Vivemos um tempo em que a linha entre fazer justiça e praticar o justiçamento tornou-se perigosamente tênue. Diante de acusações e boatos, o veredito costuma chegar antes das provas, impulsionado pela pressão coletiva. É esse cenário que serve de base para Nós, os Justos, nova peça escrita e dirigida por Kiko Rieser, que estreia no dia 6 de março no Teatro Itália, em São Paulo.
Ambientada no microcosmo de uma grande empresa, a obra acompanha o impacto de um rumor sobre a conduta de um funcionário. Mais do que retratar um conflito individual, o espetáculo investiga como a “cultura do cancelamento” opera no plano presencial, corroendo o espaço da escuta e transformando corredores corporativos em tribunais de exceção.
A alegoria do julgamento e o “quinto personagem”
Originalmente escrita em 2018, a peça incorpora o conceito de compliance para refletir um tempo de trânsito instantâneo de informações. A encenação mimetiza uma estrutura de julgamento, onde o palco se torna uma arena de tensão constante. Segundo Rieser, os quatro personagens principais cumprem papéis simbólicos: o juiz, a acusação, a defesa e a testemunha.
Entretanto, um elemento fundamental da montagem é o “personagem invisível”: um coro formado pelos demais funcionários, apelidados ironicamente de “a manada”. Eles representam a força coletiva que vigia e exige punições, atuando como um tribunal informal que molda destinos sem nunca aparecer fisicamente em cena. “A peça não entrega respostas; apenas as oferece dialeticamente, convocando à escuta antes de qualquer tomada de posição”, conclui o diretor.
Guerra de narrativas e o desapego da direção
Na trama, a verdade deixa de ser um dado para se tornar uma construção instável. Sem provas conclusivas, o caso passa a ser definido pela força dos discursos, sacrificando a complexidade em favor de interpretações simplificadas. Rieser pontua que o cancelamento muitas vezes nasce de um clamor legítimo por justiça, mas o risco surge quando este se converte em desejo de punição imediata.
Dirigir o próprio texto exigiu do encenador o exercício de “matar o dramaturgo” em prol da potência cênica. No palco, os atores Camila dos Anjos, Luciano Gatti, Marco Antônio Pâmio e Thamiris Mandú coexistem em planos paralelos durante toda a montagem, reforçando a ideia de vigilância constante. O objetivo é que o público saia com a “dúvida plantada na cabeça” e pondere antes de reproduzir comportamentos de bando comuns nas redes sociais.
Sinopse e reflexão
Em uma sindicância interna, cada depoimento carrega ambiguidades e interesses ocultos. Pequenos detalhes ganham peso desproporcional e informações do passado ressurgem, tornando impossível tomar partido sem o risco de erro. É um retrato de uma sociedade que perdeu a capacidade de ouvir e que naturalizou o ato de julgar segundo princípios próprios.
Serviço: Nós, os Justos
Local: Teatro Itália – Av. Ipiranga, 344 – Centro, São Paulo.
Estreia: 6 de março de 2026, sexta-feira, 20h.
Temporada: Até 26 de abril.
Sessões: Sextas e sábados, 20h; domingos, 19h.
Ingressos: R$ 90 (inteira) e R$ 45 (meia).
Classificação: 14 anos.
Vendas: Sympla – Nós, os Justos
Ficha Técnica Resumida:
Texto e Direção: Kiko Rieser.
Elenco: Camila dos Anjos, Luciano Gatti, Marco Antônio Pâmio e Thamiris Mandú.
Trilha Sonora: Marcelo Pellegrini.
Realização: Companhia Colateral.