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Novo estudo sobre cloroquina contra COVID-19 gera fortes receios de cientistas

Novo estudo sobre cloroquina contra COVID-19 gera fortes receios de cientistas

O professor Didier Raoult em 26 de fevereiro de 2020 - AFP/Arquivos

O polêmico médico francês Didier Raoult publicou um novo estudo sobre um derivado da cloroquina que, segundo ele, confirma a “eficácia” do tratamento contra o novo coronavírus, ao contrário do que afirmam diversos especialistas.

O estudo, divulgado on-line na sexta-feira à noite mas que ainda não foi publicado em nenhuma revista científica, abrange 80 pacientes, 80% deles com uma “evolução favorável”. Segue um estudo anterior que incluiu 20 paciente, que gerou críticas pela metodologia utilizada.

“Confirmamos a eficácia da hidroxicloroquina (derivado da cloroquina, um medicamento usado no combate à malária) associada à azitromicina (um antibiótico) no tratamento da COVID-19”, anunciaram Raoult, especialista em doenças infecciosas, e sua equipe, na conclusão do novo estudo.

Muitos cientistas, no entanto, consideram que é impossível chegar a uma conclusão destas com base apenas neste estudo, pela maneira como foi realizado.

Os especialistas criticam o fato de a pesquisa não incluir nenhum grupo de controle (pacientes que não recebem o tratamento estudado) e que, por isto, é impossível estabelecer uma comparação para determinar se o tratamento provocou a melhora.

“Não, não é algo enorme, tenho medo”, reagiu no Twitter o professor François Balloux, da University College de Londres, em resposta a uma mensagem entusiasmada no Twitter que chamava de “enormes” as conclusões do estudo.

Ele destacou que este é um experimento sem grupo de controle “que acompanha 80 pacientes com sintomas bastante leves. A maioria dos pacientes se recupera da COVID-19 com ou sem tratamento de hidroxicloroquina e azitromicina”, completou, na mesma linha que outros cientistas seguiram nas redes sociais.

“Os pacientes não apresentavam efetivamente sinais de gravidade quando foram admitidos. Mas nossa estratégia é, justamente, tratar nesta fase para evitar a evolução até os critérios de gravidade”, argumentou à AFP um dos signatários do estudo, Philippe Gautret, médico da equipe de Raoult no hospital universitário Méditerranée Infection de Marselha.

Raoult alegou no Twitter a ausência do grupo de controle explicando que sua equipe propõe o protocolo “a todos os pacientes que não apresentam contraindicações”.

“O médico pode e deve refletir como um médico e não como um metodologista”, se defendeu em um artigo publicado no jornal Le Monde.

– Debate mundial –

No estudo participaram 80 pacientes, metade deles com menos de 53 anos, que foram seguidos entre 6 e 10 dias no já citado hospital de Marselha. Todos receberam tratamento de hidroxicloroquina e azitromicina.

De acordo com o estudo, 65 pacientes (81%) tiveram “evolução favorável” e saíram do hospital após cinco dias em média, enquanto um paciente de 74 anos permanecia na UTI ao final do estudo e outro, de 86 anos, faleceu.

O estudo afirma que a maioria dos pacientes registrou uma “queda rápida”, em menos de uma semana, da carga viral.

Mas esta informação também despertou receio entre os cientistas mais céticos.

Dois estudos chineses mostraram recentemente que “10 dias após o surgimento dos sintomas, 90% das pessoas com uma forma moderada (da doença) têm uma carga viral controlada”, explicou à AFP a epidemiologista Dominique Costagliola, diretora de pesquisas do Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica (Inserm) da França).

“Que existam resultados semelhantes com a hidroxicloroquina não significa que a hidroxicloroquina tenha um efeito importante na carga viral”, afirmou.

“É muito provável que este novo estudo convença apenas os já convencidos”, afirmou a Heidi.News, publicação on-line suíça especializada em ciência, em uma análise crítica do estudo do professor Raoult.

O francês está no centro de um debate mundial sobre o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina para combater o coronavírus.

Alguns médicos e alguns governantes pediram o uso generalizado do medicamento, que o presidente americano, Donald Trump, chamou de “presente dos céus”.

Mas grande parte da comunidade científica e das organizações de saúde exigem una validação científica rigorosa prévia antes da administração, advertindo para o risco que poderiam correr os pacientes.

Um teste foi iniciado em vários países da Europa, com o nome “Discovery”, sobre quatro tratamentos, incluindo a hidroxicloroquina.

Enquanto os resultados não são divulgados, a França autorizou a administração de hidroxicloroquina no hospital única e exclusivamente para casos graves.

O ministro francês da Saúde, Olivier Verán, declarou que baseou a decisão nas “recomendações das sociedades acadêmicas”, sete das quais indicaram que os “dados clínicos e biológicos de que dispomos são muito insuficientes para assumir o risco de prescrever o tratamento” em outras condições distintas.

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