Edição nº2544 21/09 Ver edições anteriores

Nossa memória, história e essência viraram pó

O lendário primeiro-ministro inglês, Winston Churchill, certa vez deparado com a proposta de cortar o orçamento dos museus para direcionar mais recursos aos esforços militares da 2º Grande Guerra teria respondido de pronto ao que considerou uma insolência: “se é para fechar museus, por que entramos em guerra?”. A suposta reação do líder conhecido como o Buldogue de Oxfordshire diz muito da natureza daquele país, de seu povo e do valor dado à preservação da cultura por lá. Um contraponto em larga distância da atenção, interesse e prioridade notados por aqui nesse campo. A catástrofe do incêndio que transformou em cinzas o maior, mais completo e vistoso Museu Nacional, abrigado no Palácio da Quinta da Boa Vista, que serviu de residência à família imperial, é fruto do descaso e desinteresse do País para com a sua memória. Mais que isso, transformou-se numa parábola dramática da atual crise moral, política, econômica e social do Brasil. Uma destruição repleta de simbolismos que empurra o sentimento da população a níveis insuportáveis de indignação. Como foi possível isso tudo acontecer? Em questão de horas foram dizimados os vestígios de nossa história. As 20 milhões de peças arqueológicas, científicas e literárias viraram pó. Itens de valor imensurável relativos à etnologia e geologia, coleções raríssimas que aqui aportaram no século 19, consumidas da noite para o dia pelo fogo. Um prédio belíssimo, de 200 anos, desabando em chamas. Reflexos inevitáveis do abandono que perdurou por anos. Salões e corredores do Museu exibiam há tempos os tristes sinais de sua degradação: de goteiras a infiltrações, instalações elétricas precárias, cupim, mofo, havia problema por todos os lados. Mais cedo ou mais tarde, a negligência cobraria o seu preço. A verba irrisória, quase esmola, concedida pelos sucessivos governos e mandatários – que jamais colocaram os pés naquele patrimônio – não passava de míseros R$ 515 mil anuais, para cobrir, como se fosse possível, o total dos gastos administrativos, com pessoal e preservação. Especialmente neste último ano, para a vergonha e revolta de quem ficou perplexo com a perda, o valor não alcançou R$ 100 mil até o presente momento. A gestão incompetente, partidária e irresponsável da UFRJ, sob a direção do PSOL, legou cortes sucessivos na verba destinada à Instituição. Não foi, portanto, surpresa um sinistro tão devastador. O incêndio na Quinta da Boa Vista queimou nossas esperanças, a essência, identidade e memória de cada um de nós. Um desaforo ultrajante. Qual o futuro de uma Nação que não se preocupa com o seu passado? A comoção veio a seguir ao ocorrido e contagiou de estudantes a intelectuais – que, cerimoniosamente, fizeram um abraço aos escombros. O protesto do luto não é o suficiente para resgatar a perda irreparável ou mesmo para recompor a dignidade de um povo. Ações de liberações imediatas de financiamento, da ordem de R$ 20 milhões, não trarão de volta “Luzia”, o ser humano mais antigo do continente americano, com idade entre 11 mil e 13 mil anos. Não salvarão as milhares de espécimes botânicas perdidas, nem os fósseis, documentos, múmias e sarcófagos seculares, o maior dinossauro brasileiro já montado com peças originais, que queimaram implacavelmente. Naquele inferno devastador do Museu da Quinta da Boa Vista ardeu o quinto maior acervo histórico do mundo. Arderam os murais de Pompeia, os afrescos do Templo de Ísis, os registros da assinatura da Lei Áurea, o principal acervo de meteoritos da América Latina, o pergaminho do século XI com manuscritos gregos sobre os quatro evangélicos, a Bíblia Poliglota da Antuérpia de 1569, a primeira edição de “Os Lusíadas”, a primeira edição da “Arte da Gramática da Língua Portuguesa,” escrita pessoalmente em 1595 pelo Padre José de Anchieta. Arderam o primeiro jornal impresso do mundo (datado de 1601), duas bibliotecas com milhares de livros e o prédio onde foi assinada a Independência do Brasil. Em questão de horas, perdemos praticamente tudo. Não teria sido melhor prevenir do que remediar? Foi o Brasil inteiro – autoridades, empresas e o público em geral – quem deu as costas ao Museu Nacional. Não é de hoje, tripudiamos de nossa origem. Ao longo do tempo virou alvo de pilhéria o comportamento “deselegante” da imperatriz Leopoldina que se lançava ao chão e garimpava nas rochas relíquias, no seu afã de recolher o máximo de plantas raras e pedras preciosas para compor o acervo da Quinta da Boa Vista e deixar pistas sobre nossas raízes. Seu esforço foi completamente perdido no último domingo. Impossível dimensionar o impacto da tragédia que tem alcance mundial. Autoridades de vários continentes comparam a destruição do Museu à vandalização da cidade milenar de Palmira por terroristas islâmicos na Síria. Por aqui não precisamos de terroristas. Fomos capazes, sozinhos, de reduzir a nada tamanha riqueza. Seguidos dirigentes saquearam as chances de sobrevivência desse e de inúmeros museus pelo País. Nesse tocante, não se trata de culpar a um ou a outro exclusivamente nem de se deixar levar pelo bate-boca oportunista dos políticos que fogem à responsabilidade e tentam ganhar pontos indevidos em momentos de dor. A presidente deposta, Dilma Rousseff, por exemplo: foi a primeira dentre esses a lançar nas redes sociais insinuações abjetas ao sucessor como se ela mesma não tivesse tido culpa capital no episódio. As instituições de cultura brasileiras perderam-se no loteamento desaforado de cargos e no compadrio dos aliados. Não há ali gestão profissional ou conselhos ativos da sociedade. E não é de hoje. No caso do Museu Nacional, desde os primórdios da República ele não mereceu a atenção necessária, talvez deliberadamente por evocar valores dos tempos do império. Suprema ignorância que agora não tem mais conserto. Pobre do Brasil.


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