Nem sempre a ficção apenas reflete a realidade — em alguns casos, ela acaba provocando mudanças concretas no país. Foi exatamente isso que aconteceu com duas novelas marcantes de Manoel Carlos, autor que morreu recentemente e deixou um legado que ultrapassa a dramaturgia. ‘Laços de Família’ e ‘Mulheres Apaixonadas’ não só emocionaram o público como também influenciaram leis e políticas públicas ligadas à saúde e aos direitos sociais no Brasil.
Exibida em 2000, ‘Laços de Família’ teve um efeito direto na conscientização sobre a doação de medula óssea. A história da personagem Camila, vivida por Carolina Dieckmann, mobilizou o país e provocou um crescimento histórico no número de cadastros no Registro de Doadores Voluntários de Medula Óssea. As inscrições, que giravam em torno de 20 por mês, saltaram para cerca de 900, um aumento superior a 4.000%. O movimento ficou conhecido como “Efeito Camila”.
Já ‘Mulheres Apaixonadas’, levada ao ar em 2003, ampliou debates importantes e ajudou a impulsionar mudanças na legislação. A repercussão das cenas em que a personagem Dóris (Regiane Alves) maltratava os avós contribuiu para a aprovação do Estatuto do Idoso, ainda naquele ano. Pouco depois, em 2006, a discussão sobre violência doméstica ganhou força com a trama de Raquel (Helena Ranaldi), o que ajudou a manter o tema em evidência durante a criação da Lei Maria da Penha. A novela também reacendeu o debate sobre segurança pública: após o personagem Téo, interpretado por Tony Ramos, ser atingido por balas perdidas no trânsito, o Estatuto do Desarmamento voltou ao centro das atenções.
Com sua morte, Manoel Carlos deixou como herança não apenas personagens icônicos, mas também exemplos claros de como a teledramaturgia pode impactar a sociedade e contribuir para transformações reais.
O autor de novelas morreu no último sábado, 10, aos 92 anos. Manoel Carlos estava internado no hospital Copa Star, em Copacabana, onde tratava uma Doença de Parkinson.