A empresa MM Quarter, que formalmente pertence a uma mulher residente em um cortiço na Zona Norte de São Paulo, detém ao menos R$ 183 milhões em contratos com a Prefeitura de São Paulo, via Secretaria de Turismo e a empresa pública São Paulo Turismo (SPTuris). Após a repercussão do caso, o prefeito Ricardo Nunes (MDB) solicitou à Controladoria Geral do Município (CGM) a abertura de uma investigação.
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Segundo o colunista Demétrio Vecchioli, do Metrópoles, Nathália Carolina de Souza Silva, única dona da empresa, retirou R$ 16 milhões em lucros em 2024. Sua outra incursão empresarial foi ser sócia minoritária (com 1%) do secretário adjunto de Turismo, Rodolfo Marinho, em uma empresa de comunicação de R$ 100 mil que presta serviços eleitorais para o vereador Gilberto Nascimento Jr. (PL) e seu pai, o deputado federal Gilberto Nascimento.
O montante total já pago pela gestão Nunes é incerto, visto que o sistema de transparência da prefeitura omite repasses feitos à empresa pela SPTuris em 2025 e 2026. Logo após nomear Marinho como secretário (e depois adjunto), em 2022, a prefeitura empenhou à recém-fundada MM Quarter ao menos R$ 129 milhões. Considerando os R$ 50 milhões recebidos da SPTuris em 2024 e a expansão da agência na empresa pública, estima-se que a conta, incluindo os valores omitidos de 2025 e 2026, ultrapasse R$ 200 milhões.
Outro operador citado é Marcelo Camargo Martins, presidente da ONG ASA, que recebeu R$ 212 milhões da gestão Nunes desde 2022 e é contratada pelo Turismo para serviços como o “São Paulo City Tour”.
Histórico de Sociedade e Contratos
Nathália e Rodolfo Marinho trabalharam no gabinete do deputado estadual Rodrigo Moraes (PL) em 2017. Em 2018, tornaram-se sócios na empresa de comunicação Legiscom, que recebeu R$ 257 mil de campanhas do deputado Gilberto Nascimento e correligionários do PSC.
Em maio, quando Nathália deixou a sociedade com Marinho, a MM Quarter já fechava seus primeiros contratos com a SPTuris, comandada por Gustavo Pires. Mesmo sem histórico no ramo, a empresa assinou, em 30 de maio, contrato para fornecer 2 mil caixas de copos d’água. Em três anos, a caixa de 48 unidades — vendida inicialmente por R$ 29,99 — passou a custar mais de R$ 60 aos cofres públicos.
No primeiro semestre de existência, a Quarter fechou mais de 15 contratos, recebendo R$ 1,8 milhão. Concorrendo quase sempre contra uma empresa de locação de andaimes, foi contratada para itens diversos: de algodão doce a gestão de lixo e guias para aldeias indígenas. A ascensão consolidou-se quando a empresa obteve atestado de capacidade técnica para fornecer mão de obra terceirizada. Atualmente, possui R$ 147 milhões em contratos vigentes via atas de registro de preço, incluindo produtores, carregadores e recepcionistas.
Atuação no Carnaval
Apenas em fevereiro, a Quarter enviou ao menos 200 notas fiscais à prefeitura por serviços em eventos como o Carnaval e transmissões de futebol. No Carnaval de rua, funcionários da empresa planejaram calendários, definiram trajetos e calcularam o número de banheiros químicos. Além disso, a Quarter administra centrais de informações turísticas em um contrato de R$ 36 milhões, aditado anualmente desde 2023.
A IstoÉ entrou em contato com a prefeitura, que afirmou que solicitou a abertura de um processo investigatório na Controladoria Geral do Município (CGM) para apurar eventuais irregularidades em relação às empresas citadas na reportagem.
“O prefeito determinou à CGM toda e qualquer apuração, inclusive sobre eventuais irregularidades cometidas por agentes públicos também citados pelo portal”, diz a nota.