Comportamento

Artistas brasileiros restauram maquete sobre a São Paulo de 1841

Maquete centenária que acaba de ser restaurada é uma representação fidedigna de São Paulo na primeira metade do século 19, quando a cidade provinciana começava a ganhar seus primeiros elementos de imponência e se desenvolvia como ambiente de negócios

Crédito: Divulgação

ARQUITETURA Fotografia do Pátio do Colégio, tirada em 1862 por Militão Augusto de Azevedo: esforço de recriação da cidade colonial (Crédito: Divulgação)

Na primeira metade do século 19, nos tempos da Independência, São Paulo era um lugar acanhado com cerca de dez mil moradores no seu perímetro urbano e pouco mais de 25 mil habitantes no total, segundo recenseamento e 1836. A cidade se projetava a partir do Pátio do Colégio numa área triangular entre o Rio Tamanduateí e o Córrego do Anhangabaú. Possuía pouco mais de 50 ruas, travessas e becos e era delimitada pelas igrejas do Carmo, São Bento e São Francisco. Viajantes como o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire descreviam a região como agradável, arejada, limpa, fresca e com casas espaçosas e cheias de janelas. Cortada por inúmeros riachos e cercada de vegetação abundante, São Paulo era um enclave colonial e em nada insinuava a metrópole em que começaria a se transformar 30 ou 40 anos depois. Um retrato daqueles tempos, uma maquete em gesso que mostra o núcleo urbano da cidade em 1841, poderá ser visto, a partir de setembro, no Museu do Ipiranga como um de seus principais destaques. Obra do modelador holandês Henrique Bakkenist, ela foi encomendada em 1922 pelo então diretor da instituição, Afonso d’Escragnolle Taunay, por ocasião do centenário da Independência. Com 30,5 metros quadrados, sua visão magnífica permite reviver a experiência de estar em São Paulo há dois séculos.

TRIÂNGULO A colina do centro é delimitada pelas igrejas do Carmo, São Francisco e São Bento (Crédito:Divulgação)

“Taunay tentava mostrar que a cidade na época da independência já era imponente, embora rústica” Paulo Garcez, historiador

Apesar da atmosfera provinciana, na passagem da colônia para o império a capital paulista estava longe de ser um local modorrento. Já era agitada e cheia de energia, além de precocemente orientada para os negócios. Era um entreposto comercial conectado com o porto de Santos e com as áreas agrícolas do interior, além de rota de passagem de tropeiros que vinham do Sul em direção a Minas Gerais e ao Rio de Janeiro e ponto de conexão com o Paraguai e a Bacia do Prata. No seu antigo núcleo urbano, que preserva o traçado até hoje, duas ruas se destacavam: a da Quitanda e a das Casinhas (hoje Rua do Tesouro), que podem ser vistas na maquete. Na primeira eram vendidos produtos frescos de consumo imediato como legumes e frutas e na outra se ofereciam produtos mais duráveis, como farinha, toucinho, arroz e feijão. “Não há em São Paulo rua mais frequentada que a das Casinhas. A gente do campo ali vende suas mercadorias aos comerciantes, em cujas mãos os consumidores vão adquiri-las”, disse Saint Hilaire. Tropeiros circulavam trazendo e levando mercadorias para várias partes do País. Além de polo comercial, era um centro produtivo. O município se destacava, por exemplo, na produção de chá, telhas, cavalos, farinha de de mandioca, muares e roupas. E havia grande diversidade de gêneros alimentícios.

IMAGINAÇÃO Trabalho de restauração da maquete que representa São Paulo em 1841: experiência de olhar a cidade há dois séculos (Crédito:Eduardo Knapp)

Quando encomendou a maquete, Taunay queria uma representação de 1822. Como não havia plantas daquele ano, foi utilizada como base a primeira carta cadastral da cidade, de 1841, com o recorte na chamada Colina do Centro. Não aparece o bairro da Liberdade, antes bairro da Pólvora, por exemplo, ou a Rua Santa Efigênia ou o Monumento do Piques, referências urbanas já existentes na época. Tampouco se vê o Ipiranga, que ficava longe, no caminho da serra. Para estabelecer o padrão das fachadas das casas, Bakkenist recorreu a desenhos, aquarelas e especialmente a imagens do fotógrafo Militão Augusto de Azevedo, feitas a partir de 1862. A maquete inicialmente era toda branca e foi pintada apenas em 1984. Segundo descrições de viajantes, nas casas da cidade no período colonial, além do branco, apareciam tons de amarelo palha e rosas pálidos. As construções da cidade eram todas as taipa de pilão, inclusive as mansões, como o Solar da Marquesa de Santos, que existe até hoje. Havia poucos edifícios de pedra, basicamente as igrejas. Apesar de serem de taipa, viajantes que passavam pela cidade diziam que era de aparência muito sólida. No começo do século 19, as olarias começaram a aparecer na cidade e as telhas vermelhas eram o padrão na paisagem no centro.

“Com a maquete, uma representação que obedece certos critérios de escolha, Taunay tentava mostrar que a cidade na época da independência já tinha intensa atividade comercial e era imponente, embora rústica”, diz o historiador Paulo Garcez, um dos curadores do Museu Paulista. “Não só a maquete, mas todo o Museu Paulista sob sua gestão cria uma visão positiva sobre o passado colonial e imperial de São Paulo.” Naquele momento, São Paulo ganhava novas características que definiriam o seu cosmopolitismo até o final do século. Um deles foi a criação da faculdade de Direito do Largo São Francisco, inaugurada em 1828, que deu mais peso político à cidade. Um pouco antes, em 1825, havia sido instalado o Jardim Botânico, hoje Parque Luz. O município ainda não tinha recebido a linha férrea e mal começava a colher os benefícios do café plantado no interior. Mas já era um cidade instigante, cheia de conexões, que carregava os louros da glória de ser o cenário da independência do País.