Brasil

“Nunca sonhei ser tetra”

O novo campeão da Fórmula 1 conta por que Senna o inspirou, fala da amizade com Neymar e diz que não aprendeu nada com Schumacher

NÚMERO 1 Acho que nem todo mundo nasceu para ser o melhor

Em um universo movido a mais de 300 km/h, no qual as relações humanas ficam isoladas em um cockpit, o sorriso no rosto de Lewis Hamilton é a pura expressão do dever cumprido em 2017. Sagrado tetracampeão a duas corridas do final da temporada de F-1, o piloto da Mercedes circula leve pelo lounge da equipe em Interlagos. Em São Paulo para o GP do Brasil, no domingo 12, ele quer apenas “curtir” a corrida. Para o esportista mais rico da Inglaterra, o momento é de comemoração. “Adoro correr em Interlagos. A torcida é muito especial, empolgante como em nenhum outro país. Aqui tem até bateria na arquibancada”, afirma. A marca alcançada em outubro, no México, coloca Hamilton no mesmo patamar do francês Alain Prost e do seu maior rival nas pistas, o alemão Sebastian Vettel, da Ferrari. Deixa para trás o ídolo Ayrton Senna, o conterrâneo Jackie Stewart, o brasileiro Nelson Piquet, o austríaco Niki Lauda e o australiano Jack Brabham, todos com três títulos mundiais. Em relação às lendas do esporte, fica a um título do argentino Juan Manuel Fangio e a três de alemão Michael Schumacher. Bilionário aos 32 anos, com uma fortuna avaliada em 1,12 bilhão de reais, é reservado quando o assunto é futuro e desconversa sobre o sonho de pilotar a Ferrari, equipe-desejo de qualquer um. Carismático também não esconde a fé, estampada em anjos cravejados de diamante que traz nos colares de ouro rosa que ostenta no pescoço. No momento, o que mais quer é continuar curtindo – e bem – a vida. Nesse quesito, o brasileiro Neymar, do PSG, é seu melhor companheiro.

Foi a sua melhor temporada na F-1?

Acho que sim. E não apenas nas pistas, mas na F-1 em geral e também na minha vida pessoal. Este ano ganhei um afilhado lindo. Também tomei decisões importantes. Estou mais consistente e completo nas pistas. Também me sinto mais confiante, seguro.

Quantos títulos ainda sonha conquistar na F-1?

Só tinha sonhado com três títulos. Queria ser como Senna. Agora não sei… Acho que preciso começar um sonho novo (risos). Na verdade, eu não corro para quebrar recordes. Nem sei quais já superei. Não me prendo a números. Claro que quero continuar melhorando e acho isso importante. Mas minha principal preocupação é continuar me divertindo com o que faço. Nunca pensei ser quatro vezes campeão. Já estou muito grato por isso.

Seu contrato com a Mercedes vai até o final de 2018. Já começou a pensar no que pretende fazer no futuro? Todo piloto sonha com a Ferrari. É também o seu?

Ainda não comecei a pensar nisso, mas em breve vou sentar com a equipe para discutir meu futuro. Por enquanto estou feliz aqui.

Você é fã declarado de Ayrton Senna. O que mais admirava nele?

Senna sempre foi meu ídolo (Hamilton tinha 9 anos quando o piloto brasileiro morreu). Sempre me inspirei nele, desde criança. Ele me influenciou muito quando comecei a pilotar. No início, era fascinado nas cores do capacete dele. Depois vi suas corridas, suas vitórias, as batidas, sua honestidade, seu caráter, sua paixão e sua fé e passei a me identificar muito com ele. Enfim, ele é um exemplo de vida para mim.

Quais são seus hobbies? Senna era fanático por velocidade também fora das pistas. E você?

Eu também. Faço de tudo. Adoro adrenalina. Paraquedismo, barcos, moto, avião, escalada… Como Senna, também costumo brincar com aviões e carros com controle remoto. Estou sempre em movimento.

O que aprendeu com Michael Schumacher?

Não acho que aprendi nada com ele.

“A amizade com Neymar se fortaleceu porque temos uma história de vida semelhante e muitas afinidades. Nós dois gostamos de balada e nos divertimos muito juntos”

Você e Neymar são amigos. Como se conheceram?

Nos conhecemos em Los Angeles, num show do Justin (Bieber – outro amigo). Ele não fala muito bem inglês, mas a gente até que administrou a conversa. Ele pedia para os amigos ajudarem na tradução e assim foi. Mas acho que nossa amizade se fortaleceu porque temos uma história de vida semelhante. Viemos de famílias simples e tivemos que ralar muito para chegar onde estamos hoje. Também gostamos muito de balada e costumamos nos divertir juntos (risos).

O ambiente da F-1 é muito competitivo e às vezes hostil. Ter a família por perto é um jeito de se proteger?

Sim, é um ambiente extremamente competitivo. E às vezes hostil. Mas não me sinto pressionado. Ao contrário. Acho que sou forte suficiente para encarar todos os desafios a que me proponho. Mas com certeza é bom poder contar com quem se ama por perto em alguns momentos. É sempre fortalecedor. Até porque há muita negatividade. A própria imprensa às vezes pega pesado.

Quais os aspectos negativos de ser uma celebridade?

(Risos) A falta de privacidade é certamente um dos pontos negativos. Não é nada fácil ter privacidade. Além disso, no mundo em que vivemos hoje as pessoas são julgadas por tudo que fazem. Chega a ser cruel. Também pode ser muito triste se pensarmos naquelas pessoas escravas da beleza que precisam usar filtros o tempo todo para postar boas imagens. A pressão social também é difícil.

E os positivos?

O bom é poder conhecer quem você admira ou uma celebridade que você passou a vida vendo na TV e, de repente ela está ali, na sua frente. Essa é a melhor parte.

Quem você já conheceu?

Ah, muiiiitas pessoas (risos). Usain Bolt esteve na última corrida. Foi fantástico! Admiro muito ele. Serena Williams, de quem sou um grande fã… Conheci também a rainha (Elizabeth), Nelson Mandela, enfim, diversas pessoas que respeito pela história, pelos valores. E quando há uma conexão, uma ligação maior, é ainda melhor. E foi o que aconteceu com Neymar.

Na sua opinião, por que o Brasil não tem conseguido mais formar campeões?

Acho que nem todo mundo nasceu para ser o melhor. Também não é só isso. Acredito que haja campeões no Brasil. Eles estão aí. Mas talvez não haja oportunidade para todos que realmente tenham talento. Para se chegar à F-1, é preciso muito investimento financeiro. Isso dificulta o acesso ao esporte. Então, há pilotos que estão aqui porque podem estar, não porque são os melhores. Não estou dizendo que sem dinheiro é impossível. Para mim, o caminho foi duro, mas isso me ajudou a ser mais forte e construir o que tenho hoje.

Fotos: Wolfgang Wilhelm, Robert Marquardt