Nota aos clientes – Guerra Israel-Hamas: firmes em meio a todos os riscos

A guerra Israel-Hamas é um dos eventos mais complexos e que gera mais divisões já cobertos pela AFP. Aborda profundas fraturas históricas que geram emoções viscerais nas nossas sociedades e nas redações.

A magnitude e a brutalidade do ataque do Hamas em 7 de outubro e as questões existenciais que ele representa para Israel, além do sofrimento em Gaza pelos bombardeios, causaram uma comoção considerável.

Estes sentimentos são amplificados pelo debate corrosivo nas redes sociais, repleto de imagens violentas, desinformação e discursos de ódio.

A AFP trabalha 24 horas por dia para explicar acontecimentos em constante evolução, o que a expõe a acusações de parcialidade, sejam elas pró-palestinos ou pró-Israel.

Cada palavra que escrevemos é examinada com uma lupa em busca de sinais de parcialidade para um lado ou para o outro. É um contexto extremamente difícil para produzir jornalismo de qualidade.

Sejamos claros: a AFP não é parcial. Permanecemos firmemente leais às nossas diretrizes, que exigem que cubramos de forma independente os fatos e testemunhemos o que acontece. E sejamos claros também: estamos muito orgulhosos dos jornalistas da AFP que trabalham incansavelmente nesta cobertura, alguns deles em condições muito perigosas. Eles fizeram coisas extraordinárias.

Mas não somos perfeitos. A coleta de informações em tempo real é complicada e, às vezes, desordenada. Enviamos diariamente centenas de matérias, fotos e vídeos. Apesar dos nossos melhores esforços, cometemos erros e fazemos escolhas imperfeitas. Mas somos transparentes. Corrigimos, ajustamos, atualizamos. Nós nos esforçamos para obter informações corretas e reportar esta guerra no terreno em Israel e em Gaza, sem medo ou preconceitos.

Todos os dias recordamos os nossos princípios editoriais, o nosso manual editorial e as nossas diretrizes sobre a necessidade de indicar as fontes das informações. Somos uma agência de notícias, não fazemos editorial. Cada informação que enviamos aos nossos clientes requer uma fonte clara.

A nossa editora-chefe, juntamente com os nossos responsáveis pelos princípios editoriais, atualizam regularmente as nossas diretrizes editoriais sobre a guerra Israel-Hamas, com o objetivo de garantir uma cobertura justa e equilibrada em todo o mundo.

É uma cobertura para a qual está mobilizada grande parte da nossa equipe de 1.700 jornalistas. Informamos sobre protestos causados pela guerra em países ao redor do mundo. As mesmas regras devem ser aplicadas em todos os lugares.

Na AFP, priorizamos ter jornalistas no terreno que possam ser testemunhas diretas dos acontecimentos. Temos hoje cerca de 50 jornalistas trabalhando em Israel, na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. A maioria vive nesses locais de forma permanente – israelenses, palestinos, estrangeiros. Desde o início, eles contribuíram com seus conhecimentos e suas fontes. Nas últimas semanas, cerca de 15 enviados especiais juntaram-se a eles.

Temos equipes que viajam por Israel para relatar o impacto do ataque de 7 de outubro, que deixou cerca de 1.400 israelenses mortos, a maioria deles civis.

Contamos as histórias de israelenses comuns e documentamos a situação militar. Contamos cenas de horror nas comunidades atacadas pelo Hamas, nos necrotérios onde foram recolhidos restos mortais e no festival de música onde centenas de jovens foram massacrados. Contamos as histórias dos reféns israelenses e suas famílias. Estivemos presentes em muitos funerais comoventes. E nos esforçamos para continuar contando as histórias das vítimas israelenses de 7 de outubro, mesmo agora, quando os acontecimentos em Gaza ocupam o centro das atenções.

Em Gaza, temos nove jornalistas palestinos que trabalham em condições muito precárias. Eles tiveram que abandonar suas casas e nosso escritório na Cidade de Gaza teve que ser evacuado quando o Exército de Israel instou a população a partir para o sul. Resta apenas uma câmera de vídeo no teto do prédio, que transmite imagens ao vivo para canais de televisão de todo o mundo.

A nossa equipe agora está abrigada em apartamentos compartilhados e tendas com cerca de 60 familiares perto de Khan Yunis. Há pouca comida e água, os bombardeios contra alvos à sua volta continuam. Alguns perderam familiares, todos perderam amigos ou vizinhos. Suas casas desapareceram. O clima é de desespero.

Estes jornalistas continuam demonstrando uma coragem extraordinária e resiliência ao documentar a morte e a destruição à sua volta. Mais de 25 jornalistas palestinos morreram. Seu trabalho os leva a hospitais e necrotérios. Eles viram centenas de mortos e feridos, incluindo mulheres e crianças. As histórias humanas de sofrimento que testemunham podem ser aterrorizantes. As autoridades do Hamas em Gaza afirmam que mais de 9.000 pessoas, incluindo milhares de crianças, morreram nos bombardeios.

Neste momento, a nossa equipe está bloqueada em Gaza. Não há como sair desse território. A direção da AFP mantém contatos regulares com o Exército de Israel. Disseram-nos que a imprensa não seria alvejada deliberadamente, mas que não podem garantir a segurança dos nossos jornalistas. Pressionamos todas as autoridades relevantes por ajuda. O fato de algumas pessoas terem conseguido sair de Gaza rumo ao Egito desde 1º de novembro nos dá um pouco de esperança.

– EXPLOSÃO NO HOSPITAL –

A complexidade desta cobertura foi ilustrada pela explosão no hospital Al Ahli, na cidade de Gaza, em 17 de outubro.

A AFP, como muitos outros grandes veículos de comunicação, relatou afirmações de funcionários do Ministério da Saúde do Hamas de que entre 200 e 300 pessoas morreram em um ataque aéreo israelense. Entramos em contato imediatamente com o Exército de Israel para ter a sua reação e incluímos um primeiro comentário nas nossas matérias nos 15 minutos que se seguiram ao alerta sobre a explosão. Cerca de três horas depois, Israel negou e acusou um míssil da Jihad Islâmica de ser o responsável, o que nos levou a reescrever completamente as nossas matérias. Mas na batalha da informação, as alegações do Hamas assumiram a liderança.

Os veículos de comunicação foram duramente criticados pela cobertura deste incidente, por terem dado muita importância às afirmações do Hamas.

Poderíamos ter tratado a notícia de outra maneira? Sim. Deveríamos ter sido mais comedidos na nossa linguagem e deveríamos ter deixado claro que a AFP não podia confirmar de forma independente as afirmações do Hamas. Como resultado disso, atualizamos as nossas regras editoriais.

Poderia a AFP ter ignorado essa declaração do ministério do Hamas? Não. A mídia tradicional não é mais a guardiã da informação. A notícia já estava nas redes sociais. Nosso trabalho é verificar e contextualizar. Os analistas e especialistas militares que consultamos para nossa apuração desta explosão parecem se inclinar para a hipótese de um míssil palestino, mas não descartaram nenhum cenário.

Fazemos todo o possível para proteger os nossos jornalistas em Gaza porque estamos plenamente conscientes dos perigos desta guerra.

A fotógrafa da AFP Christina Assi continua hospitalizada depois de ter sido gravemente ferida em um ataque no sul do Líbano, em 13 de outubro, no qual morreu o colega da Reuters, Issam Abdallah. Cinco outros jornalistas, incluindo Dylan Collins, da AFP, e repórteres da Reuters e da Al Jazeera, ficaram feridos. Os jornalistas acreditam que foram atacados por fogo israelense vindo do outro lado da fronteira. Investigações foram abertas e ainda estão em andamento.

Também fazemos todo o possível todos os dias para proteger a saúde mental dos nossos jornalistas. Na era digital, a batalha da informação é muitas vezes travada por meio de imagens angustiantes e violentas.

Os nossos jornalistas estiveram entre as primeiras testemunhas independentes das atrocidades cometidas no sul de Israel em 7 de outubro. As imagens que enviamos de civis mortos em um ponto de ônibus ou em seus veículos deram a volta ao mundo. São muito pesadas. Também estivemos no primeiro grupo de jornalistas a ter acesso aos kibutz perto da fronteira com Gaza, que foram palco dos piores atos de violência do Hamas.

Desde o primeiro dia, verificamos e enviamos aos clientes imagens procedentes de socorristas israelenses, câmeras de vigilância, ‘dashcams’ ou câmeras corporais encontradas nos corpos de milicianos mortos do Hamas. Enquanto os nossos editores examinavam grandes quantidades de imagens das atrocidades, os nossos jornalistas de verificação digital foram confrontados com uma onda de vídeos falsos ou manipulados que retratavam cenas de violência fora de contexto ou sem qualquer vínculo com a guerra.

Essas imagens fazem parte das milhares de fotos e vídeos difíceis de suportar produzidos por jornalistas da AFP nas últimas semanas. As imagens de crianças mortas e feridas em Gaza são particularmente perturbadoras.

Fazemos esse trabalho para tentar ter uma visão clara dos acontecimentos e oferecer dados verificados aos nossos clientes em todo o mundo. Mas estamos muito conscientes do impacto psicológico nos nossos jornalistas. É brutal e temos que protegê-los e apoiá-los.

Apesar de todas as pressões, sentimos que temos uma grande responsabilidade e uma missão. As mensagens de apoio dos nossos clientes e a solidariedade com colegas de outros veículos de comunicação nos encorajam: nosso trabalho é mais importante e relevante do que nunca.

afp/mar/js/aa/ic