O amor nas manifestações

Claudio e Leonor se conheceram quase sem querer.

Durante as manifestações de 2013 ele a ajudou a subir no teto do Congresso Nacional e se juntar à multidão que lá estava, na cena que resultou em uma icônica foto: o povo tomando para si a sede do Legislativo.

Desde os caras-pintadas não víamos um movimento popular tão importante como aquele.

Naquela mesma noite, já tarde e sem a mídia, sem os fogos e sem o calor do momento, Claudio e Leonor desceram e largaram seus corpos sobre a grama do jardim diante da Câmara dos Deputados.

Choraram de emoção e, sem que precisassem dizer uma única palavra, se beijaram.

Mal chegaram a São Paulo, dois dias depois, casaram.

Coisa de impulso, é certo, mas o amor é assim.

E não tinha amor mais profundo do que aquele forjado em meio a uma revolução popular.

(Os que disserem que as manifestações de 2013 estão longe de ser uma “revolução popular” não entendem nada de amor.)
O tempo passou e a verdade é que o casamento dos dois, assim de supetão, caminhava melhor do que muitos que resultaram de anos de namoro.

Claudio e Leonor eram parecidos e, ao contrário do que se pode imaginar, quase nunca falavam em política.

Mesmo tendo se conhecido nas manifestações de Brasília não eram fanáticos por partido nenhum e, para eles, o melhor de tudo foi se conhecerem.

Então tudo que passou nos anos seguintes, o impeachment de Dilma, o governo Temer e a eleição de Bolsonaro, não interferiu em nada no casamento dos dois.

Não discutiram nem mesmo quando Claudio assumiu que votou em Bolsonaro, na mesa do boteco com a turma (que agora misturava amigos dos dois).

Leonor já desconfiava.

Tinha votado em Haddad, mas não perderia tempo discutindo com o marido essa bobagem.

Com o tempo, no entanto, Claudio foi se transformando.

Vira e mexe passou a mandar, no WhatsApp do grupo, uma suposta gracinha qualquer com um fundo homofóbico, anticomunista ou machista.

No início ninguém falou nada.

Mas um dia, Julio — um dos mais politizados — decidiu dar um basta e pronto.

O grupo que antes era calmo e amistoso, virou uma praça de guerra.

Leonor, que não ia se prestar a brigar com seus amigos, muito menos com seu marido, por causa de piadinhas sem graça, deixou o grupo.

Mas foi ali que o casamento começou a sofrer.

Quem olhasse de fora e conhecesse as coisas do amor, saberia que o casal Claudio e Leonor passavam por uma decisiva provação, que atingiria seu ápice em setembro de 2021.

Porque, afinal, os dois podiam até não ligar para política, mas manifestações populares, ah, isso eles adoravam.

Assim, dia 7, Leonor — mesmo longe de apoiar o presidente — acompanhou Claudio até a Paulista.

Em silêncio, ficou impressionada com a quantidade de gente que ainda apoiava o presidente.

No dia 12, Claudio retribuiu a gentileza da mulher e a acompanhou na manifestação do MBL.

Vendo que a manifestação era muito menor do que a anterior, Claudio não se conteve.

É melhor deixar o protesto político fora do casamento. Às vezes, ficar em silêncio é a solução

Começou a fazer piadas e a ridicularizar a mulher.

Rindo alto mesmo, descarado.

Foi duro, mas foi ali que Leonor percebeu que o casamento tinha chegado ao fim.

Deboche do marido ela não ia aceitar.

Numa distração de Claudio, que dava tirinhos para o alto com os dedos, Leonor escapou, foi para casa, fez as malas e voltou a morar com a mãe.

Claudio até hoje não entendeu direito o que aconteceu.

No dia 2 de novembro, sozinho em casa, assistiu as reportagens sobre mais uma manifestação, a do PT.

Outro fiasco, pensou, rindo para si mesmo.

Não notou mas, na reportagem, a mulher que beijava um sujeito enrolado numa bandeira do PT, era Leonor.


Sobre o autor

Mentor Muniz Neto, 51, é escritor. Mora em São Paulo com suas filhas Manuela, Olivia e Catarina e escreve crônicas do cotidiano que às vezes parecem realismo fantástico


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