Mundo

Nova manifestação em Hong Kong, onde chefe do Executivo apresenta desculpas

Nova manifestação em Hong Kong, onde chefe do Executivo apresenta desculpas

Manifestação em Hong Kong, em 16 de junho de 2019 - AFP

Quase 2 milhões de pessoas saíram às ruas neste domingo (16) em Hong Kong, uma participação recorde, segundo os organizadores, para exigir a retirada de um polêmico projeto de extradições para a China, forçando o governo pró-Pequim a se desculpar por ter provocado “conflitos”.

“Na manifestação de hoje, contabilizamos quase dois milhões de pessoas”, afirmou a jornalistas Jimmy Sham, um representante da Frente Cívica de Direitos Humanos (CHRF).

Os organizadores pretendem manter a pressão sobre Carrie Lam, chefe do Executivo pró-Pequim de Hong Kong, que no sábado suspendeu o projeto de lei autorizando as extradições para a China.

“Retire a lei do mal!”, gritavam os manifestantes vestidos de preto. A marcha de protesto partiu de um parque na ilha de Hong Kong e seguia para o Conselho Legislativo (LegCo, Parlamento), no coração da cidade. Trata-se do mesmo percurso realizado há uma semana e que reuniu um milhão de pessoas, de acordo com os organizadores.

Segundo seus críticos, o projeto colocaria a população da ex-colônia britânica à mercê do sistema judiciário da China continental, opaco e controlado pelo Partido Comunista. A comunidade empresarial teme ainda a possibilidade de a reforma prejudicar a imagem internacional e a atratividade do centro financeiro.

Acusada de autoritarismo, Lam apresentou neste domingo suas “desculpas” e reconheceu que as “lacunas no trabalho do governo provocaram muitos conflitos e rixas na sociedade”.

Ela justificou a repressão das manifestações pelos atos de violência da parte de alguns manifestantes.

Ao mesmo tempo, um partido da oposição anunciou a libertação na segunda-feira do líder estudantil Joshua Wong, de 22 anos, ícone do movimento pró-democracia de 2014.

“A reação de Carrie Lam não foi sincera, é por isso que estou manifestando hoje”, explicou Terence Shek, de 39 anos, que veio com seus filhos.

Na quarta-feira, Hong Kong registrou os piores episódios de violência desde a devolução do território à China em 1997, quando milhares de pessoas foram dispersadas pela polícia de choque com gás lacrimogêneo e balas de borracha.

“Polícia de Hong Kong, o seu dever é nos proteger, não atirar contra nós”, dizia o cartaz de um manifestante.

– Flores para um morto –

Lam não desistiu permanentemente do texto. Os manifestantes, portanto, exigem o abandono do projeto, a renúncia da chefe de governo e desculpas pela violência policial.

“Essa suspensão significa que o projeto pode ser reativado a qualquer momento”, disse o militante Lee Cheuk-yan.

Quase 80 pessoas, incluindo 22 policiais, ficaram feridos na quarta-feira. No sábado, um homem morreu ao cair do telhado de um centro comercial, onde ele ficou por várias horas com um cartaz dizendo: “Retire completamente a lei de extradição chinesa. Não somos baderneiros. Libertem os estudantes e os feridos”.

Neste domingo, as pessoas formavam enormes filas para deixar flores e origamis no local da tragédia, além de mensagens de homenagem ao falecido.

Jimmy Sham, da Frente Cívica de Direitos Humanos, comparou o projeto a uma “faca” ameaçando Hong Kong. “Quase atingiu nossos corações. Agora o governo diz que não vai avançar, mas também se recusa a retirá-lo”.

A oposição ao projeto de lei é ampla, reunindo advogados, organizações jurídicas influentes, empresários, câmaras de comércio, jornalistas, ativistas, religiosos e diplomatas ocidentais.

Sob o princípio de “um país, dois sistemas”, a ex-colônia britânica goza de liberdades desconhecidas na China continental, teoricamente até 2047.

– Ressentimento mais amplo –

Mas o movimento vai além da questão das extradições e expressa um ressentimento muito maior contra o governo e contra Pequim, acusados de tolir as liberdades do território semi-autônomo.

Nos últimos dias, a chefe de governo tem estado cada vez mais isolada, com deputados de seu próprio campo distanciando-se do texto.

“Apoiamos, respeitamos e entendemos” a decisão de suspender o texto, declarou o ministério das Relações Exteriores da China, falando da necessidade de “restaurar a calma o mais rápido possível” no território.

Os críticos de Lam culpam-na por perder várias oportunidades de se desculpar pelo comportamento da polícia.

Ela justificou a ação policial por atos de violência perpetrados por certos manifestantes. Mas a oposição a acusa de usar as atitudes de uma pequena minoria para atacar todos os manifestantes, em sua maioria pacíficos.

“Os grupos pró-democracia não vão parar por aí. Querem aproveitar o impulso contra Carrie Lam”, explicou à AFP o analista político Willy Lam.

Neste momento, os manifestantes exigem que a polícia retire as acusações contra os manifestantes acusados de serem desordeiros. Eles temem represálias do governo, disse o militante Lee Cheuk-yan, e querem a garantia de que “o povo, os manifestantes, não sejam assediados e politicamente perseguidos pelo governo”.

Na China, a imprensa estatal e as redes sociais estavam em silêncio sobre o movimento de protesto, sem qualquer menção ao recuo do governo de Hong Kong.

Em Washington, o secretário de Estado Mike Pompeo informou que o presidente Donald Trump pretende comentar as manifestações com seu colega chinês Xi Jinping durante a cúpula do G20 no final de junho no Japão.