O calendário cultural de São Paulo em 2026 ganha um capítulo fundamental com o anúncio da nova residência artística do Instituto Capobianco. Abrindo a programação do ano, o espaço recebe o Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, coletivo que há duas décadas e meia redefine o teatro brasileiro ao fundir a narrativa épica com a cultura hip-hop, o rap e a poesia falada. A ocupação, que se estende por todo o primeiro semestre, marca o jubileu de prata do grupo formado por Claudia Schapira, Eugênio Lima, Luaa Gabanini e Roberta Estrela D’Alva.
Maratona cênica: a residência contempla três temporadas de espetáculos, totalizando 48 apresentações.
Formação e diálogo: além dos palcos, o projeto inclui quatro oficinas de Teatro Hip-Hop, cinco Rodas de Conversa e uma mostra gratuita de cinema.
Vozes do slam: estão programadas quatro edições do ZAP! Slam, um dos marcos da cena de poesia urbana paulistana.
Intercâmbio artístico: as atividades terão a participação de coletivos como O Bonde, Cia do Latão, Cia São Jorge e Coletivo Negro.
O despertar da temporada: “Hip-Hop Blues”
A programação tem início no dia 6 de março com a reestreia de “Hip-Hop Blues – Espólio das Águas”. A peça, que fica em cartaz até 29 de março, é fruto de um processo criativo pós-pandemia que utilizou a obra de Bertolt Brecht como disparador para um mergulho profundo no gênero do depoimento.
Considerado o trabalho mais desafiador da trajetória do Núcleo, o espetáculo utiliza a metáfora de uma São Paulo inundada para refletir sobre as urgências do presente. Em um cenário que remete a um galpão-teatro, os atores-criadores — acompanhados por artistas aliados como Dandá Costa, Dani Nega e Daniel Oliva — confrontam estruturas de opressão como o racismo, a LGBTQIA+fobia e o patriarcado. Através de projeções, vozes de figuras como Zahy Guajajara e Aretha Sadick ampliam a narrativa, construindo novos imaginários sobre a realidade cotidiana.
O Instituto Capobianco: memória viva no coração da cidade
Ocupar o Instituto Capobianco é, por si só, um ato de reverência à memória de São Paulo. O casarão histórico de estilo floreal, construído em 1928, foi transformado em centro cultural em 2005 e hoje é uma referência em fomento e experimentação artística.
O sucesso do modelo de residência do Instituto foi comprovado em 2025, quando a mundana companhia reuniu mais de 5,2 mil espectadores durante sua ocupação de dez meses. Para 2026, além do Núcleo Bartolomeu, o espaço já confirmou a chegada do Núcleo Olho, liderado por Janaina Leite, para o segundo semestre. Ambos os grupos realizarão temporadas de repertório e a criação de obras inéditas, mantendo o pulsar criativo do centro histórico.
“O espetáculo renova a encenação a partir de novos escombros de memórias, transformando vozes individuais em uma narrativa coletiva necessária.”
Claudia Schapira, diretora e fundadora do Núcleo Bartolomeu.
Reflexão crítica: a arte como trincheira urbana
O pioneirismo do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, fundado no ano 2000, não reside apenas na mistura de linguagens, mas na ocupação política do espaço artístico. Ao levar o hip-hop para um casarão histórico restaurado, o grupo tensiona as relações entre o clássico e o contemporâneo, o marginal e o institucional. Em tempos de rápida gentrificação no centro de São Paulo, a presença de um coletivo que discute o “espólio das águas” e a ancestralidade urbana é um lembrete da função social do teatro.
Serviço
Espetáculo: “Hip-Hop Blues – Espólio das Águas”
Temporada: 6 de março a 29 de março de 2026
Horários: sexta e sábado, às 20h; domingo, às 18h
Onde: Instituto Capobianco (R. Álvaro de Carvalho, 97 – Centro Histórico de SP)
Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia)
Vendas: Online via Sympla