hillary. Michael Cohen foi condenado a três anos de prisão por crimes financeiros e aguarda a sentença por outras acusações. Papadopoulos foi condenado por mentir para o FBI e está em liberdade condicional. Manafort foi sentenciado por crimes financeiros e aguarda um segundo julgamento. Flynn está sendo julgado por mentir para o FBI.

Falta Trump, diriam os derrotados nas eleições de 2016. Em 2019, finalmente se saberá se os constrangedores vínculos da trupe de Trump com os russos serão suficientes para retirá-lo do cargo. Ou se a investigação que se estendeu por quase metade do seu mandato não passou de uma “caça às bruxas”, como o próprio presidente não cansou de repetir em seu perfil no Twitter.

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