Novamente aliados, Moro e família Bolsonaro esquecem ruptura de 2020; relembre

Hoje com filiação ao PL confirmada, senador já foi chamado de 'traidor' após acusar Jair Bolsonaro de interferir politicamente na Polícia Federal

Carlos Moura/Agência Senado
Flávio Bolsonaro e Sergio Moro Foto: Carlos Moura/Agência Senado

Mais de cinco anos após protagonizar um rompimento ruidoso, o senador Sergio Moro (União Brasil) e a família de Jair Bolsonaro (PL) voltam a dividir o mesmo palanque. Nesta quinta-feira, 19, o ex-juiz firmou compromisso para se filiar ao PL para disputar o governo do Paraná em 2026, movimento que conta com cabo eleitoral de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à presidência.

A troca de legenda deve ser oficializada nas próximas semanas, pouco antes do fechamento da janela partidária. O gesto consolida uma reaproximação que vinha sendo costurada desde as eleições de 2022 e “supera” a ruptura pública de 2020 entre Moro e os Bolsonaro — ocasião em que o ex-ministro chegou a ser chamado de “traidor”.

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Fim da lua de mel

A relação entre Moro e Bolsonaro começou de forma positiva, com convergência política. Em 2018, o então juiz da Lava Jato aceitou o convite para assumir o Ministério da Justiça, tornando-se uma das principais apostas do novo governo. À época, Moro era visto como símbolo de combate à corrupção — principal discurso capitalizado na campanha de Bolsonaro.

O rompimento veio em 24 de abril de 2020: Sergio Moro anunciou sua demissão do Ministério da Justiça em um pronunciamento rígido, no qual acusou Jair Bolsonaro de tentar interferir politicamente na Polícia Federal. O estopim foi a exoneração do então diretor-geral Maurício Valeixo, aliado de Moro, sem o aval do ministro.

Na coletiva, Moro afirmou que Bolsonaro queria ter acesso a relatórios de inteligência e influência sobre investigações em andamento — declaração que elevou a crise ao patamar institucional, chegando a levar à abertura de um inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF).

Em resposta, Bolsonaro negou interferência e acusou Moro de agir por interesses pessoais, sugerindo que o ex-ministro teria ambições políticas ao deixar o cargo. A partir do atrito, aliados e integrantes da família passaram a atacar Moro publicamente, chamando-o de “traidor” e “mentiroso”.

Nos anos seguintes, a relação se deteriorou ainda mais. Moro não poupou críticas ao ex-presidente e seu entorno, enquanto bolsonaristas questionavam sua atuação à frente da Lava Jato e no governo.

Moro e família Bolsonaro reatam

Só a partir de 2022 que sinais de reaproximação começaram a aparecer. Com a reorganização da direita e a necessidade de alianças regionais, Moro voltou a dialogar com o campo bolsonarista. O PL, por sua vez, passou a enxergar no senador um ativo eleitoral relevante no Paraná, onde ele aparece competitivo nas pesquisas de intenção de voto.

Ao longo de 2023 e 2024, a reconciliação ganhou mais espaço, especialmente com o afastamento — e prisão — de Jair Bolsonaro da política institucional. Lideranças do Partido Liberal passaram a ver em Moro um nome competitivo para disputar o governo estadual, enquanto o senador buscava viabilizar um projeto eleitoral com maior estrutura partidária.

A oficialização da aliança, que ignora a ruptura de 2020, veio por meio de um “Bolsonaro moderado”. Flávio é considerado uma versão menos radical do pai, procurando ancorar sua campanha presidencial de 2026 na combinação entre legado familiar e ampliação de bolhas eleitorais.