Esportes

Nova geração do skate é impulsionada por escola de Florianópolis

A relação afetiva com a cidade de Florianópolis não é a única coisa que grandes nomes do skate como Yndiara Aspen, Pedro Barros, Isadora Pacheco e Pedro Carvalho têm em comum. Os atletas realizaram suas primeiras manobras no bowl, uma pista em formato de piscina, da Hi Adventure, localizada no bairro Rio Tavares, no leste da Ilha. Os três primeiros atletas integram a seleção brasileira de skate para a segunda janela da corrida olímpica, que vai até 31 de maio de 2020.

O portão e as árvores da casa localizada na servidão Sotero José de Farias escondem um templo do skate – e as marcas deixadas pelas rodas de skatistas que passaram pela pista vermelha da Hi Adventure. A história da escola começou em 1997, quando Rafael Bandarra comprou um terreno no Rio Tavares. Junto aos amigos Léo Kakinho, skatista da década de 1990 e André Barros, skatista e pai de Pedro Barros, Rafael teve a ideia de construir um bowl. A intenção era surfar no concreto quando o vento da praia do Pico da Cruz, da Joaquina ou do Campeche não estava para ondas.

A pista foi desenhada por Léo Kakinho e construída por um pedreiro trazido de Brasília pelo grupo só para isso. O bowl teve grande repercussão devido à influência de Kakinho no meio do skate. “Ficaram sabendo que tinha uma pista em Floripa e para vir para cá qualquer motivo já vale, né? Todo mundo quis andar na pista que o Léo tinha feito”, relembra Rafael Bandarra, proprietário da Hi Adventure. O bowl foi palco de encontros de skatistas que se reuniam para tocar música, fazer churrasco e ter sua sessão na pista vermelha.

Na época eles não sabiam, mas preparavam a cena para uma geração de skatistas que daria o que falar. Apesar de a cidade ser reconhecida pelo bowl, na década de 90 a modalidade ainda não havia se popularizado. A pista da Hi Adventure funcionou como um ponto de apoio para os praticantes do bowl. “É interessante como o skate vai se transformando de acordo com o que está em evidência e as próprias relações urbanas dos locais”, comenta o sociólogo que pesquisou o skate na cidade e professor Júlio Pereira.

35 PISTAS – O skate apareceu pela primeira vez na Ilha nos anos 70 por iniciativa da juventude surfista. No mesmo período, foi construída a primeira pista de skate de Florianópolis, dentro do Clube 12, em Jurerê. “Em 2000, a modalidade street fica mais em evidência com a construção de pistas públicas na cidade. Nos últimos dez anos, chega a modalidade do bowl”, explica o professor. Atualmente, a capital de Santa Catarina é a maior referência nacional das pistas de bowl e uma das maiores rotas turísticas do skate do mundo. A cidade conta com cerca de 35 pistas, sendo a maioria particular e, a dos bairros Trindade e Costeira do Pirajubaé, públicas.

Principal representante do país na modalidade bowl, o florianopolitano Pedro Barros, de 24 anos, chegou a morar na Hi Adventure com o pai. “O Pedro não era bom aluno, era um participante da escolinha. Ele pegou no skate com 11 meses e nunca mais largou”, recorda André Barros. “Eu não passei por escola nenhuma, mas sempre tive mentores como o Léo Kaquinho e Marcelo Kosake. Acho que é muito bom para criançada nova estar vivenciando um pouco da cena do skate junto aos skatistas”, conta Pedro.

Foi por causa desta cena e para buscar maior qualidade de vida que o empresário Alexandre Pacheco se mudou para Florianópolis em 1993. Ele foi um dos primeiros moradores da região onde está localizada a Hi Adventure. “Presenciei todo o crescimento relâmpago dali. A região começou a ser povoada por muitas pessoas comprometidas com o surfe, skate, música e arte”, relembra. Sua filha e número sete do Mundial de Skate Park 2019, Isadora Pacheco é fruto desta época.

Desde pequena, Isadora acompanhava o pai à praia para ver as ondas e, no percurso de volta, a Hi Adventure era parada obrigatória. A manezinha do Rio Tavares foi da primeira turma da escola. De acordo com ela, os eventos realizados na Hi Adventure contribuíram para que se tornasse atleta. “Sempre que posso, vou treinar na Hi. Acho que o fato de andar ali ajudou a desenvolver minha habilidade nas transições. Aprendo muito com o pessoal, em especial o professor Affonso e meu técnico, o Catarina”, diz.

LIFESTYLE COMO MODELO DE NEGÓCIO – Em 2002, Rafael Bandarra se viu “expulso” de seu terreno pelo número de skatistas que frequentavam a pista. Aproveitou o espaço e construiu uma pousada. Depois de um tempo, um bar foi adicionado ao local e a escolinha de skate foi criada oficialmente. “Sentimos a necessidade de uma loja também. Em seguida, criamos um circuito amador, que até então não existia, o RTMF Number One. Fomos inovadores nesse modelo de negócio, deu tão certo que ele foi replicado para outros lugares”, comemora Rafael Bandarra.

Atualmente, o RTMF Number One faz parte do circuito brasileiro de bowl amador. Vencedora dos principais eventos nacionais disputados em bowl – estilo que também consagrou Pedro Barros -, Yndiara Asp passou a adolescência na pista vermelha da Hi Adventure. Natural de Florianópolis, a atleta de 21 anos está na corrida para a Olimpíada de Tóquio-2020.

“Tinha 7 anos quando tive meu primeiro contato com o skate, mas com 15 anos que fui virar skatista. Foi na Hi que descobri muita história, conheci meus ídolos”, conta Yndiara. Para ela, a relação com o skate tem a ver com o “lifestyle” da praia e das pistas nos quintais – que remetem à diversão e uma vida mais tranquila. “Muitos ídolos moram lá e mantêm a chama do skate acesa”, diz.

A Ilha da Magia já estava consolidada como reduto do skate quando, em meados de 2007, Cahuê Carvalho deixou Curitiba para morar em Florianópolis a fim de assumir o bar da família. “Eu sempre surfei e andei de skate, e o Pedro, desde pequenininho, já tombava nas minhas pernas nas pistas”, conta o empresário e pai do skatista Pedro Carvalho.

Expoente de uma geração capaz de competir com seus ídolos, Pedrinho, de 14 anos, anda de skate desde o primeiro ano de vida. Literalmente. “Em Floripa, ele acabou formando um grupo que era tudo filho de amigos. Na escolinha da Hi, tinha aquela competição saudável de um aprender uma coisa e puxar o outro, então eles evoluíram muito rápido”, destaca Cahuê.

A Hi Adventure desenvolveu uma didática para ensinar o skate sem deixar de lado a diversão. Atualmente, a escola conta com 60 alunos e uma das regras é não exceder seis alunos por turma. Para crianças a partir de três anos de idade, o skate é trabalhado de forma lúdica para aperfeiçoar a coordenação motora e o senso de espaço. Conforme o nível avança, as aulas se tornam mais específicas, como as que fazem Pedro Barros, Isadora Pacheco e Pedrinho Carvalho quando têm suas sessões no bowl.

“Andei com muitas pessoas da minha idade e com muitos skatistas mais velhos que ajudaram e incentivar muito a minha geração. Contando com aquelas pistas de qualidade e com todos esses incentivos, a Hi ajudou muito”, comenta Pedrinho.

QUALIDADE DA PISTA – A qualidade da pista – e de toda a infraestrutura – é o que ditou o sucesso da escola. Rafael acredita que o sucesso só vem com o investimento. É por isso que há mais de 20 anos ele investe no aperfeiçoando das pistas e das áreas de treino. “Colocamos o que há de mais moderno para que nossos atletas possam ir para outras competições e não sentir diferença em termos de adaptação de terreno. O que nos deixa na vanguarda é a nossa qualidade de infraestrutura”, acredita Rafael.

A escola possui uma parceria com Confederação Brasileira de Skate e cede os espaços para treinamentos. Com a modalidade fazendo parte do calendário oficial da Olimpíada de Tóquio, algumas relações mudaram.

O sociólogo Júlio Pereira explica que a esportivização não gera risco para a raiz do skate que é a diversão, mas pode gerar outros discursos. “Você vê, por exemplo, uma preocupação com treinamento e com as críticas. Então, grande parte dos skatistas prefere se juntar com pessoas que não dividem este estilo de vida.”

Este ponto de vista é compartilhado pelo pai de Isa Pacheco. “Sou de uma geração que valoriza mais o “lifestyle” do que a competição. Minha filha cresceu ouvindo que skate é “for fun” [para diversão] e agora ela recebe pressão por resultados e tem de se manter preparada e focada para as competições”, destaca Alexandre Carvalho.

Por outro lado, agora o esporte começa a ser reconhecido pela sociedade e está no radar de grandes empresas patrocinadoras. “A sociedade e o poder público enxergam que o skate tem importância”, comenta André Barros.

Para Yndiara, Floripa já vive o skate muito fortemente e a entrada do esporte na Olimpíada é um bônus. Pedrinho Carvalho vê o cenário olímpico como uma oportunidade para o desenvolvimento de mais skateparks por todo o Brasil. Isadora Pacheco avalia que mais meninas serão incentivadas a entrar no circuito. Pedro Barros acredita que a competição existirá, mas que o skate será sempre mais que isso. O criador da Hi Adventure, concorda. “Ver que o que plantamos deu frutos e conseguimos fazer com que essas crianças fossem pessoas boas e que servirão de exemplo para outras gerações dá muita satisfação”, diz.