Cultura

Nora Krug: ‘Não acho que teria escrito esse livro se tivesse ficado na Alemanha’

Foram seis anos para a escritora e ilustradora alemã Nora Krug pesquisar, escrever e ilustrar Heimat: Ponderações de uma Alemã Sobre Sua Terra e História, seu livro mais recente publicado agora no Brasil pelo selo Quadrinhos na Cia. A obra não é exatamente um romance gráfico, tampouco um livro comum, mas encontra na mistura equilibrada entre os dois na sua forma muito particular de entrar em contato com o passado e transformar esse encontro, para além da culpa que ele pode gerar, quando estamos falando de tragédias históricas. A escritora conversou com o jornal O Estado de S. Paulo pelo Skype, de Nova York, onde vive há mais de uma década.

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Por que você decidiu fazer uso de uma estrutura visual para investigar o seu próprio passado? Essa decisão deixou você mais perto da sua própria Heimat?

Acredito que as imagens fornecem um acesso direto ao passado, porque a nossa memória é também visual. Ao mesmo tempo, ilustrar me permitiu enxergar por mim mesma situações e realidades da minha família. Porque muitos momentos retratados no livro, ou mesmo emoções, não há evidências históricas físicas, não há fotos para todos os momentos da vida do meu avô sob o regime nazista. Olhando para algumas dessas situações, tive que me imaginar no lugar dele, visualmente, em três dimensões… Isso fez me aproximar dele. Também foi uma maneira de testar os limites da minha própria empatia, porque obviamente eu não concordei com muitas das decisões que meus avós tomaram.

O livro tem um profundo senso de “estar entre” (situações, sentimentos, histórias e lugares). Como viver em outros países por mais de 20 anos afetou você e a maneira como pensa sobre a Alemanha?

Não acho que teria escrito esse livro se tivesse permanecido na Alemanha. Para mim, ele se materializou porque tenho vivido fora por 20 anos, uma alemã entre não alemães. Por causa disso, vi a mim mesma, e o meu país e o passado dele com uma distância que provavelmente não seria possível se eu tivesse ficado.

Eu também reconheci o que nós aprendemos na minha geração, e na minha experiência, num nível institucional e coletivo. Aprendemos muito na escola sobre a guerra e o Holocausto, mas não fomos apresentados às ferramentas necessárias para transformar essa sabedoria em algo produtivo, para o presente. Algo que ajude a nossa democracia, ou que a faça a sociedade permanecer tolerante. Há um sentimento de culpa paralisante, porque não há como aplicar esse conhecimento. Viver fora, me fez perceber que eu deveria me aprofundar na história da minha família para vencer essa força paralisante.

Uma das partes mais instigantes do livro são os “álbuns de recortes de uma arquivista de memórias”, em que você coleta materiais de pessoas que viveram sob o regime nazista. Como foi a experiência de procurar e comprar esses objetos?

Comecei a colecionar essas coisas porque entendi que esses objetos forneciam um acesso físico ao passado, que não existia nos livros de história nem na voz dos meus pais e avós, porque eles não falavam muito sobre a guerra. Procurar todas essas coisas nas feiras pela Alemanha – eu não estava interessada em material de propaganda, mas sim em objetos pessoais de gente que viveu no regime nazista. Colecionar essas coisas me fez ter um entendimento físico sobre aquele tempo. Ler as cartas de soldados na linha de frente… Senti que foi muito importante para mim, no sentido de montar um arquivo. E elas podem acabar nas mãos erradas… acho que essas coisas pertencem a arquivos. Estou trabalhando numa exibição pública com esses objetos.

No Brasil (e em outros países, como os próprios Estados Unidos), uma das maiores tragédias históricas é a escravidão. Mas nesse caso quase não há registros, há menos caminhos para tentar encontrar os rastros de sua família e dos seus ancestrais no passado. Baseada na sua experiência, que caminhos você indicaria?

Acho que a primeira coisa a se reconhecer é que a questão da escravidão não está acabada ainda. A maneira como muitas pessoas são tratadas no dia a dia (pelo menos nos EUA) é uma continuação da escravidão. Há tantas injustiças contra pessoas de várias etnias, é revoltante que isso ainda esteja acontecendo. Então, talvez o primeiro passo seja reconhecer a conexão com o passado. E aí, claro, tomar responsabilidades individuais. Porque é muito fácil apontar o dedo para outros lugares, mas eu diria que muitos americanos nunca fizeram nenhuma pesquisa para descobrir se suas famílias têm um passado relacionado à escravidão. Os documentos provavelmente não estão facilmente disponíveis, mas é preciso tentar. Outra coisa que entendi é que a democracia não é uma situação perene. Sempre entendi, enquanto alemã, que a democracia nunca deixaria de ser o sistema, mas por conta das mudanças políticas em todo o mundo, entendo que não é assim… é um processo que precisamos modelar, trabalhar e defender, todos os dias. É preciso lutar pela democracia.

Que trabalhos de arte inspiraram a sua busca?

Visualmente, sempre admirei o trabalho de Otto Dix (pintor expressionista, 1891-1969) e Georg Grosz (1893-1959) e muitos de outros expressionistas alemães, porque muito do trabalho deles foi sobre o efeito que a Primeira Guerra teve no país e nas pessoas. Admiro muito a maneira franca com que eles mostraram as consequências da guerra mais perto das pessoas por meio do trabalho. WG Sebald, que eu li depois de ter terminado meu livro, também passei a admirar muito. Ele pensou muito sobre as mesmas questões que eu.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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