Internacional

O 11 de Setembro ainda ecoa

Atentados de 2001, que abalaram o mundo, completam duas décadas em um planeta politicamente mais dividido, perigoso e cheio de incertezas. Embora a ameaça jihadista tenha diminuído, nos Estados Unidos as cicatrizes de uma das maiores tragédias da história ainda são evidentes

Crédito: Brad Rickerby

TRAUMA Imagem das Torres Gêmeas pegando fogo ficou marcada na memória da humanidade (Crédito: Brad Rickerby)

DESTRUIÇÃO Nunca os EUA haviam sofrido um ataque tão mortífero em seu próprio território (Crédito:Preston Keres)

O 11 de setembro de 2001 ainda assusta, faz pensar em destruição e morte e lembra constantemente que o terrorismo continua sendo uma ameaça real. Não por coincidência, vinte anos depois dos atentados espetaculares e sangrentos que derrubaram as Torres Gêmeas do World Trade Center (WTC), em Nova York, atingiram o Pentágono, em Washington, e causaram a queda do voo 93 da United Airlines na Pensilvânia, o mundo não se livrou do trauma. A violência da rede terrorista Al-Qaeda permanece na memória coletiva da humanidade e renasce agora das sombras com a retirada das forças militares americanas do Afeganistão. Os ataques deixaram 2.996 pessoas mortas e marcaram a cidade de Nova York para sempre. Além disso, o mundo mudou com o fim da ilusão da invencibilidade dos Estados Unidos — o único ataque anterior em seu território que os americanos sofreram foi o bombardeio japonês em Pearl Harbor, na 2ª Guerra, que deixou cerca de 2 mil mortos.

SURPRESA O povo de Nova York foi pego desprevenido enquanto cumpria suas atividades rotineiras (Crédito:Shannon Stapleton)

Em 2001, os EUA ainda eram a única superpotência mundial e não tinham a China como rival. Triunfantes com a vitória sobre a União Soviética em 1991, os americanos viviam a euforia do domínio global e exportavam o modelo do liberalismo econômico e da bonança dos anos 90, com a teoria de que a democracia seria o regime ideal de governo para todos. Sentiam-se indestrutíveis e não podiam imaginar que, a qualquer momento, sofreriam um ataque devastador de gente avessa ao regime democrático, como o executado por Osama Bin Laden. Os sinais de que o terrorismo poderia se manifestar, porém, já brotavam. A Al-Qaeda, cuja obsessão era atingir o WTC de Nova York, fez um atentado com carro-bomba na garagem dos edifícios em 1993.

“O atentado de 11 de Setembro foi tão gigantesco que nunca mais aconteceu outro da mesma magnitude. Os americanos fizeram um esforço enorme, com o gasto de trilhões de dólares e duas guerras, além do aumento de todo o aparato de Estado para combater o terror”, comenta Felipe Loureiro, professor de Relações Internacionais na Universidade de São Paulo (USP). Como consequência do ataque, ele destaca que o governo americano, através do Ato Patriota, lei assinada por George Bush logo após os atentados, obteve um controle avassalador sobre as informações privadas dos cidadãos. O Ato Patriota expirou em 2015 e foi substituído pelo Ato da Liberdade de Obama.

Os EUA também criaram o Departamento de Segurança Interna, aumentando a burocracia e controle das viagens. As regras para a aviação civil, aeroportos e o acesso a eventos públicos ficaram mais rigorosos. “A doutrina atual é combater o terror sem ter soldados nos locais onde estão os terroristas. Houve um avanço imenso na tecnologia que permite isto em 2021”, diz Loureiro. Ele destaca que o terror, contudo, aumentou nos países periféricos, principalmente de maioria muçulmana. Hoje o mundo assiste a guerras no Iêmen e no próprio Afeganistão. O cientista político Hussein Kalout, da Universidade de Harvard, nota que o combate ao terror não é mais um ponto crucial na agenda externa americana. “A agenda internacional hoje se pauta em outros temas, como inteligência artificial e clima”, diz. Segundo ele, os EUA estão mais protegidos que em 2001, pois têm um controle maior das fronteiras e rastreiam o dinheiro do terror.

Para centenas de milhões de pessoas que já eram adultas em 2001, as imagens do 11 de Setembro, transmitidas em tempo real pela televisão, ficaram na memória. Com o desabamento das torres, uma nuvem espessa de poeira tomou conta da parte baixa de Manhattan e da vizinha Chinatown. Uma gigantesca coluna de fumaça se elevou da ilha de Manhattan, sendo vista até da Estação Espacial Internacional. A poeira que invadiu as ruas era altamente tóxica, porque em parte formada por concreto e amianto pulverizados. Dos cinco mil bombeiros que participaram dos resgates, quase mil desenvolveram doenças respiratórias nos anos seguintes, além de outras moléstias como depressão e câncer. Até hoje muitas vítimas são desconhecidas. Na terça-feira, 7, a chefe de medicina forense de Nova York informou que mais dois mortos foram identificados através de testes de DNA. Até hoje 1647 vítimas tiveram as identidades confirmadas.

Para lutar contra o terror, os EUA gastaram US$ 8 trilhões. Estima-se que 900 mil pessoas tenham morrido em conflitos na Ásia

O brasileiro Fabiano Proa é um caso de nova-iorquino que presenciou três ataques ao World Trade Center — em 1993, 2001 e 2017. Em 11 de Setembro de 2001, ele tomava um café com um amigo fotógrafo no distrito financeiro, quando o primeiro avião atingiu a Torre Norte do WTC. “Saímos para a rua quando o segundo avião se chocou contra a Torre Sul. O pânico se instaurou, até porque não sabíamos se mais ataques estavam por vir”, lembra. O ataque de 2017 ocorreu perto do Memorial Plaza e da torre atual, a Freedom Tower. Um terrorista uzbeque do Estado Islâmico jogou o caminhão que furtou contra turistas, perto do rio Hudson. Oito pessoas morreram. Em 2011, o presidente americano Barack Obama capturou e matou Osama Bin Laden em Abbottabad, no Paquistão. O grupo terrorista mais agressivo atualmente, contudo, é o Estado Islâmico (EI), que surgiu após a invasão americana do Iraque em 2003. A derrubada de Saddam Hussein abriu um vácuo de poder, preenchido nos anos seguintes pelos “jihadistas”. “A partir de 2011, o EI foi alimentado também pela guerra civil na Síria. Em 2014, tomaram Mossul, segunda maior cidade do Iraque, e proclamaram o califado”, diz Loureiro. Na época, Obama percebeu o risco e enviou milhares de soldados ao Iraque. Tropas iraquianas e curdas, treinadas pelos EUA, retomaram Mossul em 2017. O “califado” foi destruído, mas a organização continua ativa. No Afeganistão, o EI fundou seu grupo local, o EI-K.

DEFESA Joe Biden tem o desafio de impedir que aconteçam novos atentados no País (Crédito:DREW ANGERER)

Para lutar a “Guerra ao terror” os EUA gastaram US$ 8 trilhões, estima estudo recente da Brown University. O levantamento calcula que as guerras deixaram 900 mil pessoas mortas, incluindo soldados americanos, militares aliados, inimigos e principalmente civis no Iraque, Afeganistão, Paquistão e Síria. Só no Afeganistão foram gastos US$ 2,3 trilhões. Outros US$ 2,1 trilhões foram gastos no Iraque e na Síria. O temor agora é que o EI ganhe força e protagonize uma nova era de medo. No sábado, 11, Biden visitará, com sua mulher Jill, os três locais atingidos pelos atentados de 2001. O que ele quer é “honrar e homenagear as vidas perdidas”. E exibir mais uma vez as cicatrizes de uma das maiores tragédias da história, que ele espera que não se repita.