A empresa MM Quarter, que formalmente pertence a uma mulher residente em um cortiço na Zona Norte de São Paulo, detém ao menos R$ 183 milhões em contratos com a Prefeitura de São Paulo, via Secretaria de Turismo e a empresa pública São Paulo Turismo (SPTuris). Após a repercussão do caso, o prefeito Ricardo Nunes (MDB) solicitou à Controladoria Geral do Município (CGM) a abertura de uma investigação.
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Em nota, a MM Quarter afirma que a informação de que a sócia vive em um cortiço está desatualizada, e que ela teria adquirido um imóvel em 16 de agosto de 2024. A empresa diz ainda que “ela atua de forma ativa e comprovável na condução do negócio” e que possui “lastro patrimonial e fiscal compatível, com origem lícita e evolução coerente com os rendimentos declarados e todos os impostos pagos”. Veja a nota na íntegra ao final do texto.
Segundo o colunista Demétrio Vecchioli, do Metrópoles, Nathália Carolina de Souza Silva, única dona da empresa, retirou R$ 16 milhões em lucros em 2024. Sua outra incursão empresarial foi ser sócia minoritária (com 1%) do secretário adjunto de Turismo, Rodolfo Marinho, em uma empresa de comunicação de R$ 100 mil que presta serviços eleitorais para o vereador Gilberto Nascimento Jr. (PL) e seu pai, o deputado federal Gilberto Nascimento (PSD – SP).
O montante total já pago pela gestão Nunes é incerto, visto que o sistema de transparência da prefeitura omite repasses feitos à empresa pela SPTuris em 2025 e 2026. Logo após nomear Marinho como secretário (e depois adjunto), em 2022, a prefeitura empenhou à recém fundada MM Quarter ao menos R$ 129 milhões. Considerando os R$ 50 milhões recebidos da SPTuris em 2024 e a expansão da agência na empresa pública, estima-se que a conta, incluindo os valores omitidos de 2025 e 2026, ultrapasse R$ 200 milhões.
Outro operador citado é Marcelo Camargo Martins, presidente da ONG ASA, que recebeu R$ 212 milhões da gestão Nunes desde 2022 e é contratada pelo Turismo para serviços como o “São Paulo City Tour”.
Histórico de Sociedade e Contratos
Nathália e Rodolfo Marinho trabalharam no gabinete do deputado estadual Rodrigo Moraes (PL) em 2017. Em 2018, tornaram-se sócios na empresa de comunicação Legiscom, que recebeu R$ 257 mil de campanhas do deputado Gilberto Nascimento e correligionários do PSC.
Em maio, quando Nathália deixou a sociedade com Marinho, a MM Quarter já fechava seus primeiros contratos com a SPTuris, comandada por Gustavo Pires. Mesmo sem histórico no ramo, a empresa assinou, em 30 de maio, contrato para fornecer 2 mil caixas de copos d’água. Em três anos, a caixa de 48 unidades — vendida inicialmente por R$ 29,99 — passou a custar mais de R$ 60 aos cofres públicos.
No primeiro semestre de existência, a Quarter fechou mais de 15 contratos, recebendo R$ 1,8 milhão. Concorrendo quase sempre contra uma empresa de locação de andaimes, foi contratada para itens diversos: de algodão doce a gestão de lixo e guias para aldeias indígenas. A ascensão consolidou-se quando a empresa obteve atestado de capacidade técnica para fornecer mão de obra terceirizada. Atualmente, possui R$ 147 milhões em contratos vigentes via atas de registro de preço, incluindo produtores, carregadores e recepcionistas.
Atuação no Carnaval
Apenas em fevereiro, a Quarter enviou ao menos 200 notas fiscais à prefeitura por serviços em eventos como o Carnaval e transmissões de futebol. No Carnaval de rua, funcionários da empresa planejaram calendários, definiram trajetos e calcularam o número de banheiros químicos. Além disso, a Quarter administra centrais de informações turísticas em um contrato de R$ 36 milhões, aditado anualmente desde 2023.
A IstoÉ entrou em contato com a prefeitura, que afirmou que solicitou a abertura de um processo investigatório na Controladoria Geral do Município (CGM) para apurar eventuais irregularidades em relação às empresas citadas na reportagem.
“O prefeito determinou à CGM toda e qualquer apuração, inclusive sobre eventuais irregularidades cometidas por agentes públicos também citados pelo portal”, diz a nota.
Veja a nota da empresa MM Quarter
A MM Quarter repudia com veemência as inverdades e distorções publicadas na reportagem do Metrópoles. A narrativa artificial, combinando insinuações pessoais, recortes fora de contexto e conclusões não se sustenta diante de fatos verificáveis e documentação formal.
É falsa a afirmação de que a sócia administradora seria “laranja”. Ela atua de forma ativa e comprovável na condução do negócio, com registros em e-mails, fotos e documentações de participação em decisões administrativas e operacionais, incluindo aprovações e acompanhamento de entregas. Há lastro patrimonial e fiscal compatível, com origem lícita e evolução coerente com os rendimentos declarados e todos os impostos pagos, o que afasta qualquer narrativa baseada em ilações.
A reportagem também erra ao afirmar que a sócia mora em um cortiço, com base em uma informação desatualizada, usada fora de contexto para sugerir situação que não corresponde à realidade atual. A sócia adquiriu imóvel em 16 de agosto de 2024, onde reside, com documentação comprobatória.
Também é incorreta a afirmação de que a empresa foi contratada sem licitação, concorrência ou por escolha direta.
Os contratos citados decorrem de procedimentos públicos realizados pela SPturis, por pregão eletrônico e Sistema de Registro de Preços, modelo previsto em lei e amplamente utilizado. Nesse formato, a seleção ocorre por meio de edital público, apresentação de propostas, disputa, julgamento por critérios objetivos, homologação e formalização de Ata de Registro de Preços. A partir dessa ata, o órgão emite ordens de fornecimento conforme sua necessidade, dentro de regras e valores previamente estabelecidos.
A contratação por ordem de fornecimento não é ausência de licitação, mas execução de processo licitado. Quem define quantitativos, datas e locais é a Administração, não a empresa. Tratar esse modelo como contratação direta é tecnicamente incorreto e induz o público ao erro.
Outro equívoco da reportagem é sustentar a narrativa de “empresa de fachada”. A Quarter possui estrutura real, com duas sedes (escritório e galpão), 62 colaboradores CLT e média de 560 prestadores terceirizados de serviço por mês, variando conforme a demanda e o volume de eventos.
A empresa conta com áreas formalmente estruturadas: Recursos Humanos e Departamento Pessoal, Financeiro, Licitações e Contratos, Produção, Administrativo e Logística Operacional, Comunicação e Design, Jurídico e Tecnologia da Informação.
A reportagem do Metrópoles confunde o leitor ao apresentar valores de forma sensacionalista, misturando conceitos distintos para sugerir irregularidade. Há diferença entre valor global estimado, limites contratuais, empenhos e pagamento por execução comprovada. Pagamento público depende de ordem formal, execução e documentação fiscal.
O número de R$ 183 milhões não corresponde à realidade, que consiste em valor substancialmente mais baixo. Alem disso, o montante não se refere a um único contrato ou cliente, mas ao conjunto contratos, demandas e serviços prestados a diversos clientes, públicos e privados.
É igualmente importante esclarecer que faturamento bruto não é lucro. A operação envolve custos de estrutura, logística, equipe, equipamentos, encargos e tributos.
Também não procede a insinuação de emissão de notas fiscais sem comprovação. A execução segue fluxo formal e documentado: ordem de fornecimento, validação de escopo, escala e contratação individual, aceite do prestador, controle de presença, relatório, validação interna, emissão de notas e pagamento. Em demandas específicas, há ainda escala nominal, contratos, registros fotográficos e documentação vinculada à ordem.
Por fim, a Quarter mantém toda a documentação organizada e disponível para órgãos de controle, prezando pela transparência e licitude dos processos.