Comportamento

O amante de Marcel Proust

Livro recém-lançado na França traz cartas inéditas que mostram como o escritor despachou ao Brasil um garçom suíço com quem manteve um relacionamento amoroso por três anos

Crédito: Divulgação

VIDA AGITADA A homossexualidade do autor era uma espécie de segredo aberto nos círculos parisienses nas primeiras décadas do século XX (Crédito: Divulgação)

Um dos escritores franceses mais famosos da história da literatura mundial segue rendendo assunto para o mercado editorial. Isso porque Marcel Proust, prestes a completar cem anos de sua morte, acaba de ter mais um livro com conteúdo inédito publicado na França. Lettres à Horace Finaly, organizado pelo editor Thierry Leget, apresenta 20 cartas do autor de Em busca do Tempo Perdido para o seu banqueiro e amigo Horace Finaly. Os assuntos aparentemente burocráticos do material são ricos e mostram a maneira inusitada com a qual Proust conseguiu se livrar de um de seus amantes, o suíço Henri Rochat, bon-vivant que acumulou diversas dívidas em seu nome e acabou sendo enviado para trabalhar no Brasil.

O casal teria se conhecido em 1917, quando Proust já era um escritor renomado e Rochat era um garçom no famoso hotel Ritz, em Paris. Em uma das cartas ao amigo banqueiro, Proust revela que convidou o garçom a ir morar com ele no ano seguinte, mas a ideia, segundo a correspondência, era de que o rapaz ficasse apenas algumas semanas em sua residência, ocupando a função de seu secretário pessoal. Porém, após três anos, o suíço seguia vivendo com Proust, que então acionou o amigo Horace para que o ajudasse a se livrar do problema, conseguindo então um emprego – uma espécie de estágio em finanças – no Brasil para o amado.

Pouca coisa se sabe sobre Rochat, já que não há registro de seu nascimento na Suíça e nem de sua morte, em Recife, cidade que adotou ao aceitar trabalhar em uma delegação do Sudameris, agência do banco BNP para a América Latina, na capital de Pernambuco. Em um dos trechos, Proust escreve: “Por estar entediado em casa, ele ‘fugiu’ duas ou três vezes e, infelizmente, não só perdeu peso, mas também todo o dinheiro que dei a ele”. Em entrevista à imprensa francesa, Thierry Laget, editor da obra, conta que era comum que Rochat fizesse dívidas em nome de Proust, como a confecção de roupas no alfaiate do escritor.

“Ele gastou muito mais do que Proust. Foi um dândi que só lhe deu alguma inspiração, alguns jogos de damas e noites ao piano”, explicou. As cartas, ao contrário do trabalho literário do autor, mostram um lado tragicômico pouco associado ao seu nome. A própria amizade com Horace Finaly, que foi seu amigo de escola, é inusitada, mostrando que além de gerente de banco, o intelectual resolvia diversas questões para Proust, sempre doente e acamado. Ao conseguir um emprego para Rochat, a um continente de distância, Finaly mostrou que era um amigo de verdade, apesar de nas cartas o tom entre os dois ser formal e com pouca intimidade.

Divulgação
DISCRIÇÃO Apesar de ter se relacionado com diversos homens,
Proust soube preservar sua vida privada (Crédito:Divulgação)

Círculos parisienses

Mesmo no Recife, Rochat seguiu vivendo uma vida luxuosa, fazendo novamente dívidas em nome do autor. Não se sabe exatamente qual foi o destino do suíço, mas acredita-se que ele possa ter vivido seus últimos dias nos arredores da Parnaíba, no Piauí, quando seus registros desaparecem a partir de 1923. Não foram encontradas lápides em seu nome em cemitérios da região e pode ser que ele tenha recomeçado a vida com uma nova identidade. “Sabemos que no Brasil ele mostrou fotos dele com Proust, então essas fotos podem aparecer um dia”, diz Laget. A homossexualidade do autor, uma espécie de segredo aberto nos círculos parisienses, começou a ganhar notoriedade apenas após a sua morte, em 1922, mas não chegou a trazer problemas ao escritor enquanto ele viveu, ao contrário do que aconteceu com Oscar Wilde, por exemplo.

O primeiro grande amor de Proust foi o compositor Reynaldo Hahn, que transformou em música alguns de seus poemas. E, apesar de terem ficado juntos apenas por alguns anos, os dois permaneceram em contato durante toda a vida. Inúmeras cartas assinadas por Proust testemunham seu relacionamento íntimo com Hahn. Em uma delas, datada de março de 1896, Proust escreveu ao amigo: “Quero que você esteja lá o tempo todo, mas como um deus disfarçado que nenhum mortal reconheceria”. Já havia alusões à homossexualidade de Proust nas primeiras cartas escritas a dois de seus colegas de juventude. Ao longo de Em Busca do Tempo Perdido, o romancista também se refere a questões de sexualidade sem nunca admitir se ele próprio era ou não homossexual. Isso só veio a público após a morte de Proust, quando foi publicada sua correspondência com o escritor André Gide.

Mais de 90 mil cartas

Além de escrever um dos maiores romances da era moderna, “Em busca do Tempo Perdido” publicado em sete volumes, Proust também foi um prolífico escritor de correspondências. Especialistas em sua obra estimam que ele tenha escrito 90 mil cartas e telegramas ao longo de sua vida, com apenas uma fração delas sendo conhecida do grande público. Esse material aborda diversos aspectos de sua vida pessoal, como as finanças, problemas de saúde e sexualidade. Em uma dessas cartas, enviada para o amigo banqueiro Finaly, ele escreve sobre o destino de Henri Rochat: “Quanto ao meu protegido, conto com sua absoluta discrição para não lhe dizer que sou eu que prefiro que ele faça seu estágio no local (lá para onde você acha que poderá enviá-lo)”