A Academia Brasileira de Cinema e Artes Audiovisuais (ABCAA) anunciou nesta quinta-feira (22) que ‘O Agente Secreto’, novo longa de Kleber Mendonça Filho, foi escolhido para representar o Brasil no Oscar 2026. A produção será inscrita nas categorias de Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator, com Wagner Moura, e Melhor Elenco. Com a seleção, o país chega à sua 55ª tentativa de conquistar uma indicação na principal categoria dedicada a filmes estrangeiros.
Historicamente, o caminho brasileiro na premiação tem sido marcado por poucos sucessos. Em mais de cinco décadas de tentativas, apenas cinco produções conseguiram entrar na disputa: ‘O Pagador de Promessas’ (1963), ‘O Quatrilho’ (1996), ‘O Que É Isso, Companheiro?’ (1998), ‘Central do Brasil’ (1999) e, mais recentemente, ‘Ainda Estou Aqui’ (2025).
Diferentemente de anos anteriores, porém, ‘O Agente Secreto’ surge como um candidato com fôlego internacional. O filme saiu consagrado do Festival de Cannes, onde venceu as categorias de Melhor Direção e Melhor Ator, além de ter faturado dois Globos de Ouro: Melhor Filme em Língua Não Inglesa e Melhor Ator em Filme de Drama. Com distribuição da Vitrine Filmes no Brasil e da NEON nos Estados Unidos, a produção já figura nas apostas de especialistas como uma das favoritas da temporada.
Ao longo da história, outras produções brasileiras também deixaram sua marca na corrida pelo Oscar, seja por polêmicas, seja por reconhecimento artístico.
A estreia do Brasil na premiação ocorreu com ‘A Morte Comanda o Cangaço’ (1960), inscrito em 1961. Dirigido por Carlos Coimbra e Walter Guimarães Motta, o filme acompanha a trajetória de Raimundo Vieira, um agricultor que decide buscar vingança após ter a fazenda incendiada e a mãe assassinada por um grupo de cangaceiros liderados por Silvério, a mando do coronel Nesinho.
O maior marco da cinematografia nacional veio com ‘O Pagador de Promessas’ (1962). Além de garantir uma indicação ao Oscar de 1963, o longa entrou para a história como o único filme brasileiro vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes. A obra narra o drama de Zé do Burro, que promete carregar uma cruz até uma igreja após seu animal de estimação sobreviver a um acidente, mas acaba enfrentando uma sequência de conflitos. No Oscar, o prêmio ficou com o francês ‘Les dimanches de Ville d’Avray’.
Selecionado em 1980, ‘Pixote, a Lei do Mais Fraco’, de Hector Babenco, acabou desclassificado por não cumprir o prazo de exibição exigido pela Academia. Ainda assim, ganhou projeção internacional, com indicação ao Globo de Ouro e prêmio de Melhor Atriz para Marília Pera, concedido pela National Society of Film Critics. A trama acompanha um menino que, após fugir de um reformatório, passa a sobreviver nas ruas do Rio de Janeiro.
Em 1996, o Brasil voltou à disputa com ‘O Quatrilho’, dirigido por Fábio Barreto e baseado no livro de José Clemente Pozenato. O filme retrata o relacionamento complexo entre dois casais de imigrantes italianos no Rio Grande do Sul. Na cerimônia, a estatueta ficou com o holandês ‘A Excêntrica Família de Antônia’.
Dois anos depois, ‘O Que É Isso, Companheiro?’, de Bruno Barreto, garantiu nova indicação ao país. Baseado no livro de Fernando Gabeira, o longa aborda a militância armada durante a ditadura militar. O prêmio acabou ficando com o filme ‘Caráter’, dos Países Baixos.
Em 1999, ‘Central do Brasil’, dirigido por Walter Salles, marcou a última indicação brasileira à categoria de Filme Estrangeiro por muitos anos. O longa também rendeu uma indicação histórica para Fernanda Montenegro como Melhor Atriz, feito inédito para uma brasileira. Apesar do reconhecimento internacional, a produção perdeu o Oscar para ‘A Vida É Bela’.
Já ‘Cidade de Deus’ (2003), embora não tenha sido indicado como filme estrangeiro, ganhou nova projeção após ser relançado nos Estados Unidos. A estratégia resultou em quatro indicações ao Oscar 2004, incluindo Melhor Direção e Melhor Roteiro Adaptado. O filme retrata a escalada da violência em uma favela carioca e se tornou uma das produções brasileiras mais reconhecidas no exterior.
Em 2008, ‘O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias’ avançou até a fase semifinal da disputa, ficando entre os nove finalistas, mas não alcançou a indicação final. Anos depois, ‘Pequeno Segredo’ (2016) gerou controvérsia ao ser escolhido para representar o país, superando ‘Aquarius’, decisão que Kleber Mendonça Filho atribuiu a possíveis motivações políticas.
O diretor voltou à disputa com o documentário ‘Retratos Fantasmas’ (2023), exibido no Festival de Cannes, no qual revisita o centro do Recife e a história dos cinemas da região, mesclando memória pessoal e cultural.
O maior feito do cinema nacional veio com ‘Ainda Estou Aqui’ (2025), que garantiu ao Brasil seu primeiro Oscar de Melhor Filme Internacional. A obra também recebeu indicações a Melhor Filme e Melhor Atriz, com Fernanda Torres. Dirigido por Walter Salles, o longa é baseado no livro de Marcelo Rubens Paiva e retrata o drama da família Paiva durante a ditadura militar, após o desaparecimento de Rubens Paiva.