Cultura

No teatro, temas inquietantes com abordagem ousada encontram novos públicos

A cada virada de ano, a cena teatral é a mais sensível e seus artistas os mais atentos às mudanças políticas e institucionais pelo País. Antes de 2018 acabar, os ânimos não eram mesmo os melhores e a produção já antecipava embates a se enfrentar. No governo federal, o MinC já havia virado lenda, desde 2018, após uma decisão que já deixara os primeiros sinais no financiamento de grandes produções, como os musicais e o cinema.

No caso do teatro, que precisa de menos recursos para se erguer – mas ganha em retorno a cada temporada cumprida – a cidade de São Paulo fez movimento diverso e marcou o início do ano com nomeações simpáticas no campo da Cultura. Ao assumir a secretaria municipal de Cultural, Alê Youssef nomeou o diretor Pedro Granato para estar à frente dos centros culturais e teatros distritais, equipamentos que vinham com programações mornas e esvaziadas, desde a última gestão.

Segundo avaliação da secretaria, até agosto foram 664 mil espectadores no circuito de espaços do município, superior aos 612 mil no mesmo período de 2018. Os dados de 2019 ainda não foram divulgados. É uma forma de buscar um gargalo antigo do teatro paulistano: plateia e ingresso. Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, na ocasião da nomeação, Granato disse: “Deveria ser um orgulho comprar ingresso. Convite para teatro é aristocrático, eu sou amigo do rei e não preciso pagar”.

Na busca por atrair diferentes públicos pela cidade, novos teatros e espaços culturais frutos da iniciativa privada floresceram ao longo do ano. Em recente mapeamento, o Estado contabilizou a abertura de novas salas ou espaços reformados nas quatro regiões da cidade, com tamanhos diversos: o menor, o Teatro Unimed, com 240 lugares e o gigante Teatro Liberdade com 900 lugares. O Teatro Vivo, que estava fechado havia nove meses reabriu após reforma com a estreia de Eu de Você, solo de Denise Fraga criado a partir de histórias reais que a atriz foi buscar com o público. Para quem assistiu a Galileu Galilei e A Visita da Velha Senhora, Denise confirma um talento construído com dedicação, dessa vez sozinha no palco, em uma peça que atravessa gerações com histórias tocantes sem perder a inquietação pela natureza teatral.

Aliás, os destaques das montagens de 2019 seguem perfil semelhante ao de Denise. A atriz Janaina Leite, talvez a mais radical da lista, embaralhou a crítica, feministas e os espectadores com Stabat Mater. A peça é uma mistura bem-vinda de autoficção, documentário e performance.

A atriz convida sua mãe ao palco para debater histórias delicadas que quase sempre terminariam em lágrimas, ou com um número de pole dance, como é o caso da peça de Janaina. Outra montagem que explora aspectos da intimidade é Entre, de Eloisa Elena. O título sem tanta ambição não se compara à encenação proposta por Yara de Novaes e Carlos Gradim. Enquanto dois irmãos vão visitar a terceira irmã em seu apartamento, a rotina dos vizinhos desperta atenção ao trazer à tona o tema da violência doméstica.

Para Dodi Leal, professora do curso Artes do Corpo em Cena, da Universidade Federal do Sul da Bahia, a produção teatral no País buscou elaborar os diversos enfrentamentos sociais e políticos e sugere que a caminhada é longa. “Quando se perde apoio, o valor de uma obra é afetado. Em uma lógica de produto comercial, o teatro sempre perde. É preciso fortalecer as políticas públicas.”

Lembrar as mulheres que marcaram a cena em 2019 exige também que se fale de Fernanda Montenegro. Aos 90 anos, a atriz presenteou o público paulistano, em novembro, com a leitura de Nelson Rodrigues por Ele Mesmo, no Teatro Municipal. A celebração não veio pequena, mas do porte da atriz, que ainda brilhou no cinema em A Vida Invisível, e no sombrio O Juízo. Tamanho sucesso não veio sem ruído.

Em setembro, o dramaturgo Roberto Alvim usou palavras como “sórdida” e “mentirosa” para se referir à atriz. Alvim foi convidado por Jair Bolsonaro em junho para ser diretor-geral da Funarte, cargo que deixou em outubro ao ser nomeado pelo presidente para a Secretaria Especial da Cultura. Em sua gestão, a secretaria pulou de pasta em pasta e segue agora no Turismo.

Despedidas

Entre as despedidas deste ano, perdemos o emblemático encenador Antunes Filho, Bibi Ferreira, o cenógrafo José de Anchieta, o diretor Francisco Medeiros e o criador do Ventoforte, Ilo Krugli.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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