Nossos políticos merecem um prêmio

Do Nobel de Literatura ao funcionário do mês do McDonald’s do seu bairro, quem é que não gosta do reconhecimento de seus pares? Prêmio é bom. Prêmio motiva. Quando o sujeito ganha, pouco importa a opinião dos outros, desde que ele suba ao palco e diga meia dúzia de palavras para matar os concorrentes de inveja. Claro que nem todo prêmio é transmitido ao vivo para 130 países. Ainda bem. Quem, afinal, quer assistir o vencedor de a “Melhor Cirurgia de Intestino de 2020”. Sim, existe. Eu pesquisei.

Oscar, Grammy, Globo de Ouro, Troféu Imprensa e Miss Universo, esses a gente gosta de ver. E, apesar de tantas premiações, existe uma categoria esquecida: a dos políticos. Gente que trabalha o ano inteiro para alegrar as nossas vidas e com quem jamais nos preocupamos em retribuir, reconhecendo o talento dos mais brilhantes. Não é justo. Está mais do que na hora de criar um prêmio para eles. O fim do ano é ideal para essa escolha, afinal, agora podemos ver quais metas foram cumpridas e quem se destacou.

Claro que para o prêmio ter credibilidade seria necessário um júri de notáveis. Infelizmente, não conheço nenhum notável. Pior, duvido que você também conheça algum. Os notáveis formam uma categoria cada vez mais rara no Brasil. Então, resolvi criar sozinho os prêmios, as categorias e escolher os vencedores da primeira edição. Quem sabe ano que vem aparece um patrocinador. Uma empreiteira, por exemplo.

O Prêmio Bom de Voto 2020 será entregue no próprio Congresso Nacional e transmitido pela TV Câmara, para não privilegiar nenhuma rede, é claro. Para mestre de cerimônias neste primeiro ano, Eduardo Suplicy. Ele não tem cargo nenhum e ainda permite economizar na atração musical.

A estatueta será um índio vestido de militar, que é para representar a grande habilidade dos políticos em combinar interesses que parecem conflitantes. Semiótica pura. O primeiro prêmio será produzido em nióbio. Os vencedores
e as categorias que escolhi para esta primeira edição são:

Melhor Edição
Flávio Bolsonaro. Já disse um grande cineasta — ou escultor — que “o talento está em cortar o excesso”. Em matéria de cortes, ninguém supera o senador, que foi capaz de limar um Queiroz inteiro. Seria magia, não fosse política.

Melhor Drama
Continuando com a família real, quer dizer, presidencial, Eduardo Bolsonaro viveu um drama comparável às tragédias gregas. Ele viu o sonho de se tornar embaixador brasileiro nos EUA escorrer pelos dedos sem perder a dignidade. No mínimo merece um prêmio.

Melhor Direção
Olavo de Carvalho, o homem que controlou o destino da obra presidencial por incontáveis vezes neste ano. Isso sem nem sequer ter um cargo no governo. Alguns tentaram anular a escolha, dizendo que não se trata de um político. Coitados, não sabem de nada.

Melhor Ator Coadjuvante
Moro tinha tudo para levar. Mas acabou ofuscado pelo Mourão. Fazer o quê?

Melhor Curta
Barbada. Alexandre Frota durou pouco. Justo ele, que ironia.

Melhor Comédia
Aqui a briga foi boa. Concorriam pelo menos quatro ministros. Mas depois de listar as mais profundas competências de cada um, não restou dúvida. O vencedor será revelado apenas no dia da entrega, que é para atrair mais público.

As demais categorias eu mantenho em segredo. Anote aí e confira no dia se você acertou os melhores em Trilha Sonora, Documentário e Suspense. Tente também cravar o que o Suplicy vai cantar no encerramento: Bob Dylan ou Racionais MC’s.

A falta de notáveis no júri não vai prejudicar a festa. As principais premiações serão para os suspeitos de sempre. As demais, só conto no dia


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